Feira Noise 2017, como foi o primeiro dia do Festival


Foto: Paula Holanda

Feira Noise 2017 – Dia 1 (sexta-feira)

Line-up do dia
Tripulação 14 (Abertura)
Santini & Trio
Sinta a Liga Crew
Selvagens à Procura da Lei
The Baggios
Larissa Luz
Africania (Encerramento)

Em sua sétima edição, O Festival Feira Noise de 2017 chegou com sua proposta mais ambiciosa, tanto pela quantidade de bandas escaladas quanto pela estrutura organizacional montada.

O Centro de Cultura Amélio Amorim, que já foi palco de outras edições do festival e por onde já passou artistas diversos – num passado um tanto remoto, Titãs e Ira, e num mais recente, Lirinha – , estava belamente preparado para receber o público e as atrações, com um grande e bem iluminado palco.

Organizar um festival com bandas dos vários estados do país, com o Nordeste numa representação generosa, não é tarefa fácil. Os anos de experiência, de aquisição e troca de vivências favorece o trabalho do Feira Coletivo Cultural. Até porque a organização envolve não só a parte musical, mas também as discussões e diversas intervenções artísticas que acontecem durante o festival, além de toda a parte de logística e organização não musical.

Comparado a anos anteriores, o Feira Noise de 2017 traz mais opções gastronômicas para o seu público e, também, mais opções etílicas, com a parceria com uma fabricante de cervejas artesanais local, permitindo a venda de chopp. Somado a isso, as tradicionais tendas com venda de camisas, broches, cd’s, vinis, livros e outros objetos artesanais.

Com a apresentação das bandas programada para as dezenove horas, era vinte e trinta quando subiu ao palco a feirenseTripulação 14, primeira banda do festival, encarando assim uma responsabilidade enorme em abrir os trabalhos do dia e também por ser talvez seu show de maior porte.

Com o público ainda chegando à Arena do Amélio Amorim, A Tripulação 14 apresentou seu pop-rock num show de aproximadamente trinta minutos e seis canções, incluindo aí o single “Fugitivo” (que ao vivo soa melhor, com uma pegada mais pesada e distorcida) e uma versão para a canção “A Mão Pesada do Destino”, da também feirense Calafrio. Por incrível que pareça, o momento mais “quente” de sua apresentação, que no geral foi morna de ambos os lados (público e banda), apesar das tentativas do vocalista Lucas Vasconcelos de interagir com o público. Vale destacar a boa presença de palco da baixista (em contraponto a do guitarrista base) Débora Rodrigues, que de alguma forma lembra Paz Lechantin (baixista do Pixies), e que deveria se aventurar a fazer mais backing vocals. Estão no processo de amadurecimento de seu som, e precisam.

Enquanto a banda Santini e Trio se preparava no palco principal para a sua apresentação, na Tenda Black o grupo feirense Roça Sound procurava manter o público aquecido com sua mistura de dub, dancehall, reggaeton, hip-hop, rap, etc. Tarefa cumprida durante o intervalo de todas as apresentações do palco principal.

Mostrando o quanto o Feira Noise abarca tendências musicais diversas, e o line-up desse dia talvez seja o mais diversificado, a mudança do pop-rock para o jazz contemporâneo da Santini & Trio. Perceptível a diferença entre uma banda iniciante e outra já experimentada, a equalização e volume do som melhorou consideravelmente quando a banda subiu ao palco. Com anos de estrada, levaram para o festival um repertório de quatro canções, numa apresentação de cerca de trinta minutos, onde o jazz se misturou com elementos de música regional, tocadas com apurada técnica e entrosamento incrível, o que justifica o Prêmio Caymmi de Música 2017 como melhor banda, e o baterista Flaviano Gallo, como melhor instrumentista. Apesar disso, outro momento morno da noite, com parte do público se abastecendo, outra parte colocando a conversa em dia, e outra ainda chegando.

Sinta a Liga Crew | Foto: Feira Noise

Festival tem dessas, você vai pra assistir determinada(s) banda(s) e acaba descobrindo outra(s), para isso tem que estar com os “ouvidos abertos”, claro. A paraíbana Sinta a Liga Crew foi uma grata surpresa e começou a aquecer a noite. Pisaram o palco com roupas camufladas do exército. Com uma presença de palco arrojada mas sempre buscando interagir com o público, cuja retração inicial era perceptível, mas que aos poucos foi se encantando e se encontrando nas mensagens passadas pelas garotas. Suas letras de forte teor político, principalmente em relação ao empoderamento feminino, cantadas em perfeita harmonia pelas vocalistas Kalyne Lima, Camila Rocha e Preta Langy, e carregadas do charmoso sotaque nordestino, somadas ao poderoso instrumental comandado pelo DJ e produtor musical Guirraiz, impressionou muitos desavisados e angariou alguns fãs do público que estava presente.

A música do grupo que incorpora rap, dance hall, reggaeton, é uma bofetada na cara da sociedade brasileira e suas hipocrisias, bem mostrada na canção “Campo Minado”, do EP de mesmo nome. A performance da coreógrafa e dançarina Giordana Leite e a grafitagem de Priscila Lima são outro show à parte da apresentação do grupo.

