Slowdive exalta a animação experimental de Harry Everett Smith


Capa do álbum Slowdive e a referência à obra de Harry Everett Smith

Capa, qual a importância dela para o sucesso de um disco? Qual a capacidade dela para em se fixar na mente das pessoas e, mais que isso, na memória coletiva de forma a tornar-se um símbolo, um ícone, rapidamente reconhecível, mesmo para quem nem mesmo é um aficionado em música? Automaticamente virá à mente uma série de capas inesquecíveis, marcantes, belas, feias, ridículas. Seja qual for o sentimento que desperta, a capa, mais que embrulhar um disco, tem também a função, em muitos casos, de transmitir ao ouvinte uma mensagem, um conceito ou homenagear algo ou alguém. É disso que trata essa nova coluna do site.

Não necessariamente falaremos de capas já bastante comentadas há décadas, caso, por exemplo, da usada no álbum de estreia do Velvet Underground ou “o disco da banana”, criação de Andy Warhol. Um ícone!. A ideia aqui é, inclusive, falar de capas cuja arte até passou um tanto desapercebida, mas que tem uma estória a contar, como essa do álbum de retorno da banda Slowdive, ícone do Shoegaze.

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O ano de 2017 era de bastante agitação no meio alternativo com o retorno do quinteto Slowdive. Dissolvido em 95, pouco tempo após o lançamento de seu terceiro álbum, Pygmalion, o grupo estava de volta com sua formação original. De cara, lançaram dois singles, “Star Roving” (em janeiro) e “Sugar for the Pill” (em março) para matar a curiosidade em relação ao que estava por vir no álbum de retorno.

+++ CRÍTICA | Slowdive – Slowdive

“Slowdive”, o homônimo quarto álbum do grupo, lançado finalmente em maio de 2017, apresentou um novo conjunto de canções que em nada diminuiu o repertório construído pelo grupo no início dos anos 90. Citada na divulgação do disco, a arte de capa foi comentada em vários textos que comentaram o álbum, todos sem um aprofundamento maior. A capa do disco traz um frame retirado da animação vanguardista (chamada de cutout animated) “Film Number 12: Heaven and Earth Magic (1957-1962)”, uma das obras mais conhecidas do artista visual e cineasta nova-iorquino Harry Everett Smith (1928-1991).

Cutout Animated é um tipo de animação que utiliza a técnica de recortes diversos para  criar o filme. A animação de Smith, que esteve intimamente ligado à chamada Beat Generation, em sua “versão final” tem cerca de sessenta e seis minutos de duração e consiste em uma sucessão de colagens e imagens surreais e hipnóticas em preto e branco e sem diálogos. A animação acompanha uma heroína que perde uma melancia e passa a sofrer com uma terrível dor de dente. Ele também se envolveu em outras áreas como a música, pintura e a antropologia, e até produziu o primeiro álbum da banda The Fugs, The Village Fugs (1965), e  First Blues: Rags, Ballads and Harmonium Songs, de Allen Ginsberg.

O que levou o grupo a escolher essa imagem?

Slowdive, Slowdive 2017

Seria interessante ouvir a resposta da própria banda. Em várias entrevistas consultadas em busca de respostas, não foram encontradas perguntas relacionadas e nem respostas quanto aos motivos para a capa. Talvez pelo longo tempo que o grupo esteve em hiato e pelo inusitado do retorno, com mais “prestígio” do que quando estavam na ativa, muito se perguntou sobre esses assuntos e nada sobre a arte da capa.

Considerando que “Heaven and Earth Magic” é das obras mais comentadas de Smith, pode-se inferir que tenha sido de criar uma capa icônica, ao mesmo tempo associando a “imagem” da banda a um artista da vanguarda artística nova-iorquina. É possível também que tenha sido uma ideia de Neil Hestead, já que o guitarrista/vocalista desde a dissolução do Slowdive esteve envolvido com a música Folk, da qual Smith foi um grande pesquisador e até lançou o álbum Anthology of American Folk Music (1952).

Em 1991, Smith recebeu o Chairman’s Merit Award na cerimônia do Grammy por sua contribuição para a Música Folclórica Americana. Ao receber seu prêmio, ele declarou: “Estou feliz em dizer que meus sonhos se tornaram realidade. Eu vi a América mudada pela música … e todas essas coisas que o resto de vocês estão falando”.

Em 1999, o produtor Hal Willner homenageou Smith com o projeto “The Harry Smith Project: Anthology of American Folk Music Revisited”, inspirado na obra do artista, que teve a participação de diversos artistas e acabou virando um box contendo dois CD’s e dois DVD’s, trazendo nomes como Beth Orton, Elvis Costello, Nick Cave, Beck, Sonic Youth, Wilco.


A ANIMAÇÃO Film Number 12: Heaven and Earth Magic, DE HARRY SMITH:

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ângelo
    20/10/2021

    Matéria interessante, abordando algo “incomum” dentro do universo musical.

  2. 20/10/2021

    Pois é, a ideia é essa mesmo. Inclusive já está engatilhada a próxima, que será… SURPRESA! Rssss

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