The War on Drugs segue confortável em seu estilo


The War on Drugs, critica do álbum I Don't Live Here Anymore

Na apresentação de seu novo disco, I Don’t Live Here Anymore, nas plataformas de streaming, o The War on Drugs traz um texto revelador sobre o seu diferencial: em suma, eles vieram para acabar com as divisões dentro do Rock, fazendo um som que sintetiza, nas palavras deles, “Folk, Indie, Kosmiche, Noise, raiz, Arena, Psicodelia, Soft, e mais”. E tem mais nessa declaração de intenções: “removendo os espaços entre o underground e o mainstream, entre o obscuro e o antêmico”.

Num primeiro momento, confesso que achei o texto pretensioso, marqueteiro e perigoso. Como assim, eles querem ser tudo isso com que propósito? Para atingir todos os públicos? Será que dá para forjar uma identidade no meio dessa “mistureba” toda? Pois bem, refletindo com calma sobre essas questões, cheguei à conclusão de que, no fundo, eles sempre tiveram essa característica marcante e distintiva de serem bem-sucedidos na tarefa de mesclar o Rock Clássico com elementos mais alternativos. Só que isso parecia natural, quase inconsciente. Mas não devia ser. Ou era inconsciente, mas agora ficou claro e cristalino.

Seja como for, a banda chega ao seu quinto disco mais próxima do mainstream do que do underground. Nos dois primeiros discos, Wagonwheel Blues, de 2008, e Slave Ambient, de 2011, o “jeito Dylan” de cantar e as gaitas pareciam intrusas no estilo guitar noise esquisito criado por Adam Gradunciel e seus companheiros. Em Lost In the Dream, de 2014 (a obra-prima que levou a banda a outro patamar), a sonoridade se tornou limpa, cristalina e massiva. Gradunciel forjou o som em estúdio de forma obsessiva e meticulosa, inserindo uma infinidade de detalhes e texturas. Teclados oitentistas e solos de guitarra retumbantes completavam a receita para sacudir estádios. Ainda assim, havia espaço para a experimentação, para músicas longas cheias de pseudo-jams e para um conteúdo lírico melancólico e introspectivo demais para as massas.

No quarto disco (e primeiro por uma grande gravadora, a Atlantic), A Deeper Understanding (2017), o título diz tudo. Ele é basicamente um aprofundamento da fórmula desenvolvida no disco anterior, com um pouco menos de brilhantismo envolvido. Ainda assim, ganhou o Grammy de Melhor Álbum de rock e consolidou a reputação do grupo.

O disco novo também não traz grandes inovações. Ao contrário de bandas que se sentem pressionadas a mudar a sonoridade de um disco para o outro, o The War on Drugs parece confortável com o estilo que criou. Embora Gradunciel afirme ter adotado uma abordagem mais leve com relação à produção, ela continua complexa e detalhista (foram três anos de gravação em várias sessões e estúdios diferentes). Embora ele afirme que o nascimento do filho tenha injetado positividade em sua vida, as letras continuam carregadas de frustração, confusão e desesperança. Apesar de uma música ser intitulada “Change” e de várias outras mencionarem essa palavra, essas mudanças parecem mais uma intenção do que uma realidade. Bruce Springsteen e Bob Dylan continuam sendo as referências máximas. O filho de Gradunciel ganhou o nome Bruce, enquanto Dylan é mencionado literalmente na faixa-título: “Como quando nós fomos assistir Bob Dylan/Nós dançamos ao som de Desolation Row”.

Aliás, a faixa-título é a principal evidência de uma única mudança notável no som da banda, como mencionei acima: o The War on Drugs é cada vez mais pop e mais alinhado ao mainstream. Algumas músicas novas flertam com o Synthpop, outras estão muito mais para o Rock de arena clássico do que para o hibridismo indie-americana que aparecia nos outros álbuns. Os vocais são mais confiantes e destacados na construção melódica, e os traços dylanescos marcantes – como a inflexão vocal exagerada no final das palavras – praticamente foram deixados de lado. A duração das faixas é menor, encaixando-se melhor num padrão radiofônico.

Eles vão tocar para grandes públicos na turnê que começa no início do ano que vem nos EUA, e “I Don’t Live Here Anymore” é um hit potencial que eles nunca tiveram em mãos. Levada por um riff viciante de teclado e por pinceladas de guitarra, ela explode num refrão estrondoso, em que o duo de cantoras Lucius se junta a Gradunciel para um dueto de proporções épicas.

Fãs antigos (como eu) que tinham predileção pelas longas passagens de guitarra e pelos efeitos barulhentos nas seções instrumentais com certeza vão sentir falta desses elementos.

A parte final de “Change”, carregada de efeitos oníricos, pode saciar esses ouvidos, bem como a guitarra histérica que aparece no meio de “Victim”. Ainda no lado ligeiramente decepcionante, constatei que algumas melodias parecem exageradamente familiares em alguns momentos, e que algumas letras beiram o clichê e repetem a obsessão de Gradunciel com o uso de elementos da natureza, como escuridão e água, e com termos como memória, perda e sonho. Essa familiaridade, no entanto, deve garantir a satisfação da maioria dos fãs que a banda conquistou nos seus quase 15 anos de carreira.

