JAMES – All The Colours of You


Foto da banda James em 2021
Foto | Lewis-Knaggs

Há vários James possíveis na carreira da mancuniana banda oitentista James. Numa discografia relativamente extensa, algo natural. Dito isto, fica mais fácil entender o James de “All the Colours of You”, que não chega a ser tão distante do James de Living in Extraordinary Times (2018), e até de outros momentos, já que em determinado ponto do percurso a eletrônica passou a se tornar mais presente nas canções do grupo (na fase Millionaires e Pleased to Meet You), antes embaladas primordialmente por guitarras.

A vida é composta de perdas e ganhos. Banda de hits poderosos, em determinado ponto do percurso a banda de Tim Booth perdeu a capacidade de criar uma ou duas canções emblemáticas em seus álbuns. Bom e ruim. Hits tendem a obscurecer o conjunto ao destacar uma ou outra canção. Mas marcam não só a obra como um todo como a carreira e tornam-se momentos de maior ligação com o público em shows. A banda bem sabe disso, “Coming Home Pt.2”, faixa do álbum anterior soa como uma tentativa de reencontro com essa capacidade há tempos adormecida.

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Num ponto de sua carreira em que não há necessidade de provações, o James pode se dar ao luxo de fazer o tipo de música que quiser e abordar em suas letras temas que podem soar incomodativos, mas eles não se furtam, querem radiografar o tempo presente com sua obra. A abertura de All the Colours of You, com a faixa “Zero”, por exemplo, vem como uma bofetada de jeito na cara do ouvinte ao alertar que “Todos nós vamos morrer / Essa é a verdade / Pare de medir o tempo / Por dinheiro e juventude”. Esqueça o sentido depressivo que a frase pode sugerir inicialmente, a necessidade de direcionar as atitudes tendo em mente a compreensão da fugacidade da existência é o tema central.

Gravado antes e durante a Pandemia, o encontro do James de 2021 é com um grupo musicalmente dividido entre as batidas e detalhes eletrônicos e um orgânico mais intimista; e um letrista debruçado sobre temas  de interesse universais e outros introspectivos, adentrando um universo musical de formato Pop, mas alertando que o Pop pode tratar de temas complexos.

Os espectro político é pra onde Booth, que vive nos Estados Unidos, direciona parte dos seus versos em algumas canções do novo álbum. A faixa “All the Colours of You” já nasceu como um hino contra a discriminação racial ou de qualquer outro tipo: “Deus abençoe a América, hip-hip-hooray / O vermelho, o branco, preto e azul / Ame todas as cores, todas as cores de você”. Surge no calor das manifestações anti-racistas que aconteceram nos Estados Unidos e em várias partes do mundo após o assassinato por asfixiamento de George Floyd por um policial branco. Mais que isso, é o olhar perplexo de estar vivendo isolado numa pandemia enquanto políticos como Trump verbalizam suas insanidades: “Ele é a Ku Klux Klan, ele é a Ku Klux Klan / O Presidente é o seu homem, ele é a Ku Klux Klan”.

No inusitado balanço Funk Eletrônico de “Recover”, a pandemia e as atitudes negacionistas são os temas que guiam os versos de Booth, abalado pela perda do sogro, que buscam trazer esperança: “Chore / Por aqueles que perdemos que amamos / Lave suas mãos / Há um ladrão de nossa respiração / Fique por dentro / Fique vivo / Vai ficar tudo bem”. “Hush” é o olhar de alguém do ponto de vista do pós-morte, e “Wherever It Takes Us” traz um emaranhado de versos abstratos, inspirados por um pesadelo: “Ela está no multiverso / Vidas conectadas se sobrepondo como um / Como um corredor de espelhos / Vidas vividas e compartilhadas, vividas e compartilhadas/ Afetando-a agora”. O refrão é cantado em uníssono pelos vários integrantes da banda (nove atualmente), lhe dando um clima perto do épico. Na narrativa sobre um triângulo amoroso de “Isabella”, a banda esbarra no Krautrock, na”batita Motorik” que conduz o arranjo.

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Faz todo sentido a afirmação de Booth, de que o álbum foi “Gravado em uma realidade estranha e díspar, o álbum trouxe um conjunto único de desafios. É definitivamente um álbum diferente para nós. Fomos empurrados para algum lugar novo e isso é emocionante”, devido também ao processo de gravação feito em separado. À medida que se adentra e aprofunda em All the Colours of You é que se percebe que a aparente simplicidade esconde uma complexidade, principalmente de temas (alguns bem pesados), o que explica a frase do vocalista para descrever o disco que, dentre tantos, é uma fotografia de seu tempo com as suas diversas matizes.


James, capa de All the Colours of You

INFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 04 de junho de 2021
GRAVADORA: Virgin Records
FAIXAS: 11
TEMPO: 49:08 minutos
PRODUTOR: Jacknife Lee
CURIOSIDADES: O baterista David Baynton-Power não participou do álbum | O álbum foi gravado no Home Studio do produtor
DESTAQUES:  “All The Colours of You”, “Recover”, “Hush”
PARA FÃS DE: Manic Street Preachers, The Charlatans


O ÁLBUM:


O VIDEOCLIPE DE “RECOVER”:

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