CRÍTICA | Peter Hook – Unknown Pleasures



“Peter Saville tem uma teoria maravilhosa de que os músicos param de compor boa música quando aprendem o processo formal de composição. Por quê? Porque eles não querem arriscar” (Peter Hook)

Muito da aura criada em torno do Joy Division (Joy para os mais íntimos) foi construída em cima de uma série de detalhes ou falta deles: nenhuma exposição na capa dos álbuns (com imagens que foram motivo de pesquisas); as letras enigmáticas e introspectivas; a sonoridade única dos álbuns,  cheias de eco (com ênfase na bateria e baixo, cortesia do produtor Martin Hannet); o uso de imagens em preto e branco ou sépia na divulgação; e, claro, o maior de todos, o suicídio do vocalista Ian Curtis em 1980, pouco antes do lançamento do álbum ‘Closer’ e de uma turnê pelos Estados Unidos.

Para quem começou a acompanhar a banda lá nos idos anos 80 sabe o quão difícil era encontrar informações sobre o grupo, rara exceção feita a Revista Bizz, que em 1987 lançou uma bela resenha com direito a fotos e tudo. Posteriormente o selo Stiletto lançaria os dois álbuns do Joy, ainda em vinil: Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980). Detalhe: a versão nacional de Closer trazia “Love Will Tear Us Apart”, um clássico do grupo e também da década de 80.

Olhando em retrospectiva (vocês encontrarão bastante essa frase ao longo do livro de Hook), a quantidade de material sobre a banda a partir dos anos 2000, aproximadamente pouco mais de duas décadas do seu surgimento, só cresceu, impulsionada pelo revival feito por um sem número de bandas nos Estados Unidos e na Inglaterra, e mais lançamentos/relançamentos de discos.

Capa do livro Unknown Pleasures, de Peter Hook

Joy Division foi tema em dois filmes: 24 Hours Paty People (A Festa Nunca Termina, 2002), de Michael Winterbottom  e Control (2007), de Anton Corbijn, e um documentário de mesmo nome, produzido por Grant Gee em 2007. E dois livros, Tocando a Distância, de Deborah Curtis (esposa de Ian), que serviu de base para o roteiro de Control, e Unknown Pleasures (2012).

Escrito pelo baixista Peter Hook, ‘Unknown Pleasures’ tem prefácio do guitarrista Edgar Scandurra (Ira!) que assim como muitos “viveu” o período de descoberta da banda no país anos após o seu fim. Isso lhe permite traçar um panorama de influências do grupo de Manchester no Rock brasileiro dos anos 80 e também com a formação de sua própria banda e de outras que participou.

A escrita de Hook tem um estilo fluído e em geral divertido, que em muito contrasta com a imagem criada em torno da banda, por sua sonoridade densa e letras introspectivas. Esse lado brincalhão, meio tiozão, traz diversos momentos recheados de comicidade e salutar leveza, já que Joy Division virou sinônimo de algo sisudo. O que não significa que seja um livro com pendor para o cômico, já que a sensação exalada em geral é de certo saudosismo e bastante reflexão.

A infância e adolescência do autor são tratadas de forma rápida, o que é bom, pois é a parte mais “arrastada” do livro. O foco maior é a história do Joy Division desde o seu surgimento, iniciada após o famoso show dos Sex Pistols em Manchester em 1977. Do início Punk como Stiff Kittens, passando pelo Warsaw, as associações com o nazismo (negada ao longo do livro), a assinatura com a Factory Records, as brigas (muitas delas), gravações, turnê com os Buzzcocks, até o suicídio de Ian Curtis. Por ser um relato pessoal, o próprio Hook já adverte no início do livro: “Este livro é a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade… do modo como me lembro”.

Algumas imagens são desfeitas, outras reforçadas. A fama de brigão, de humor ácido e beberrão do baixista sai reforçada. A de Ian Curtis como um cara sempre sério, filosófico, introspectivo é contestada em diversos momentos. Hook chega a afirmar que o vocalista usava de personas diferentes para cada ambiente em que transitava: uma com a banda, outra com a esposa, outra com a amante. A certa altura ele compara o Ian apresentado nos filmes, definindo o de 24 Hours Party People com o mais próximo do real.

O livro é um deleite para os fãs do Joy Division, para quem deseja conhecer um pouco mais sobre o movimento Punk e também para quem se identifica com histórias que envolvem as agruras de uma banda iniciante em um lugar e época difíceis.

Hook faz reflexões sobre atitudes e posicionamentos que poderiam ter gerado resultados bem diversos, inclusive relacionados a saúde de Ian Curtis, que a partir do lançamento do álbum de estreia se viu cada vez mais debilitada com o aumento expressivo de shows.

Por ter participado da história da banda da parte de dentro, há muito do que falar e com propriedade, e ele não se furta a falar de assunto algum, sempre com tom ora divertido, ora rabugento, ora solene, principalmente ao referir-sea Ian e a Deb Curtis. Seu humor sarcástico tem como alvo baterista Stephen Morris, o empresário Rob Gretton e, principalmente, Bernard Sumner, o Barney dos tempos de infância. Sua função de motorista e carregador, por ser proprietário da van em que eram transportados os equipamentos, rende várias e divertidas páginas, e até sua maneira de tocar o baixo e de pendurá-lo é comentada.

Martin Hannet e seu método de produção, bem como suas manias e influências na sonoridade dos álbuns e também na banda, surge em detalhes: “Uma vez decidido o que entraria no disco [Unknown Pleasures], Martin harmonizou-o para que houvesse uma coerência tonal entre as músicas, de forma que não conflitassem e soassem como uma progressão suave, agradável ao ouvido, não como uma transição abrupta, como numa mixagem harmônica – assim de “Disorder” para “Day of the Lords” havia uma harmonia, e assim por diante. Martin ensinou-nos tudo isso. Muito, muito hábil”.

O livro está dividido em cinco partes, cada uma delas com o título de uma música do Joy Division, e um epílogo. Todos são finalizados com uma linha do tempo com acontecimentos marcantes e datas de shows da banda, contendo informações e alguns com comentários do autor. Hook faz um faixa-a-faixa dos dois álbuns de estúdio lançados pela banda, trazendo curiosidades sobre o processo de composição, gravação, produção, aspectos técnicos.

Joy Division em foto do livro Unknown Pleasures, de Peter Hook

No quesito fotos (a de cima é uma delas), há poucas realmente interessantes, algumas necessárias e uma ou outra passáveis com comentários idem, mas que seguem o estilo do seu autor.

Unknown Pleasures em nada diminui a aura criada em torno da banda, apresenta várias informações até então inéditas de como muito do que se imaginou como algo planejado aconteceu de forma ocasional, até mesmo inconsciente, várias amplificadas pela fatídica morte de Ian Curtis, que é a figura mais reverenciada ao longo das páginas, principalmente como elemento catalisador e incentivador do grupo seguir adiante.

Se lançado uns 30 anos antes Unknown Pleasures teria um efeito muito mais explosivo, bombástico, mas seu conteúdo não traria o benefício do “olhar em perspectiva” de seu autor.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Avatar
    Ângelo
    30/04/2021

    Excelente matéria… Parabéns mais uma vez!

  2. Avatar
    30/04/2021

    Valeu, man. Obrigado pelas palavras, elas nos ajudam a seguir em frente. Abraço.

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