Adriano Bermudes estreia solo em ‘Bê’ referenciando o Pós-Punk


Foto do músico Adriano Bê, por Rodrigo Teles
Foto | Rodrigo Teles

Figura carimbada na cena alternativa belorizontina, especificamente aquela mais voltada para o Pós-Punk e o Gothic-Rock, Bê – codinome do músico/compositor Adriano Bermudes – chega ao inevitável primeiro álbum, o autointitulado (Plainsong Records).

O disco foi produzido por Lucas Gomes e gravado no Estúdio Neuma (em Belo Horizonte), apresentando nove canções com letras cantadas em inglês e português.

Músico inquieto, Adriano Bê tem envolvimento em projetos musicais diversos, seja como guitarrista ou (primordialmente) como vocalista, vide participação no Kaust, Ecos no Escuro (parceria com Luccones Nascimento, do The Us) e no quinteto Drowned Men, sua atual banda com quem lançou dois álbuns.

Se nesses projetos as referências musicais oitentistas surgem sob tonalidades variáveis e mais próximas de matizes contemporâneas, aqui essa ligação ganha forma plena e quase umbilical em influências que vão beber diretamente da fonte, em nomes como The Cure (em sua fase mais densa), Sisters of Mercy, passando por Joy Division e Jesus and Mary Chain. Esse último, ponto de inflexão e respiro das atmosferas densas presentes no disco, surge na acústica “Another Day Like Any Other”, sobre as vicissitudes do amor.

É um álbum formado e formatado por canções de ambientações soturnas, construídas por linhas de baixo pronunciadas e protagonistas, característicos timbres de guitarra geralmente melódicos, batidas econômicas de bateria e camadas de teclados gélidos, que explicitam sua filiação a vertente mais melancólica do Pós-Punk inglês.

Instrumentação que disputa espaço com os vocais, que surgem praticamente submersos, às vezes ininteligíveis e com efeito de eco. Todos esses ingredientes estão já na abertura, na faixa “Reprises”. Se musicalmente essa mixagem cumpre bem a função, exige um esforço maior para captar as letras.

Há um objetivo e ele funciona bem: criar composições que arrastem o ouvinte para um universo musical que pode gerar sensações ambíguas, provocadas pelos elementos que oscilam entre o lúgubre e o melancólico que ancora quase todas as faixas, mas também pelo protesto e inconformismo expresso em algumas das letras.

+++ Leia notícia sobre o lançamento de ‘Abyssal’, da banda Drowned Men 

Destaque para “Soldados e Fuzis”, um dos singles e faixa de mais personalidade, e cuja letra remete a “Carta aos Missionários”, da banda Uns e Outros. Uma reflexão sobre a escuridão, aquela que cada uma parece trazer dentro de si e aquela à qual somos atirados por quem detém o poder, facilitada por nossos corações cada vez mais endurecidos: “Algo morreu em nós / A parte humana em nós / Não há mais compaixão / Apenas ódio e destruição!”.

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FICHA TÉCNICA E MAIS INFORMAÇÕES:

ANO: 2022
GRAVADORA: Plainsong Records
FAIXAS: 09
DURAÇÃO: 46:32 min
PRODUTOR: Lucas Gomes
DESTAQUES: “Reprises”, “Time Doesn’t Wait and Death is in a Hurry”, “Another Day Like Any Other”
PARA FÃS DE: Pós-Punk, Gothic-Rock

 

 

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