Filme sobre serial killer para abordar realidade que o Irã procura esconder


Zar Amir Ebrahimi em Holy Spider 2022

Holy Spider é um dos incomuns casos onde sua existência coincide por mero acaso com um acontecimento real muito próximo do retratado. Com produção iniciada no ano de 2016 e, desde então, muitas dificuldades como problemas de país para locação e a pandemia causada pelo Covid-19, o filme é lançado no exato momento de maior tensão social no Irã, país que busca ambientar.

Em 08 de abril de 2002, o serial killer iraniano Saeed Hanaei, apelidado pela mídia do país de ‘‘Spider Killings’’, era enforcado após ser condenado pelo sequestro e assassinato de 16 mulheres. Hanaei tinha como modus operandi levar a vítima em potencial para sua casa – a mesma na qual residia com a esposa e três filhos – e estrangulá-la com seu hijab, sob a justificativa de estar fazendo o trabalho de limpar a cidade de Mashhad da corrupção moral. Em minha percepção, as ações de Hanaei se assemelhavam a uma verdadeira cruzada solitária, na qual ele eliminava as desviantes das palavras de seu Deus, Alá.

Eu me apego a essa percepção pelo destrinchar do caso após a prisão de Hanaei, quando ele se tornou uma espécie de herói popular por alguns em Mashhad, pessoas que, assim como ele, acreditavam que o Irã precisava eliminar todas as falhas morais, que aqui pode-se definir facilmente em uma simples frase: mulheres que não seguem a risca o Alcorão. Esse caso se assemelha ao atual Irã, repleto de distúrbios em protesto ao acontecido com Jina Mahsa Amini, jovem morta após ser presa pela polícia da moralidade, acusada de usar de forma inadequada o seu véu.

Essa minha longa introdução e comparação com eventos que datam 20 anos de distância se justificam e auxiliam a contextualizar o que eu acredito que seja a essência de Holy Spider. O filme não quer ser apenas uma produção que fala sobre um serial killer, ele se conduz pela seguinte questão: Quando pegarem Hanaei, ele será punido?

Cena do filme Holy Spider

É dessa questão que o novo filme de Ali Abbasi, indicado ao Oscar em 2018 por Border, se move. E isso fica muito nítido quando acompanhamos as diversas vítimas e a jornalista Rahimi (Zar Amir Ebrahimi). Quando o diretor volta sua câmera às figuras femininas, não é apenas a moto de Hanaei (Mehdi Bajestani) que fomenta a tensão do filme, mas toda à volta, tudo que circunda as mulheres. Essa constante ameaça é bem aplicada a partir de sussurros em um check-in em Hotel, de cenas gravadas a meia luz durante à noite, assédios não denunciados, e de pequenos diálogos que sugerem que a vida de uma mulher ‘‘imoral’’ vale menos que a vida de uma mulher de família.

A boa condução do cotidiano de amedrontamento e a misoginia empregada nos costumes do país, inevitavelmente, colide com a construção dos crimes de Hanaei, tornando o resultado nem tão satisfatório. Se, por um lado, uma violência estrutural quase silenciosa é apresentada, ao voltar-se à atuação do assassino em série, o filme se aproxima do subgênero de serial killers da maneira mais genérica possível, exibindo em detalhes o modus operandi e a vida dupla, além de construir a sequência de erros que eventualmente acontecerá, gerando um efeito dominó.

+++ Leia a crítica do filme ‘A 200 Metros’, de Ameen Nayfeh

A constante substituição de sequências mais sensíveis por atos explicitamente brutais não condenam o filme, mas, infelizmente o enfraquecem, afinal, nesse contraste, a violência bem aplicada dos comuns filmes de serial killers sai vencendo. O filme, dessa maneira, secundariza uma sociedade que demoniza, de certo modo, a figura da mulher com postura mais ‘‘insubmissa’’ e se concentra na barbárie de um único homem que passará seu grande legado para o filho, sem indicar que ambos, na verdade, são resultados daquela sociedade.


Poster de Holy Spider

INFORMAÇÕES:

Título Original | Ano: Holy Spider  | 2022
Gênero: Policial, Drama, Suspense
País: Dinamarca, Alemanha, França, Suécia, Jordânia, Itália
Língua: Persa
Duração: 1:56 h
Classificação: 18 anos
Direção: Ali Abbasi
Roteiro: Ali Abbas, Afshin Kamran Bahrami
Elenco: Zar Amir-Ebrahimi (Rahimi), Mehdi Bajestani (Saeed), Arash Ashtiani (Sharifi), Forouzan Jamshidnejad (Fatima), Sina Parvaneh (Rostami) e outros
Data de Lançamento: 10 de outubro de 2022 (Festival de Cinema do Rio)
Avaliações: IMDB| Rotten Tomatoes

 

 


 

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