Vamos agora para o lado bom, o que é sempre predominante num disco do The War on Drugs. “Living Proof”, o primeiro single, é a melhor música do registro. Conduzida em ritmo lento, se prolonga numa repetição melódica quase enervante, até que um solo de guitarra colossal tira o ouvinte do chão e a música acaba demandando um novo play. “Harmonia’s Dream” tem um arranjo impecavelmente construído e que culmina numa belíssima levada de violão na parte final. Em “Old Skin”, uma marcante reflexão sobre o envelhecimento, Gradunciel olha com ternura para a figura de seu pai, talvez impactado pelo nascimento do filho. Lenta e contida, “Rings Around my Father´s Eyes” parece descrever uma conexão poderosa que não conhece barreiras, tal qual a de um pai com um filho. “Occasional Rain” encerra os trabalhos de forma delicada e emocionante, evidenciando ainda mais a autenticidade da busca espiritual de Gradunciel, um sujeito que canalizou seus tormentos e pesadelos para a arte – permitindo que, por meio dela, nós também possamos aliviar nossa própria dor.

+++ CRÍTICA | The Men – Mercy

As músicas do The War on Drugs tendem a crescer com audições repetidas, tendo em vista a riqueza de detalhes que podem se revelar com o tempo, e embora eu tenha certeza de que I Don´t Live Here Anymore esteja num degrau abaixo de Lost in The Dream, aposto todas as fichas que eles vão angariar uma base ainda maior e mais consistente de fãs com o novo lançamento, cementando sua posição como a banda do momento que melhor transita sem esforço entre o alternativo e o popular, e emulando outros artistas bem-sucedidos nessa tarefa, como U2 e R.E.M.


 I-Don-t-Live-Here-Anymore-Cover-Artwork

INFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 29/10/2021
GRAVADORA: Atlanic Records
FAIXAS: 10
TEMPO: 52:20 minutos
PRODUTOR: Shawn Everett
CURIOSIDADES: Bruce, o filho do vocalista nasceu durante o processo de gravação do álbum; Bob Dylan, referência na sonoridade do grupo, é citado na faixa-título
DESTAQUES: “I Don’t Live Here Anymore”, “Victim” e “Living Proof”
REFERÊNCIAS: Bruce Springsteen, Bob Dylan, The Walkmen, Indie-Rock

 

 


O ÁLBUM:


O VIDEOCLIPE DE “LIVING PROOF”:

 

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5 COMENTÁRIOS

  1. Pedro Couto
    30/10/2021

    Esta eu tenho de comentar! Como ainda não ouvi o álbum todo, só posso falar dos singles que foram saindo. E de um em particular: o da faixa título. Esta musica salvou a minha vida! Literalmente. O dia 24 deste mês, o meu aniversário, seria um dos piores dias dos meus 52 anos. No entanto, a primeira música que ouvi foi, precisamente, “I don’t live here anymore”. Foi premonitória. A partir daí, resolvi os meus problemas e só me aconteceram coisas boas. Estou muito feliz. Obrigado Adam Gradunciel pela música fantástica que fazes! E obrigado a toda a equipa do Urge! pelos óptimos artigos que escrevem. Abraço

  2. 30/10/2021

    Poxa, Pedro, que relato emocionante! E que bom que a música teve esse poder incrível de transformar a tua vida. Maravilhados com teu comentário. E obrigado pelas palavras generosas sobre o Urge!, elas ajudam a gente a seguir em frente. Abraço.

  3. André Paiva
    30/10/2021

    Conheci The War On Drugs por influência do Prof. Daniel Rezende e foi uma das portas de entrada para entender melhor o rock alternativo contemporâneo. Ouvi bastante “A Deeper Understanding” e aguardei “I don’t live here anymore” com muita expectativa. Não sou profundo conhecedor da banda, mas logo na primeira audição já adorei o álbum.

    Concordo que algumas músicas tem um apelo pop e “catchy” mais claro que nos outros álbuns. Inclusive, na semana passada estava escutando a rádio BBC 6 e quando tocou “I don’t wanna live here anymore” não consegui mais continuar o que estava fazendo e fui completamente tomado pela música, que inclusive é minha favorita.

    Também acho que alguns temas são bem presentes no disco, tal como uma certa angústia em relação ao espaço/pertencimento.

    Não sabia que o Granduciel foi pai durante o processo de construção do disco (diga-se de passagem, o homem é um baita guitarrista, compositor e ainda é casado com a Kristen Ritter…). Isso dá mais uma camada interessante.

    É isso, vida longa ao War On Drugs!

  4. 30/10/2021

    Que legal, André, essa relação/ligação com o mundo alternativo pela boa influência do professor Daniel. Obrigado pelo comentário e sinta-se à vontade no site. Abraço.

  5. Daniel Rezende
    31/10/2021

    Obrigado pelos comentários, Pedro e André! É muito legal esse poder que a música tem de transformar vidas. E é isso que me move a escrever sobre minhas experiências musicais e compartilhar minhas impressões e sentimentos, estimulando essa troca de ideias com pessoas que também amam ouvir e ler sobre música e arte em geral. Um grande abraço.

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