‘Missa da Meia-Noite’ e o horror típico de Mike Flanagan


Cena da série Missa da Meia-Noite, da Netflix

…tomai todos e bebei, este é o meu sangue,

o sangue da nova e eterna aliança…” (Mateus 26:28)

A minissérie de sete episódios da Netflix, Missa da Meia-Noite, é norteada por um questionamento muito intrigante: e se a Eucaristia, um dos dogmas mais populares e emblemáticos da Igreja Católica, usado diariamente por séculos em todas as missas, passasse a ter efeitos práticos ao invés do mero simbolismo?

Na verdade, essa é só uma das questões lançadas pelo extremamente bem elaborado roteiro do Mike Flanagan, que também dirige a minissérie com estilo próprio e total controle criativo.

Outros questionamentos profundos surgem a cada um dos episódios, como: O que vem após a morte? Qual o sentido do sofrimento humano e qual o papel das religiões diante desse sofrimento? Os textos da Bíblia dependem ou não da interpretação de quem a lê? A crença dos outros será sempre pior ou mais errada do que a nossa?

Se em A Maldição da Residência Hill, Flanagan usava os traumas e as idas e vindas temporais para dar substância a um horror fantasmagórico irretocável e em A Maldição da Mansão Bly (seu trabalho mais fraco), os mesmos recursos davam substância a uma espécie de horror romântico, neste novo trabalho, Flanagan abre mão dos recursos outrora utilizados, bem como das casas assombradas e aposta alto no poder, quase sempre subestimado, dos diálogos para dar substância a uma espécie de horror existencialista e filosófico poucas vezes visto nas telas.

Hamish-Linklater-e-Zach-Gilford-em-Missa-da-Meia-Noite

O problema é que esse gênero não é particularmente conhecido por produções repletas de diálogos profundos, refinados e inteligentes. Na verdade, obras de horror costumam ser alegorias divertidas e ácidas sobre temas espinhosos e extremamente difíceis da natureza humana. Portanto, toda a sobriedade filosófica e a parcimônia elegante do caminho escolhido por Mike Flanagan, fatalmente encontrará a resistência dos fãs do horror mais direto e simplista.

Com os diálogos sendo evidenciados pela falta de ação, que só acontece realmente no último episódio, o suspense denso vai sendo construído num ritmo lento e cada vez mais sufocante, determinado pela riqueza dos detalhes que propõe e pela excelente construção das personagens e suas interações.

Nesse sentido, a sensação que se tem em muitos momentos é a de estarmos folheando um livro, cujo texto remete aos melhores trabalhos do mestre do horror  Stephen King, sem dúvida, fonte de inspiração para este trabalho. Isso evidencia a qualidade do roteiro, porém exige do público uma maior pré-disposição para que a sensação de imersão realmente aconteça.

Na trama, um jovem bêbado atropela e mata uma pessoa. Após cumprir pena e em busca de um sentido na vida, ele volta para a casa dos pais numa ilha remota decadente. Sua volta para a ilha coincide com a chegada de um padre substituto, visto que o anterior precisou ser afastado por motivos de saúde. Ambos trazem consigo inquietações e boas intenções, porém a ilha parece estar envolta em acontecimentos estranhos, padecendo e implodindo aos poucos, assim como seus moradores, até que alguns eventos milagrosos fazem com que um fervor religioso reascenda a esperança em dias melhores.

Os milagres inexplicáveis dividem a opinião da pequena população da ilha, assim como toda religião divide o mundo desde sempre.

Temos a ciência, representada pela médica local. Temos a minoria de outra religião e raça, representada pelo delegado muçulmano. Temos o time dos recém convertidos por modismo, os praticantes sem fé, apenas hábito – portanto hipócritas. Temos também as ovelhas desgarradas que seguem o fluxo fácil do “sim” por interesses próprios e, obviamente, o sempre perigoso time dos fanáticos, visto que todo fanatismo exige uma boa dose de cegueira, ignorância e a truculência necessária no exercício natural da maldade, aceita pelo rebanho, de querer impor sua “verdade” acima da dos outros.

Tecnicamente podemos destacar em Missa da Meia-Noite a fotografia sempre em tons opacos e obscuros, mesmo ao mirar em paisagens belíssimas, dando impressão de que algo oprime a ilha. As atuações de quase todo o elenco são ótimas, principalmente de Hamish Linklater, que conferiu ao padre Paul a dubiedade que o personagem precisava, evidenciado por um trabalho memorável de voz; e da atriz Samantha Sloyan, numa convincente interpretação passivo-agressiva da fanática religiosa, Bev Keane.

missa-da-meia-noite-cena

Como principais pontos negativos podemos citar apenas a maquiagem pouco convincente utilizada no envelhecimento de alguns personagens e a lentidão extrema da cadência narrativa.

No fim das contas, está é uma jornada que requer uma maior atenção e paciência do público para que seja devidamente absorvida, porém as surpresas e correlações entre religião e uma certa mitologia do horror, fazem valer cada segundo.

Flanagan parece querer gritar ao público que todo o mistério contido nos livros bíblicos, dos quais ele toma o nome emprestado para nominar cada um dos episódios de Missa da Meia-Noite, dependem da bagagem e do interesse de cada indivíduo. A bagagem dele, como realizador de obras de suspense e terror de qualidade, nós já sabemos, mas afinal… qual é a nossa bagagem? Somos pó e ao pó voltaremos ou somos poeira de estrela?


Missa da Meia-Noite, poster

FICHA TÉCNICA:

Título Original | Ano: Midnight Mass | 2021
Gênero: Drama, Horror, Mistério
País: EUA / Alemanha
Episódios | Duração: 07 episódios (média de 1 hora cada)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Joyce Sherrí, Teresa Sutherland, James Flanagan, Elan Gale, Jeff Howard e Dani Parker
Elenco:  Kate Siegel, Zach Gilford,  Kristin Lehman, Samantha Sloyan, Hamish Linklater, Rahul Kohlie outros
Data de Lançamento: 24 de setembro de 2021
Censura: 16 anos
Avaliações: IMDBRotten Tomatoes

 


O TRAILER LEGENDADO DE ‘MISSA DA MEIA NOITE’:

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