Documentário ‘White Riot’ e o movimento ‘Rock Against Racism’


Foto do movimento Rock Against Racism

Os pontos de partida e de chegada do documentário White Riot (2019), da diretora Rubika Shah, coincidem com os dois momentos cruciais para o Movimento RAR – Rock Against Rascism: parte das declarações controversas (para dizer o mínimo) de astros da música pop como David Bowie, Eric Clapton e Rod Stewart em relação a situação política e econômica da Inglaterra; e culmina com o lendário show que teve a participação de artistas como Steel Pulse, The Clash, X-Ray Spex, Jimmy Pursey (Sham 69), Tom Robinson Band e Patrik Fitzgerald, no Victoria Park, em 30 de abril de 1978, para uma multidão de centenas de milhares de pessoas.

Para contextualizar a situação vigente na Inglaterra na segunda metade da década de 70, o documentário inicia com um breve relato sobre um dos períodos econômicos mais difíceis da história recente do Reino Unido, com consequências sociais severas principalmente sobre a classe trabalhadora e os jovens, com aumento do desemprego e cortes no benefício social.

É nesse cenário turbulento (ou aproveitando dele) que o discurso racista de políticos conservadores de extrema direita como Enoch Powel e Martin Webster encontram terreno fértil para a disseminação de ideias e atitudes racistas. À frente do Partido de extrema Direita, National Front, Webster promoveu manifestações racistas contra imigrantes e negros. Powel, por seu lado, declarava abertamente na TV que imigrantes e seus descendentes deveriam ser deportados para seus países de origem. Ao mesmo tempo, a polícia se posicionava de forma favorável a esse discurso, aumentando a repressão contra o público alvo dos discursos racistas, identificados pelo RAR, na verdade, como fascistas. “Nossa tarefa era retirar a bandeira britânica e exibir a suástica que escondiam por trás”, dirá Red Saunders em determinado momento do White Riot.

Poster do documentário White Riot, de Rubika Shah

Em entrevista para a revista Playboy de abril de 76, Bowie afirmou: “Acho que o Reino Unido está pronto para um líder fascista. Precisamos de uma frente de extrema-direita que varra tudo dos seus pés e deixe as coisas arrumadinhas”. Mais tarde, atribuiria a culpa ao uso excessivo de cocaína à época. Por seu lado, Clapton, em um show em Birmingham, fez um discurso xenófobo, mandando os imigrantes irem embora e conclamando a apoiarem Enoch Powel, finalizou sua verborragia dizendo: “Mantenhamos a Grã-Bretanha branca”, slogan do National Front. Também se desculparia posteriormente, atribuindo à bebida a culpa pelas suas declarações. Para completar, Rod Stewart também seguiu endossando o tom de seus colegas: “Powell está certo. Este país está superlotado. Os imigrantes devem ser mandados para casa”.

Foi a gota d’água para o surgimento o do Rock Against Racism (RAR), liderado pelo fotógrafo Red Saunders, e ao qual se juntaria um considerável artistas, escritores e ativistas políticos, dentre eles o tipografo Roger ‘Dub’ Huddle, responsável pela parte gráfica do movimento. A intenção era alertar as pessoas contra o racismo enraizado na sociedade britânica e disseminado por políticos e, de forma absurda, endossado por artistas.

É sobre a estratégia e os métodos de “combate” empregados pelo RAR que se debruça o documentário de 80 minutos de Shah. Mostrando que, numa época em que não havia celulares e nem redes sociais, a única forma de comunicação eram as cartas e, principalmente, os fanzines. O RAR foi mestre em utilizar todos os recursos disponíveis para a sua contraofensiva. E o próprio documentário utiliza-se bastante do formato e das imagens dos fanzines ao longo de sua narrativa, enriquecida também por entrevistas atuais e de época, trechos de apresentações, recortes de revistas e trechos de programas marcadamente racistas como o Black and White Minstrel Show, apresentado pela BBC entre 1958 e 1978, e que, dentre outros momentos claramente racistas, mostrava brancos com os rostos pintados com tinta preta, a infame blackface.

De início, o grupo enviou uma carta a várias revistas de música do Reino Unido, sendo publicada nos semanários NME e Melody Maker:  “Lemos sobre o apoio de Clapton a Powell em Birmingham e quase vomitamos. Vamos, Eric. Você é o maior colonizador do Rock. Queremos criar um movimento contra esse veneno racista no mundo da música. Pedimos suporte ao Rock Contra o Racismo (RAR). P.S.: Quem atirou no xerife, Eric? Com certeza não foi você, amigo”. O texto faz referência à canção “I Shot the Sheriff”, de Bob Marley, que se tornou um grande sucesso na versão de Clapton. “Eu vi a carta do Red no NME e escrevi para ele, e ele respondeu”, diz Irate Gate, uma das “cabeças pensantes” do movimento, comentando sobre como entrou no RAR.

O filme de Shah, traça todo o percurso seguido pelo RAR, com o surgimento de sedes do movimento por todo o Reino Unido, expandindo o discurso contra qualquer tipo de discriminação, seja ela racial ou de gênero.

O show inaugural do RAR aconteceu em 1976, com a banda britânica de reggae Matumbi ao lado da cantora de blues Carol Grimes. Através de uma série de shows multiculturais (bandas de Punk, Ska e Reggae) e eventos, o movimento RAR ganhou adeptos e cresceu em todo o Reino Unido, seu momento maior aconteceu no dia 30 de abril de 1978, quando uma multidão com cerca de 100.000 pessoas marchou por 11 km, de Trafalgar Square no centro de Londres para um show ao vivo no Victoria Park, reduto do partido fascista Frente Nacional. Num dos momentos divertidos, Saunders comenta: “Eu disse às autoridades que esperávamos 500 pessoas. Nós não queríamos ter que colocar banheiros químicos”.

Segundo a diretora, a ideia do documentário surgiu durante as pesquisas que a diretora fez para Let’s Dance (2015), sobre David Bowie, encontrando material que lhe instigou ao projeto. Está tudo aí: as ameaças sofridas pelos membros do RAR, as cartas e os relatos de pessoas que queriam se associar, as agressões sofridas pelo grupo, as dificuldades, enfim, os relatos vívidos de quem participou de um movimento de cunho cultural mas com resultados políticos, com a consequente derrota do National Front nas urnas. Ah, e como o The Clash aceitou participar do show no Victoria Park e tocar antes de Tom Robinson e sua banda. “Tínhamos que ser humildes de abrir para o Tom Robinson. Ele estava envolvido desde o começo, então era razoável que ele fosse o ato principal, mas geralmente não agíamos assim”, relembra o baterista Topper Headon.

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Embora se debruce sobre acontecimentos de cerca de quarenta anos atrás, White Riot (que teve seu lançamento adiado devido a Pandemia) fala muito sobre os tempos atuais e surge num crucial momento histórico de luta por direitos, encabeçado pelo movimento Black Lives Matter e as manifestações contra o racismo que se seguiram principalmente após o assassinato por asfixiamento de George Floyd por um policial, nos Estados Unidos.

Se há uma palavra para descrever o documentário, essa palavra é: imprescindível.


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