TITÃS – Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991)


“Um álbum antítese ao seu antecessor, incompreendido, mas corajoso”

Após o sucesso de “Õ Blesq Blom”, os Titãs resolveram fazer um disco mais sujo, com ênfase em elementos orgânicos, numa espécie de volta à fase esporrenta de “Cabeça Dinossauro”/”Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, para isso dispensaram a produção de Liminha, se enfurnaram na casa do guitarrista Marcelo Fromer,  e começaram os ensaios onde delinearam o que seria seu sexto álbum.

No documentário de mesmo nome do álbum, Paulo Miklos define todo o processo de construção do disco: “Pra começar, três meses trancafiados  numa sala debaixo de um sol infernal. Depois, um mês e meio com as orelhas queimando dentro dos fones, gravando. Depois, mais um mês e meio, mais ou menos, pra mixar e conseguir encaixar todos os pedacinhos pra conseguir com que isso soasse da maneira como vocês vão ouvir.”

Para uma banda com oito integrantes, realmente não deve ter sido tarefa fácil a produção do álbum, principalmente porque sempre trabalharam com um produtor, em geral Liminha, para guiar os trabalhos. Mas como a ideia era fazer um álbum de garagem sujo, com muitas guitarras, que soasse exatamente como eles imaginavam, prevaleceu esse espírito do “faça você mesmo”. Se o resultado final deixa a desejar no quesito qualidade de gravação/mixagem, impacta em termos sonoros, com uso mais intenso de riffs de guitarra, canções com pegada rock’n’roll (algumas quase punk) e letras que vão da simplicidade da repetição, como em “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” e “Obrigado”, até o escatológico como em “Isso Pra Mim é Perfume”.

Muita gente não entendeu a proposta do álbum (principalmente os críticos), outros ficaram envergonhados de tocar algumas canções, e outros se queixaram da qualidade da gravação. Mas a pergunta que talvez muita gente não fez é: os Titãs precisavam fazer esse álbum da maneira como foi feito?

Qualquer que seja a resposta ela será apenas uma suposição. A verdade é que  TAMTA pode ser considerado um dos álbuns mais corajosos já produzidos na música nacional. Os Titãs poderiam tentar repetir a fórmula de sucesso do álbum anterior, preferiram jogá-la pro alto e fazer o oposto de tudo, seja em termos de produção ou direcionamento musical. “Õ Blesq Blom” era um álbum ótimo, muito bem produzido, diversificado; “TMTA” se apresentava como uma antítese ao seu predecessor, até com uma espécie de desafio, fazer um álbum sujo nos diversos sentido, mas que ainda tivesse as feições da banda.

TAMTA tem uma ideia tão “transgressora” que o normal seria começar com a”Uma Coisa de Cada Vez”(que está lá no final), mas começa de forma surpreendente com “Clitóris”. Uma microfonia inicial prenuncia que algo diferente está por vir. Uma letra falando do orgão feminino de forma enfática com um refrão cantado a plenos pulmões por Paulo Miklos. Pense na cena: o sujeito pega o disco e coloca pra tocar em seu aparelho de som, na sala e já de cara a frase “Clitóris, clitóris, ah, clitóris”!.

Em quinze canções, o álbum desconstrói parte da imagem que ficou colada na banda após o disco anterior, incluindo aí o hit “Flores”, embora nem só de flores fosse feito. O belo trabalho de arte da capa, a cargo do artista plástico Fernando Zarif, capta de forma magistral o conceito “interior” do disco.

Tony Belotto fala em se (des)intimidar para compor as canções, pois nunca um álbum da banda teve tanta ênfase em guitarras. E a crueza do som se espalha pelas letras, com o octeto mantendo a capacidade de escrever sobre coisas tão simples, tão cotidianas, mas jamais cantadas por outro artista de forma tão simples, minimalista: seja na tribal “O Fácil é o Certo”, no suingue embalado por wah-wah de “Não é Por Não Falar” (com um jogo de palavras muito interessante com “em felicidade e infelicidade”),  na simplicidade do punk-rock de “Obrigado”, no balanço de “Se Você Está Aqui” e também em “Uma Coisa de Cada Vez”.  O ápice da proposta “do it yourself” do disco está representado na letra de “Eu Não Sei Fazer Música”: “Eu não sei fazer música, mas eu faço. Eu não sei cantar as músicas que eu faço, mas eu canto…Ninguém sabe nada”. TAMTA era os Titãs buscando a espontaneidade em vários sentidos.

Não faltam as letras falando das relações sociais, como na raivosa e irônica “Filantrópico”, que discorre sobre acumular raiva e rancor sob a máscara de normalidade; as situações surrealistas narradas em “Flat-Cemitério-Apartamento”;  ou a busca do extravasamento para pôr fim às pressões cotidianas, cantada em “Saia de Mim”: “Saia de mim como suor tudo o que eu sei de cor. Saia de mim como excreto tudo que esta correto. Saia de mim saia de mim. Saia de mim como um peido tudo o que for perfeito”, outra das letras com teor explícito.

Encontramos nas letras ainda as questões existenciais, presentes nas letras de “Eu Vezes Eu”, com uma pegada ao melhor estilo do Pixies, da ótima “Já”, uma das melhores do álbum, e a paranoia de “Cabeça”, que rememora “Cabeça Dinossauro”, do homônimo álbum de 1986. E “Agora”, uma das que mais lembra o Titãs de outrora, e que viria a ser regravada por Gal Costa.

TAMTA se tornou mais marcante também por ser uma transição para uma sonoridade mais pesada, influência do grunge, que aconteceria em “Titanomaquia” (1993), já com a produção do experiente Jack Endino, conhecido por produzir bandas grunge. E ainda por ser o último álbum com a presença do vocalista Arnaldo Antunes, autor de algumas das melhores letras, e que saiu em carreira solo.

Se na época de seu lançamento o álbum teve uma recepção bastante reticente, principalmente por parte da crítica musical, não hoje, mas já há alguns anos, olhando em perspectiva, muitos o colocam entre os melhores álbuns da banda. Ou seja, sua força só veio a ser reconhecida tardiamente, o que é muito comum acontecer com grandes álbuns, principalmente aqueles mais transgressores.

:: Assista abaixo ao documentário “Tudo ao Mesmo tempo Agora”:

Anteriores AUTHOR - IIFOIIC (2018)
Próximo Assista ao vídeo de "Habits", de Frabin

2 COMENTÁRIOS

  1. Avatar
    Angelo Campos Coelho
    30/01/2019

    Rock de verdade, poemas rockados, o que for. Um dos melhores da banda. Imperdível!

  2. Avatar
    30/01/2019

    Concordamos contigo, Angelo. Obrigado pelo comentário.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *