ÁLBUNS ESSENCIAIS PARA ENTENDER O SYNTHPOP


OMD, foto da banda nos anos 80
OMD

“Havia uma espécie de manifesto que não usaríamos nada além de equipamento eletrônico, mesmo que isso na verdade fosse de certa forma meio debilitante” (Ian Craig Mash, The Humam League)

A década de 70 foi uma das mais importantes para a música, e não se resume apenas ao Punk Rock. Artistas que seriam bastante influentes na própria década de 70 e, principalmente, nas décadas seguintes deram novas feições à chamada música pop (no sentido de popular) com experimentações que originariam gêneros diversos. Nos EUA a New Wave e depois a No Wave foram marcantes. Na Europa, Brian Eno com os experimentos de música Ambient e de World Music; O Krautrock de bandas vanguardistas como Neu!, Can e Kraftwerk. Esse último, com sua música feita por equipamentos eletrônicos e sintetizadores, influenciaria tanto em bandas ligadas ao Pós-Punk (Joy Division, por exemplo) quanto as bandas Synthpop e similares.

Numa tradução literal e não incorreta Synthpop seria algo como Pop com sintetizadores. Algo muito comum atualmente, aliás, quase um modismo já há algum tempo. Mas voltemos então a meados da década de 70, época em que o sonho era formar uma banda de Rock em seu formato clássico: baixo, bateria e guitarra, fazer solos e seguir toda uma estética rocker pré-estabelecida.

É nesse cenário não muito propício para formações que fugissem a esse paradigma que uma série de “acontecimentos” converge para que os sintetizadores, até então restritos a criação de trilhas sonoras ou em estúdio, ganhem vários adeptos, alguns dispostos a abandonarem totalmente as guitarras e adotar o novo instrumento como elemento de criação, que passará então a ser o centro de suas canções.

Além do barateamento e compactação do instrumento, outro acontecimento que teve impacto decisivo para o surgimento do Synthpop no Reino Unido e também no mundo, foi a primeira e extensa turnê (65 shows) que os alemães do Kraftwerk fizeram em 1975. No Reino Unido, ela teve início em Londres, no dia 01 de setembro, e passou por várias cidades: Newcastle, Bournemouth, Cardiff, Liverpool, Manchester, Glasgow, Edimburgo, Bristol e outras. Ou seja, em termos de influência, os shows do Kraftwerk podem ser comparados ao da turnê Anarchy, dos Sex Pistols.

Enquanto parte da imprensa musical britânica tentava entender a música daquele grupo incomum, estáticos no palco, muitos se encontraram, bandas surgiram influenciadas pela música vanguardista dos alemães, outras mudaram seu som, caso do Ultravox, por exemplo. Poucos anos depois surgiriam bandas fazendo músicas com uso efusivo de sintetizadores, denominou-se Synthpop, que viria adquirir forma mais robusta no início dos anos 80, fase áurea, e se expandiria ao longo das décadas, tornando-se, ao lado do Pós-Punk, um dos gêneros mais revisitados dos últimos anos.

Se há algo que é comum em todas as bandas do gênero é o uso do sintetizador como elemento primordial e, em muitos casos, de batidas eletrônicas. As canções podem seguir tanto por um lado mais dançante quanto experimental, denso e melancólico. E se a música do Kraftwerk influenciou o surgimento do Synthpop, o sucesso de muitas bandas do gênero, no início dos anos 80, acabou por ajudar a difundir as batidas eletrônicas de seus precursores, muito citados e até mesmo reverenciados pelos seus pupilos.

Os álbuns constantes nessa lista são de bandas surgidas entre entre o início e o final da década de 70, os álbuns abarcam o período de aproximadamente três anos 1979/1981. Alguns desses projetos levaram o uso dos sintetizadores às últimas consequências, caso do Depeche Mode e Soft Cell, por exemplo. A lista não pretende ser definitiva e nem elencar os melhores álbuns ou bandas Synthpop, mas servir como referência ao se falar sobre o surgimento do estilo, que tem uma linha bastante tênue com gêneros como Electro-Pop e New Romantics, surgidos em paralelo, e que falaremos em outra ocasião.

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THE HUMAN LEAGUE – Reproduction (1979)

Banda de Sheffield, formada em 1977. Antes de se chamarem THL, eram conhecidos como The Future, e algumas canções que saíram nesse seu álbum de estreia foram compostas nessa época. Embora não tenha sido um dos fundadores do grupo, o vocalista Philip Oakey acabou liderando a banda, principalmente após a saída dos tecladistas fundadores Martyn Ware e Ian Craig Marsh, em 1980, que formariam o Heaven 17, outra banda intimamente ligada ao Synthpop, mas mais próxima do chamado New Romantics. Alguns até irão estranhar a presença desse álbum aqui, e explicamos. Embora Dare (1981) seja o maior sucesso comercial da banda, trazendo o hit “Don’t You Want Me”, já nesse trabalho de estreia – e em Travelogue (1980) – a banda mergulhava no uso dos synths e despontava como um nome importante da então emergente cena.


OMD – Organisation (1979)

Orchestral Manoeuvres in the Dark ou OMD (FOTO DE DESTAQUE) foi formado em 1978 e seu núcleo sempre girou em torno da dupla Andy McCluskey (vocal e baixo) e Paul Humphreys (teclados e vocal). Na época, eles eram a banda com a formação mais incomum, por trazer um frontman que era baixista e vocalista e que agitava bastante no palco, contrastando com seu colegas estático nos teclados. Por outro lado, o OMD é uma das bandas em que as influências do Kraftwerk aparecem mais forte, vide faixas como “Stanlow”, com sons gravados na refinaria de petróleo de mesmo nome, ou “Eletricity” (do primeiro álbum), diretamente influenciada por “Radioactivity”. Entretanto, o maior hit do álbum é a faixa “Enola Gay”, e seu álbum de maior sucesso na época foi o segundo, Architeture and Morality (1980). No álbum de 1991, Sugar Tax, fizeram uma versão para “Neon Lights”, do Kraftwerk. Seu álbum de 2017,  The Punishment of Luxury, ganhou resenha aqui no site.


ULTRAVOX – Vienna (1980)

Das bandas aqui listadas é a que teve a formação mais antiga, em 1973, e com o formato mais tradicional. Começaram fazendo um som mais pro lado do Rock e até do Punk Rock, e depois de dois álbuns resolveram adentrar o universo dos sintetizadores. Para o terceiro álbum, Systems of Romance, Conny Plank, que havia trabalhado com Kraftwerk, foi convidado para produzir, o que marcou uma mudança na sonoridade do grupo, que na faixa “I Can’t Stay Long”, embarca na batida Motorik. Mas é em Vienna (1980) que o lado Synthpop do grupo surge de forma mais burilada, atenção em faixas como “Atradyne” e “Mr. X”. Detalhe, o músico John Foxx foi vocalista da banda em seus primeiros anos.


TUBEWAY ARMY – Replicas (1980)

Projeto do músico Gary Numan, o Tubeway Army em pouco tempo de existência se tornou a banda queridinha de público e imprensa, fazendo de Numan uma espécie de celebridade dessa cena, tanto que muitos passaram a tê-lo como modelo a ser seguido. Tudo isso devido ao sucesso alcançado com a faixa “Are You Friends Electric?”, que alcançou o topo das paradas britânicas. Muitas canções do Tubeway Army possuem guitarras e elementos convencionais, se aproximando do Glam-Rock, embora use bastante sintetizadores, algo que ele já havia feito em seu álbum de estreia, mas que atingiu seu momento mais elaborado em “Replicas”. Visualmente, Numan buscou explorar uma estética futurista/dark e com elementos andróginos. Sua apresentação no projeto “Urgh, a Music War”, tocando “Down in the Park” é inesquecível.


VISAGE – Visage (1980)

Formado em Londres, em 1978, cria dos músicos Midge Ure e Rusty Egan, mas que logo teria o vocalista Steve Strange como parte integrante fundamental da banda. Nomes conhecidos da cena musical da época como John McGeoch (Magazine, Siouxsie and the Banshees), Dave Formula (Magazine) e Barry Adamson (The Buzzcocks, Magazine, The Birthday Party) estão presentes nesse primeiro e melhor disco do grupo. Anvil (1982), o segundo álbum, mantém a mesma pegada, o que já não de pode dizer o mesmo do álbum de 1984, “Beat Boy”, que foi um fracasso em vários sentidos. O grande hit do Visage aqui é a canção “Fade to Grey”, mas faixas como “The Stepes” mostram a atração da banda por elementos eletrônicos mais densos. O último álbum da banda foi Demons to Diamonds, de 2015, lançado meses após a morte de Strange.


SOFT CELL – Non-Stop Erotic Cabaret (1981)

Marc Almond e David Ball formaram o Soft Cell em 1977, um duo, formato que viria a se tornar moda nos anos oitenta para uma porção de projetos: Erasure, Pet Shop Boys The Eurythmics, só pra citar alguns com sonoridade próxima. Embora essencialmente eletrônico, a dupla gostava de adicionar sons de elementos convencionais como sax e clarinete em suas composições. Apesar do uso intenso de sintetizadores em suas canções, o Soft Cell cita influências de David Bowie, Marc Bolan e Suicide. Nesse seu álbum de estreia o grupo traz o hit “Tainted Love”, canção que alcançou o topo das paradas em diversos países. Para além do Soft Cell, Almond seguiu em carreira solo, lançando dezenas de álbuns, e Ball participou de alguns projetos musicais e produziu alguns artistas.


DEPECHE MODE – Speak & Spell (1981)

Quando surgiram, eram considerados os “patinhos feios” da cena de sintetizadores. Formado em Basildon (essex), em 1980, por Dave Gahan (voz), Martin Gore (teclados), Vince Clarke (teclados) e Andy Fletcher (teclados), o grupo despontou como o mais entusiasta no uso dos sintetizadores, três! Logo lançaram esse seu primeiro álbum pelo selo Mute Records e viram o principal compositor, Clarke, pular fora do barco e formar o duo Erasure. Para o bem ou para o mal, Gore assumiu as composições e, bem,  por irônico que pareça, o Depeche Mode acabou por se tornar a banda mais bem sucedida de todas as citadas aqui e com a carreira mais longeva e consistente, estando na ativa e lançando bons álbuns até hoje. Embora a banda tenha álbuns bem mais consistentes e melhores que esse, ele está aqui por ser o pontapé inicial na carreira do grupo, que merece ter toda a discografia revisitada por aqueles que gostam do gênero.


:: Ouça a nossa Playlist com um resumo dos álbuns citados:


:: Assista uma apresentação do Depeche Mode de 1981:

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