A BALADA DE BUSTER SCRUGGS (The Ballad of Buster Scruggs, 2018)


Cena do filme "A Balada de Buster Scruggs", faroeste dos Irmãos Coen

“A Balada de Buster Scruggs é um faroeste diferente do qual estamos habituados”

Os irmãos Coen parecem ter aderido à moda do streaming. Seu último filme, “The Ballad Of Buster Scruggs”, saiu pela Netflix. Apesar de manter as características das produções dos Coen e até de ter concorrido em algumas indicações ao Oscar (canção original, roteiro adaptado e figurino), o filme teve pouca divulgação e passou sem estardalhaço pelas redes sociais, ao contrário do que aconteceu com outras produções dos irmãos a exemplo de “Fargo” (1997) e “Onde Os Fracos Não Tem Vez” (2008).

“The Ballad Of Buster Sgruggs” é metalinguagem pura. Se influenciando altamente da literatura fantástica, o filme traça seis histórias que narram o Velho Oeste de uma forma um tanto quanto diferente, seja pela forma inusitada ou pelos personagens que estão ali, atípicos aos que conhecemos na história do gênero.

A primeira história traz o próprio Buster Scruggs, um bandido fora-da-lei procurado, de recompensa valiosa, porém fora dos padrões sujos e mal encarados do gênero. O protagonista é vaidoso e alegre, anda arrumado. De uma forma educada, tenta negociar com seus inimigos. O personagem é um exímio atirador e estrategista, o seu jeito de derrubar alguns oponentes é cheio de firulas e o próprio fora-da-lei dialoga com o espectador sobre seu modo de agir.

Unindo musical, humor inteligente, faroeste e cinismo, é a deixa para o espectador seguir adiante.

Na segunda história, um ladrão está interessado no dinheiro de um banco no meio do nada. O que não será tão fácil quanto possa parecer. No meio de um cenário minimalista, os irmãos Coen traçam uma curta história de faroeste com ladrões, justiceiros, índios e forcas.

A terceira história pode desagradar alguns, é totalmente triste, cruel e de carga dramática pesada. Narra a trajetória de um empresário viajante que vai pelas cidades mostrando seu show particular, carregando um trunfo em sua carroça para obter dinheiro. Numa história com monólogos criativos e cheios de referências (de Abel e Caim até Shakespeare), que ao mesmo tempo é uma crítica a relação do homem com as novidades, em detrimento do que já considera ultrapassado.

A aproximação com a literatura fantástica é sempre recorrente: Cortázar, Kafka, Ítalo Calvino. Personagens e situações que parecem ter sido criados por alguns desses escritores.

Em se tratando do ambiente que foi propício à corrida do ouro, obrigatório pensar em Jack London e seus contos. E é baseada no livro de London, “All Gold Canyon’”, que a quarta história surge. O homem e sua ambição por uma pedra preciosa. Numa atuação magnífica de Tom Waits, o espectador não vê muita ação em tela, porém sabe que pode esperar um final surpreendente pela motivação do protagonista e pelo próprio silêncio do lugar.

A quinta história é que mais traz elementos do faroeste clássico. E nesse ambiente surge um romance, e o surrealismo perde força. Foge um pouco da proposta do filme, a história acaba ficando longa, morna e se arrasta para um final que não rende surpresas para o espectador. Poderia até ter ficado de fora.

A sexta história, é curta. Apresenta cinco viajantes inusitados numa carruagem. Com diálogos ágeis e tratando de temas que falam de amor, fidelidade e morte, o espectador acompanha a viagem e aguarda para saber para onde esses passageiros estão indo e quem realmente eles são.

Destaques para o cenário do filme, mesmo quando minimalista, que é cheio de cor e traz uma perspectiva mais surreal do velho oeste, aqui tentando não focar tanto à aridez e na desolação típicas do gênero.

O figurino merecia uma indicação ao Oscar. A fotografia também não fica atrás, deixando algumas cenas marcantes dentro de nosso cérebro por pelo menos uma semana. A parte musical do filme que ganha força sobretudo na primeira história, quebra um pouco a seriedade do Velho Oeste, mostrando um vilão que é tão bom em suas melodias quanto com o revólver.

O filme acaba deixando várias interpretações.

As histórias preferidas podem variar de pessoa para pessoa. O interessante é que o espectador vai se identificar com algumas. Nesse brincar de contar histórias, os irmãos Coen acabam fazendo aquilo que mais sabem: expor a personalidade humana, fazer o espectador lembrar que do outro lado da tela existe o que vemos na realidade: anseio, ambição, orgulho, crueldade, o medo da morte.

O velho hábito de contar histórias que nossos pais tinham não perde sua tradição, aqui elas continuam em alta num tom mais maduro, criativo, estilizado e cheio de surpresas.

:: NOTA: 8,0


NOTA DOS REDATORES:
Eduardo Juliano:
Isaac Lima:
Luciano Ferreira:

MÉDIA: 8,0


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Cartaz do filme "A Balada de Buster scruggs", faroeste dos Irmãos Coen

::FICHA TÉCNICA:
Gênero: Comédia Dramática, Faroeste
Duração: 133 minutos
Direção: Joel e Ethan Coen
Roteiro: Joel e Ethan Coen
Baseado em: ‘All Gold Canyon’ de Jack London e ‘The Gal Who Got Rattled’ de Stewart Edward White
Elenco: Tyne Daly, James Franco, Brendan Gleeson, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tim Blake Nelson, Tom Waits e outros
Data de Lançamento: 09 de Novembro de 2018 (USA)
Censura: 16 anos
NETFLIX: The Ballad Of Buster Scruggs
IMDB: The Ballad Of Buster Scruggs


:: Assista ao trailer oficial do filme:

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