‘Uma Segunda Chance para Amar’ traz existencialismo disfarçado de comédia romântica



Uma Segunda Chance para Amar surgiu da parceria inusitada entre a atriz Emma Thompson e o falecido cantor George Michael e o resultado é um filme doce e surpreendentemente melancólico.

Promovido erroneamente como uma comédia romântica natalina genérica, inclusive pelo terrível título com o qual o batizaram aqui no Brasil, faz-se necessário esclarecer que embora ele parta de lugares bem comuns e despretensiosos, este é um filme que consegue quebrar seus próprios paradigmas e apresenta um resultado final bem diferente de tudo que se espera que ele seja.

“Last Christmas i gave you my heart but the very next day you gave it away”

O título original, Last Christmas (Último Natal), pega emprestado o mesmo nome de uma das primeiras composições de George Michael, lançada em 1986 pela banda WHAM!, da qual ele fazia parte. Porém foi há dez anos atrás que sua amiga pessoal, a atriz e roteirista premiada com dois Oscars, Emma Thompson, começou a desenvolver um roteiro tendo como base a citada canção. Mas a morte prematura do cantor, em pleno natal de 2016, acabou transformando a espinha dorsal de todo o projeto.

O filme que chega agora ao grande público não é só baseado em uma mas em várias canções do George Michael, o que além de render no mínimo uma excelente trilha sonora, acabou se tornando uma emotiva homenagem póstuma, que cumpre bem a missão de transpor para as telas um pouco do grande talento e da alma desse sensível artista.

“Wake me up, before you go-go”

Emilia Clarke, a Daenerys de Game Of Thrones, interpreta Kate, uma garota que após se recuperar de uma doença grave, parece totalmente perdida na vida. Sem rumo, segue à deriva numa existência vazia de propósito e cada vez mais distante de seus sonhos e objetivos. Sua postura destrutiva em nada lembra a garotinha talentosa que, na belíssima cena de abertura, emocionava a todos ao cantar “Heal The Pain” no coral da igreja.

Atualmente, de bar em bar e aventurando diariamente um lugar pra dormir, a protagonista carrega o peso do fracasso. Porém a leveza e graça com o qual Emilia Clarke interpreta a personagem, suaviza o tom e entrega alguns momentos bem divertidos, numa atuação bem menos afetada do que no filme Como eu era Antes de Você (2016).

“Because I gotta have faith, faith, faith”

Entre uma bebedeira e outra, ela conhece Tom, interpretado de forma simpática por Henry Golding, da ótima comédia Podres de Ricos (2018). Ele tem um olhar calmo e contemplativo sobre a vida, faz trabalho voluntário em um abrigo para moradores de rua e parece mais interessado em conhecer a Kate e entender sua essência do que em levá-la para cama.

Os raros e inesperados encontros entre os dois são sempre significativos e profundos. Uma espécie de amor platônico surge despretensiosamente. Ele passa a exercer uma influência positiva na vida dela, devolvendo-lhe a fé em dias melhores.

“So if you love me, say you love me, but if you don’t, just let me go”

O diretor Paul Feig, do ótimo Missão Madrinha de Casamento (2011), aposta numa cinematografia que abusa das cores e luzes de natal para preencher os espaços e enriquecer a fotografia, sempre muito brilhante e um tanto quanto exagerada. Isso imprime um certo tom de fábula numa história que também exagera na quantidade de temas propostos, incluindo desnecessariamente algumas cenas de cunho político-social que acabam parecendo deslocadas.

Mas quando o assunto volta a ser a possibilidade do amor platônico se realizar, os diálogos intimistas ganham força, as imagens se tornam mais poéticas e as belas canções do George Michael completam luxuosamente as boas intenções do roteiro. Nesse ponto do filme, as dúvidas da protagonista são também as do público e tudo que se espera é uma definição.

“Let me tell you a secret, put it in your heart and keep it”

A definição indica um desfecho cliché, não fosse um certo plot twist que acaba ressignificando toda a trajetória dos personagens, “explodindo a cabeça” do público e deixando uma sensação de melancolia poucas vezes experimentadas em filmes desse gênero.
Quantas vezes na vida podemos afirmar que ajudamos as pessoas que cruzam o nosso caminho? Quantas vezes paramos pra realmente prestar atenção nelas? Quantos momentos desperdiçamos olhando pro nosso próprio umbigo? Quanta ajuda já recusamos por orgulho? Quantas vezes culpamos o mundo, quando o problema estava em nós mesmo?

Questões que o filme vai jogando ao vento por linhas tortas, linhas simples, mas cheias de amor e significado. Linhas traçadas por dois amigos/artistas extremamente sensíveis às questões humanas: Emma Thompson e George Michael.

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FICHA TÉCNICA:

Título Original | Ano: Last Christmas | 2019
Gênero: Drama, Romance
País: UK / EUA
Duração: 1h43min
Direção: Paul Feig
Roteiro: Emma Thompson e Bryony Kimmings, baseado na canção “Last Christmas” de George Michael
Elenco: Emilia Clarke, Henry Golding, Michelle Yeoh, Madison Ingoldsby, Emma Thompson, Boris Isakovic e outros.
Data de Lançamento: 29 de novembro de 2019 (Brasil)
Censura: 12 anos
Avaliações: IMDB | Rotten Tomatoes

 


TRAILER DO FILME:

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