MUDHONEY – Digital Garbage (2018)


foto mudhoney para resenha de digital garbage

“Sem fórmulas para mudar o mundo, Mudhoney narra suas mazelas em Digital Garbage”

Com trinta anos de carreira, o Mudhoney há muito passou da chamada fase necessidade de afirmação. Da mesma forma, esperar pelo sucesso é algo que segue ao largo do quarteto já há muitos anos. Nos anos em que o grunge estava no topo, época em que a banda assinou com a Reprise Records (subsidiária da Warner) até poderia ser. Hoje, não.

Sediados na cultuada Sub Pop já há um bom par de anos e discos, Mark Arm e sua banda seguem sem buscar reinvenções ou “alargamento de seu espectro musical”. A pegada é rock de garagem e pronto e ponto. Embora em seu álbum de 2002, “Since We’ve Become Translucent”, a banda tenha enfiado uns metais no meio do seu inferninho garageiro e se embrenhado numa mata psicodélica em algumas faixas. Hoje são uns teclados, pianos, sintetizadores discretos no meio da massa de fuzz.

“Digital Garbage” musicalmente está mais próximo do excelente “Vanishing Point” (2013), do que de qualquer outro álbum do Mudhoney. Em termos de letras políticas, a ligação está 3mais com o “Under a Billion Suns” (2006). Era de se esperar que a banda não conseguisse musicalmente o mesmo êxito de Vanishing Point” com “Digital Garbage”, no que diz respeito a construção das canções. O “truque” de Arm então foi escrever que captassem toda a insanidade dos tempos presentes. Algo que quando se envelhece parece nos incomodar muito mais do que quando somos jovens irresponsáveis, imortais e inconsequentes. E os tempos presentes tem matéria prima farta tanto para análises psicológicas quanto para letras de música.

Se o mundo, a sociedade que vivemos está doente, o Mudhoney não tem a cura. Talvez as palavras para narrarem a hipocrisia em que a sociedade cada vez mais parece se embrulhar confortavelmente, seja através das religiões, de posicionamentos políticos e das relações interpessoais ou pelas redes sociais mesmo.

“Kill Yourself Live”, primeiro single do álbum, anunciava esse lado mais politizado do Mudhoney ao fazer uma crítica pesada a necessidade até suicida de ser visto, curtido, reconhecido através das redes sociais. O clip (vídeo ao final do texto) , de forma irônica, apresentava um sujeito encenando Jesus e usando as redes sociais para divulgar seu passo-a-passo até a crucificação, uma algazarra de fotos e selfies.

“Paranoid Core” fala sobre intolerância racial e discriminação: ” Consumed by thoughts of thick black cock, Go hunt them down dressed like a cop, Fight the Jews, homos, Muslims, Chinese, Playing militia in the trees”. “Please Mr. Gunman” traz uma crítica ácida aos cristãos que fazem um último pedido ao atirador: serem mortos na Igreja pra chegarem mais rápido e fácil ao Céu: ““We’d rather die in church!”. Já “21st Century Pharisees” (Fariseus do Século 21) traz os versos mais pesados de “Digital Garbage”: “Evangelical hypocrites, Laying hands on a pile of shit, There is no blessing, There is no blessing” (Hipócritas evangélicos, Deitando as mãos em uma pilha de merda, Não há bênção, Não há bênção).

Há muita munição na metralhadora verbal de Arm e o mais interessante é que suas letras não escorregam no panfletarismo pueril, ao contrário, fazem críticas ora diretas ora mais sutil, mas sempre mordaz sobre o estado de coisas que corrói uma sociedade cada vez mais emburrecida, embrutecida e individualista: ” Foda-se o planeta , Enrosque seus filhos , Fique rico, Você vence!” (Prosperity Gospel).

Não precisa ir muito longe para perceber a carta de intenções que o Mudhoney apresenta em seu décimo álbum de estúdio, embora nem todas as canções sigam por essa mesma verve crítica. Ela se inicia com o título do álbum, Lixo Digital, e prossegue nos títulos das canções, aprofundando tudo isso nos versos das letras, tudo isso embalado pelos elementos característicos do grupo, que atinge seu momento mais “iluminado” na intensa (música e letra) “Prosperity Gospel”, com direito a solo de guitarra ou mesmo em “Kill Yourself Live” e seus tecladinhos retrôs safados.

:: NOTA: 8,2
__________________________

NOTA DOS REDATORES:
Eduardo Salvalaio: –
Eduardo Juliano: –
Isaac Lima: –

MÉDIA: 8,2
__________________________

:: LEIA MAIS DE LUCIANO: GRUFF RHYS – BABELSBERG (2018)

:::

Capa álbum Digital Garbage Mudhoney

:: FAIXAS:

01. Nerve Attack
02. Paranoid Core
03. Please Mr. Gunman
04. Kill Yourself Live
05. Night and Fog
06. 21st Century Pharisees
07. Hey Neanderfuck
08. Prosperity Gospel
09. Messiah’s Lament
10. Next Mass Extinction
11. Oh Yeah

:::

:: Assista ao vídeo de “Kill Yourself Live”:

Anteriores WIFI RALPH: QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks The Internet, 2018)
Próximo PIXIES anuncia documentário "Past is Prologue" e novo álbum

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado.