That Petrol Emotion e sua obra-prima do Guitar-Pop


That Petrol Emotion, para texto de Chemicrazy

Não são poucas as bandas que mereciam um destino mais generoso no competitivo mundo do Showbiz. Uma delas é o That Petrol Emotion, que esteve no cast de grandes gravadoras, e, ainda assim, permaneceu num relativo ostracismo por todo seu período de atividade (e até hoje não foram redescobertos pelos “caçadores de bandas perdidas” de plantão). O nome esquisito com certeza não ajudou, bem como o ecletismo exagerado de alguns de seus discos. Nessa resenha vou focar na grande joia da discografia do grupo, uma obra-prima do guitar pop chamada Chemicrazy (1990).

Surgido das cinzas do grupo Punk irlandês Undertones (autores da clássica “Teenage kicks”, a música favorita do famoso e influente DJ inglês John Peel), o That Petrol Emotion foi formado em 1984 pelos guitarristas John O´Neill e Raymond Gorman e pelo baterista Ciaran McLaughlin. Com a adição de Damian O´Neill, irmão de John e ex-guitarrista do Undertones, na função de baixista, começaram a ensaiar e adotaram um estilo Pop/Rock garageiro. A falta de um vocalista de ofício foi suprida quando eles encontraram Steve Mack, um americano carismático que haviam conhecido nas ruas de Londres.

O disco de estréia foi o ótimo Manic Pop Thrill (1986), que teve boa repercussão entre os críticos, mas sofreu nas vendas por causa do engajamento da banda com a causa da Irlanda do Norte e suporte ao movimento separatista IRA (Exército Republicano Irlandês), tema presente em muitas das letras do álbum.

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Em 1987, lançaram o segundo álbum, Babble (1987), já por uma gravadora grande (Polygram).  As vendas foram maiores, mas nada que agradasse aos executivos do selo, que exigiram um álbum mais comercial para suceder o anterior. A banda se recusou a aceitar pressões e saiu da Polygram para a igualmente poderosa Virgin. Tensões marcaram o terceiro álbum devido à saída do principal compositor da banda, John O´Neill. O excesso de ecletismo, com a incorporação de ritmos Funk e Dance e até de baladas ao estilo celta tradicional, não agradaram nem crítica nem público.

Chemicrazy, de 1990, foi concebido num momento de incerteza, com novos membros assumindo a tarefa de compor. Damian assumiu a segunda guitarra e um novo baixista (John Marchini) foi escalado.

A opção foi retornar ao som mais guitarreiro, e os resultados foram sublimes. Doze canções de alta qualidade que se completam e mostram uma identidade que a banda ainda não tinha conseguido achar.

A fórmula se baseava numa “cozinha” poderosa, nos vocais ainda mais destacados de Mack – que lembram Marc Bolan, ídolo do Glam Rock setentista -, e como a cereja do bolo, guitarras em máxima propulsão, atirando riffs matadores e solos impressionantes pra todo lado. Em certos momentos lembram Television, em outros remetem aos solos sujos de Neil Young, com poucas notas e muita repetição. Destaque para a produção de Scott Litt, que havia acabado de trabalhar com o R.E.M. no disco Green.

Foto do álbum Chemicrazy, do That Petrol Emotion

“Hey Venus” abre o álbum com um riff contagiante e um refrão marcante. “Mess of Words”, “Compulsion” e “Sweet Shiver Burn” são baladas perfeitas para as massas, mas ninguém ouviu. O lado roqueiro não é menos atraente, pelo contrário. “Scum Surfin’” é adrenalina pura, tocada em velocidade máxima, e o título faz referência à arte tosca da capa do álbum, um homem surfando sobre um mar de sujeira. “Gnaw Mark” abusa da interação das guitarras flamejantes e cria um efeito notável ao sobrepor samplers do que parece ser a apresentação de uma notícia na televisão com o solo sujo e distorcido de guitarra.

“Head Staggered” é um petardo, bateria propulsiva e guitarras massivas emoldurando uma letra corrosiva, que trata de vício e decadência: “5 o´clock fever will bite/Desire for virtue, but the wrong is right”. A maravilhosa “Blue to Black” conta com um duelo de guitarras inspiradíssimo e uma performance vocal extasiante de Mack. É o ponto máximo da trajetória do grupo.

É uma pena que uma obra tão boa tenha passado despercebida, ignorada por público e crítica até hoje. A banda ainda fez mais um álbum mediano, Fireproof (1993) antes de se separar em 1994. Eles retornaram em 2008, e fizeram shows relembrando os velhos tempos. As apresentações para públicos reduzidos (que podem ser conferidas em vídeos amadores disponíveis no You Tube) deixaram ainda mais evidente o fato de que o That Petrol Emotion deveria ter sido grande. São poucas as bandas que conseguem transmitir tanta energia ao vivo, e ainda mais raros os cantores com a presença de palco magnética de Steve Mack.

Faço votos de que Chemicrazy possa ser alçado das cinzas e aclamado um dia como um grande registro, símbolo de um momento cronológico mágico e singular em que o Rock Alternativo batia na porta do mainstream.

DESTAQUES: “Blue to Black”, “Hey Venus” e “Head Staggered”.


DISCOGRAFIA:

Manic Pop Thrill (1986)
Babble (1987) 
End of the Millennium Psychosis Blues (1988)
Chemicrazy (1990)
Fireproof (1993)
Final Flame (Live – 2000)


O VIDEOCLIPE DE “HEY VENUS”:

 

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