Álbum do The Smile é um deleite para os fãs do Radiohead


Foto da banda The Smile
Foto | Alex Lake

Para quem (como eu) que já não estava aguentando esse período de seis anos sem um disco do Radiohead, pode sorrir (que trocadilho infame)! Saiu hoje A Light for Attracting Attention, o álbum de estreia do The Smile, projeto de Thom Yorke e Jonny Greenwood em parceria com o baterista Tom Skinner, da banda de Jazz Sons of Kemet. E ele soa exatamente como um disco do Radiohead, o que, em se tratando de uma banda camaleônica, poderia até ser um sinal de alerta. Mas fiquem tranquilos, não estamos falando aqui de repetição ou falta de inspiração, somente de algo que soa bem familiar e, ainda assim, incrivelmente criativo.

Thom e Jonny (que foi o iniciador de tudo, convidando o parceiro para participar das ideias que borbulhavam em sua mente) não tentam enveredar pelos terrenos da eletrônica ou da música clássica como em seus respectivos álbuns solo, embora esses elementos estejam presentes em abundância (a London Contemporary Orchestra toca em várias faixas). Não se trata também de uma volta ao Rock um pouco mais básico e raivoso do início da banda (o primeiro single, com ares Punk, parece ter sido escolhido para dar pistas erradas nesse sentido), e nem uma empreitada pelo experimentalismo sônico de The King of Limbs ou Kid A.

Os pontos de referência principais parecem ser In Rainbows e A Moon Shaped Pool, discos que acomodam com perfeição o Pop e as tendências de vanguarda do grupo. Do primeiro, ecoam as guitarras que dialogam numa abundância de arpeggios, e com o segundo as partes orquestrais arranjadas por Jonny são o ponto de conexão – se a belíssima “Speech Bubbles” fosse apresentada como uma faixa não lançada de A Moon Shaped Pool isso não causaria nenhuma estranheza.

Yorke continua demonstrando um domínio absurdo dos vocais, em que predominam registros em tom alto e o característico falsetto. Os arranjos são deliciosos, com uma infinidade de instrumentos que entram e saem de forma surpreendente (e com aquela habilidade de fazer guitarra soar como sintetizador e de deixar o ouvinte em dúvida de que tipo de instrumento foi utilizado).

O disco é coeso e não deixa a peteca cair em nenhum momento, começando com a enxurrada de sintetizadores atmosféricos de “The Same” (em que Yorke faz um apelo contundente: “Por favor, nós somos iguais!”) e culminando na devastadora “Skrting on the Surface” (uma música antiga que já havia sido tocada algumas vezes pelo Radiohead em shows), um “quase” épico em várias partes, que soa assustadoramente íntima (muito em função do som das mãos roçando as cordas do violão) e promove uma combinação alquímica com a letra paranoica – que nos lembra da nossa finitude.

As letras seguem o padrão Yorke de esconder significados, mas dá para pescar referências ao autoritarismo (“Free in the Knowledge”), negacionismo e aquecimento global (“Thin Thing”), fake news (“A Hairdryer”) e assédio sexual (“You Will Never Work in Television Again”). Ou seja, é mais um disco em que a angústia característica de Yorke é inserida num contexto amplo dos males da sociedade contemporânea.

Musicalmente, o cardápio é variado, e vai da acachapante balada “Free in the Knowledge” – que lembra a favorita dos fãs “True Love Waits” – ao groove torto de “The Smoke” e “The Opposite”, passando pelo Electropunk de “Thin Thing” (em que Jonny tira um som inacreditável da guitarra, no que parece ser um tipo de slap) e pelo Krautrock acelerado do hino dos ansiosos “We Don´t Know What Tomorrow Brings”.

Uma banda de metais jazzísticos completa se faz presente em vários momentos – aliás, o Jazz é uma paixão antiga de Thom e Jonny, e no perfil do The Smile no Spotify eles criaram uma playlist bem sugestiva chamada “The Smile Digs Jazz”, com curadoria de Tom Skinner, e que mistura faixas clássicas e contemporâneas do gênero.

E se você achou o nome da banda ruim e pouco atraente (o que não deve surpreender, ainda mais tendo em vista o fato de que o Radiohead se chamava On a Friday e só trocou de nome por exigência da gravadora!), tenha em mente a ironia que ele contém – Yorke falou para a plateia em um dos shows do grupo que o nome não se referia à uma gargalhada, mas sim àqueles mentirosos (políticos?) que ficam rindo da nossa cara diariamente.

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E, de certo modo, justificando o nome por outra vertente, o disco transparece uma alegria genuína de estar livre das pressões de se lançar um novo álbum de uma das maiores bandas do mundo. “Open the Floodgates”, que já existia na cabeça de Yorke desde a gravação de In Rainbows, aborda essa questão das expectativas do público e da crítica nos sarcásticos versos: “Não nos entedie/ Vá direto ao refrão” (um dilema perene para um grupo que demonstrou capacidade diferenciada de criar músicas pop e preferiu seguir pelo caminho mais difícil, deixando para trás muitos dos fãs de primeira viagem). E o curioso resultado dessa liberdade criativa é que ao final temos a exata sensação de termos escutado o décimo disco do Radiohead, ou seja, mais um presente de uma das maiores bandas do mundo.


Capa do álbum A Light for Atractting Attention, do The SmileINFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 13/05/2022
GRAVADORA: XL Recordings
FAIXAS: 13
TEMPO: 53:25 minutos
PRODUTOR: Nigel Godrich
CURIOSIDADES: O nome da banda foi tirado do título de um poema de Ted Hughes | Segundo Jonny Greenwood The Smile foi criado devido ao desejo de trabalhar com Thom Yorke durante o Lockdown
DESTAQUES: “Free in the Knowledge”, “Skrting on the Surface” e “The Same”
PARA FÃS DE: Radiohead

 


O ÁLBUM NA ÍNTEGRA:


VIDEOCLIPE DE “THIN THING”:

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