Mount Kimbie – Love What Survives (2017)


‘Duo inglês de música eletrônica lança um trabalho cheio de composições marcantes e apresentam um time de peso nas participações especiais’

O medo de verificar uma notícia. A tristeza de compartilhar uma tragédia. A política inescrupulosa e os tentáculos da corrupção consumindo o cidadão em todos seus esforços. Discussões inúteis que não geram resultados e parecem que foram criadas com temas da Idade Média. Esses são tempos tenebrosos, assustadores. Quando a tecnologia poderia mais nos ajudar, nos afastou e mais nos aproximou das cavernas. Renato Russo já citava numa de suas canções: ‘O mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você’ (‘O Mundo Anda Tão Complicado’ do disco Legião Urbana V de 1991).

Em relação a Renato, sou um covarde. Prefiro ficar na minha solidão, colocar aquele disco de cabeceira, ou mesmo, arriscar em algum lançamento que a cada instante aparece na minha frente. Esse processo antigo e particular é como fosse minha zona de conforto, e ao contrário de muitos, adoro permanecer nela, estável, intocável. O disco novo do Mount Kimbie apareceu diante de mim por conta de dois motivos: indicação de um amigo com gosto musical semelhante e uma chance que pretendia dar ao duo, sendo que nunca dei uma chance a eles – e posso até culpar a correria de nossas vidas que nos retira também de nossos momentos de lazer, de descoberta e mesmo de valorização da arte.

Novamente destaco dois motivos que me fizeram gostar de ‘Love Whats Survive’. O primeiro é a indecisão de gêneros que permeia o álbum. Post-dubstep, Ambient, Future Garage, Art Pop. O que se convencionou classificar em gênero, no álbum do Mount Kimbie acaba saindo do convencional, pois o importante é não ser igual o tempo todo, é fugir de uma linearidade sonora.

O outro motivo são as participações no trabalho. Elas agigantam ainda mais a produção sonora esmerada da dupla. Parece que estamos diante de uma banda, tão variados e competentes os artistas convidados. A fusão de eletrônico, rap e rock de ‘Blue Train Lines’ tem mais impacto com a voz poderosa de King Krule. A cantora Micachu traz a excentricidade certeira mesmo na serenidade de ‘Marilyn’. O R&B bem condensado com o Ambient nos faz escapar mentalmente para outro lugar, e dessa forma as enevoadas ‘We Go Come Together’ e ‘How We Got By’, ambas com a voz de James Blake, tornam-se um luxo para o ouvinte. A novata Andrea Balency contribui bem e deixa ‘You Look Certain (I’m Not So Sure)’ com aquele saudoso gostinho de Stereolab.

Não apenas de participações vive ‘Love Whats Survive’. Dominic Maker e Kai Campos são inteligentes tanto na escalação dos músicos convidados, bem como em trazer várias influências e referências da música mundial para o álbum. ‘Poison’ é herança de Flying Lotus e Dj Shadow. ‘Audition’ e ‘Delta’ remetem ao eletrônico contagiante e prazeroso que o Four Tet costuma criar. Entretanto, de forma alguma isso é ruim. Na soma final, o duo acaba construindo uma identidade que servirá de modelo para futuras bandas do eletrônico (assim aguardamos). Os pupilos que aprenderam com os professores e agora podem ensinar ao mundo todo o processo de se fazer música madura, talentosa e agradável.

Na minha cadeira de trabalho, estou absorto com o álbum. Preso na minha posição – mas de forma nenhuma queixo disso – o mundo parece se quebrar lá fora, e eu percebo que nem acompanho mais as notícias daquele dia. É o amor que sobrevive, a música de qualidade que perdura, minha fuga da realidade pelo tempo que aquele disco fique sob o poder de minha audição.

NOTA: 9,0

FAIXAS:
01 – Four Years and One Day
02 – Blue Train Lines (feat. King Krule)
03 – Audition
04 – Marilyn (feat. Micachu)
05 – SP12 Beat
06 – You Look Certain (I’m Not So Sure) (feat. Andrea Balency)
07 – Poison
08 – We Go Home Together (feat. James Blake)
09 – Delta
10 – T.A.M.E.D
11 – How We Got By (feat. James Blake)

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:: Assista ao vídeo de ‘Four Years and One Day’:

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