A frase: “Entrar em campo com a partida ganha”, pode ser aplicada em relação ao show dos cearenses radicados em São Paulo da Selvagens à Procura de Lei. Ao subir ao palco, o quarteto arrastou para perto praticamente todo o público do festival. A impressão foi de que a maioria presente estava ali por eles (fato confirmado posteriormente pela quantidade de selfies e autógrafos que a banda deu). E eles não deixaram por menos, com uma pegada mais pesada e barulhenta do que a apresentada nos álbuns, Rafael Martins e banda interagiram e comandaram a massa. Brindaram o público com várias canções marcantes de sua discografia, boa parte cantada pelos fãs, dentre elas “Despedida” (um dos vídeos da banda com mais visualizações no Youtube), cantada pelo baterista Nicholas Magalhães e acompanhada em uníssono no “na na na na” da parte final, “Brasileiro” (outro dos hits) e “Mucambo Cafundó”, com a já tradicional abertura da roda no meio do público – todas do álbum homônimo de 2013; e “Tarde Livre”, single do álbum “Praieiro” (2016).

SPDL|Foto: Paula Holanda

Ao final do show, os músicos distribuíram autógrafos e sorrisos para fotos com uma quantidade bastante considerável de fãs. A apresentação da banda no Feira Noise se encaixou na turnê que estão fazendo desde o início do ano para promover o disco, sendo este o antepenúltimo de uma agenda que passou por diversos estados: Rio de Janeiro, Roraima, Amazonas, Piauí, Minas, Paraná, Santa Catarina, dentre outros, e que termina no dia 01 de dezembro no Rio grande do Sul.

Já era sábado quando nossos “vizinhos” da The Baggios (foto de destaque) começaram seu show. Transformados agora num trio, com a adição do tecladista/baixista Rafael Ramos, os sergipanos tinham a tarefa de segurar a peteca levantada pelos Selvagens à Procura da Lei. Entrosados no palco, e com o aparato musical devidamente equalizado, apresentaram seu blues rock com elementos de música regional. No palco, Julio Andrade era a perfeita mistura de Jimi Hendrix com Raul Seixas, mostrando perfeito domínio nas seis cordas, intercalando bases, riffs e solos enquanto cantava.

Com pouco mais de uma hora de show, mostraram repertório centrado no álbum “Brutown” (2016). Fizeram o que se pode chamar de show adulto. Pena que parte do público já não estivesse presente para saborear as diversas nuances musicais apresentadas pelo grupo, que intercalava em sua música xaxado, baião, psicodelia e até surf music. O The Baggios pode ser chamado de banda madura, são treze anos de carreira, já tocaram em diversos países, se apresentaram no Festival Lollapalooza, então sabem exatamente os caminhos por onde conduzirem sua música durante o show, e a entrada de um novo integrante em nada diminuiu a sintonia do duo Julio e Gabriel Carvalho (bateria).

A sequência natural, após o The Baggios, pelo cronograma do festival seria Africania, mas quem veio na sequência, já com a madrugada adentro foi a cantora Larissa Luz, e o que pode-se dizer é que a cantora simplesmente fez tremer as paredes o CCAM em dois sentidos: o som que brotava dos alto falantes estava estupidamente alto, mas com a qualidade muito boa; e sua performance, aliada a das outras duas bailarinas, geraram o que se pode chamar de segunda surpresa da noite. Com uma voz poderosa e um domínio de palco incrível, que em nada deixa a desejar se comparada até com artistas internacionais, Larissa mais uma vez “gritou” pelo fim das amarras que insistem em não se desfazer em nossa sociedade. Gritou de forma afinada contra o preconceito de qualquer espécie, e também encantou não só com sua simpatia e empatia com o publico, mas principalmente pela qualidade de sua música, basicamente eletrônica, mas que acrescenta percussão, guitarra e samples diversos.

Larissa Luz
Larissa Luz|Foto: Feira Noise

No show a cantora/compositora apresentou canções do álbum “Território Conquistado” (o álbum foi indicado ao Grammy Latino na categoria Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa), espécie de manifesto de afirmação e empoderamento, onde música eletrônica, rap, rock e samba se unem e se casam. Enriquecendo sua apresentação musical, há todo um lado cênico interpretado pelas bailarinas que por vezes se unem à vocalista na coreografia. Faltou gente pra ver seu show, que viu gostou.

O primeiro dia do festival chegou ao fim com as batuques afro da feirense Africania, com um instrumental coeso que une os tambores com os elementos elétricos da guitarra e contrabaixo. Às vezes a música do grupo caminha por um lado psicodélico, outras mais suingado ao estilo caribenho, ou simplesmente para o afro rock. Impressiona a coordenação e o trabalho percussivo do grupo, tendo à frente o percussionista Bel da Bonita, músico com participação em projetos diversos na cidade. Com um repertório dinâmico, o grupo encerrou a noite, digamos, “eclética” do festival e, apesar do cansaço dos presentes após uma maratona tão intensa, deixou boas expectativas para o segundo dia.

:: Cobertura do dia por:
Ângelo Fernandes
Isaac Martins
Luciano Ferreira

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