ESPECIAL | McCarthy, o discurso politizado do Jangle-Pop


McCarthy Band

 


“A maioria das canções era dirigida contra o thatcherismo e o que eu via como a oposição desesperada ao Thatcherismo que existia na época, particularmente no Partido Trabalhista. Portanto, eles pertencem a um período muito específico” (Malcolm Eden em entrevista de 2015)

Nicky Wire, baixista do Manic Street Preachers, certa vez declarou sobre “I Am a Vallet”, álbum de estreia do McCarthy : “Para mim, esse é o maior álbum político já feito… Eu o amo tanto que o nome do meio do meu filho é McCarthy”. Não por acaso, o Manic Street Preachers, uma banda que sempre escreveu letras politizadas, fez versão para três faixas da banda: “We Are All Bourgeois Now”, “Charles Windsor” e “Red Sleeping Beauty”; e tem o McCarthy como uma de suas principais influências. James Dean Bradfield, também dos Manics, considera um dos melhores álbuns britânicos de todos os tempos.

Mas que banda é essa que assim como os Smiths e o James utiliza um nome próprio como título? O McCarthy é tirado do nome do senador americano Joseph McCarthy, que na década de 50 iniciou uma verdadeira caça às bruxas, perseguindo diretores, atores e roteiristas de Hollywood que classicava como comunistas, devido a temáticas dos filmes e a postura política de esquerda. Na ´poca até uma espécie de cartilha foi criada para identificar comunistas.

A HISTÓRIA PRECISA SER CONTADA: O INÍCIO E “I AM A VALLET”

Formado em Barking (Essex), em 1984, pelos então estudantes do Barking Abbey Comprehensive School, Malcolm Eden (guitarra e voz), Tim Gane (guitarra) e John Williamson (baixo), a banda se tornaria um quarteto com a entrada do baterista Gary Baker. Bastante influenciados pelo Punk Rock dos Buzzccks, The Clash e Sex Pistols e também pelo Pós-Punk politizado do Gang of Four, já em 1985 o quarteto lançaria seu primeiro e autofinanciado single “In Purgatory”. A estreia do grupo traz apenas três curtas faixas que juntas somam pouco mais de cinco minutos. O lado B, com “The Comrade Era” e “Something Wrong Somewhere”, é o que mais se aproxima da sonoridade que a banda viria a fazer posteriormente, com o uso de dedilhados melódicos extraídos da guitarra Rickenbacker típicos do Jangle-Pop.

O movimentado ano de 1986 marcou a assinatura com o selo Pink Label; participação na famosa compilação C-86 (maio), lançada em K7 pelo semanário NME (com a faixa “Celestial City”), junto a nomes emergentes da cena britânica, como The Wedding Present, Primal Scream, Soup Dragons, The Bodines, The Shop Assistants, The Mighty Lemon Drops, The Pastels, dentre outros; lançamento do segundo single “Red Sleeping Beauty” (outubro), que viria a ser também o nome de uma banda sueca; e gravação de sua primeira session no programa da BBC do saudoso DJ John Peel, executando quatro faixas (novembro).

McCarthy band

Voltando a “Red Sleep Beauting” (traduzindo, Bela Adormecida Vermelha), a letra segue a linha do anti-thatcherismo, postura que a banda explicitaria em várias outras canções: “Estou dormindo há vinte anos / Se estou dormindo há cem anos / Ela não vai me acordar / Ela não vai me acordar /… Estamos profundamente adormecidos / Enquanto ainda há uma guerra para vencer / Meu sonho vermelho é tudo / Eles não vão me acordar”. Muitas das letras também fazem críticas ao Capitalismo e seus problemas. Na época, Eden se alinhava politicamente às ideias Marxistas, criticando tanto a política neoliberal de Margaret Thatcher na Inglaterra (e de Ronald Reagan nos EUA) quanto o discurso do opositor Partido Trabalhista.

Em uma entrevista de 2015, o vocalista e letrista comentou sobre a maneira como costumava usar do artifício de usar uma terceira pessoa em suas letras, inspirado em Bertolt Brecht: “Sim, certamente estava muito interessado em Bertolt Brecht. Uma de suas ideias principais, como você diz, era que o público não se identificasse com os personagens de suas peças, mas assistisse de uma forma mais distanciada o que se passava no palco, para que pudessem julgar a ação e, por extensão, sobre o mundo. Fiquei atraído pela ideia de falar por meio de personagens, porque isso significa que o ouvinte tem que descobrir o significado para si mesmo. Não há nada pior, em minha opinião, do que espalhar sua mensagem para pessoas que concordam com você, como muitos grupos politicamente comprometidos parecem fazer”.

Em março de 87, sai o single “Frans Hals”, o último pelo selo Pink Label e o derradeiro da estreia em álbuns. Outra session para o programa de John Peel acontece em outubro.

“I Am a Vallet”, seu debute, é lançado em novembro pelo selo September Records. Gravado no Scarf Studios, em Londres, o álbum foi produzido por Nigel Palmer e traz catorze faixas curtas, com duração média de dois minutos. Há participações especiais de Andrew Golding (Cravo) e John Hymas (Viola). A capa utiliza a obra “O Funeral”, uma pintura do artista expressionista alemão George Grosz e mostra uma espécie de procissão fúnebre que atravessa uma cidade ladeada por prédios.

Devido a suas letras pouco convencionais ao estilo e com críticas pesadas, o álbum não teve execuções nas rádios, exceto por John Peel, um dos parcos entusiastas do som do grupo. Musicalmente eles seguem explorando os dedilhados melódicos com seu Jangle-Pop em seu melhor momento.

Carregam um tom melancólico em “An MP Speaks”, que fala sobre abusos; a crítica feroz ao Capitalismo embalada pelos riffs rápidos de “Monetaries” (morte aos monetários, diz um trecho da letra); sobra críticas para a religião em “God Made The Virus” e há o clima totalmente smithiano de “The Procession of Popular Capitalism”, a faixa mais longa, que retoma a crítica ao modelo econômico capitalista. “The Well of Loneliness”, com letra sobre solidão e desesperança, foi o único single retirado do disco. Na Indie Charts, parada britânica das bandas independentes, “I Am a Vallet” conseguiu alcançar o sétimo lugar.

A banda segue sua rotina de shows, e devido ao posicionamento político das letras logo são associados a Billy Bragg (também de Barking) e aos Redskins, artistas contemporâneos do McCarthy e também com tendências de esquerda.

“THE ENRAGED WILL INHERIT THE EARTH” E AS RACHADURAS

Entre o lançamento do primeiro álbum e de “The Enraged Will Inherit The Earth” (1989), são lançados mais três singles, com destaque para “Should the Bible Be Banned”, que no lado B traz outra faixa emblemática na carreira da banda, “We Are All Bourgeois Now”. Lançado em março de 89 pelo selo Midnight Music Records, o segundo trabalho apresenta canções com duração bem mais longa que seu antecessor, “Boy Meets Girl So What”, tem mais de seis minutos, e um direcionamento musical semelhante, mas sem o mesmo fulgor.

Um quinto lugar na parada indie coloca o novo disco num patamar logo acima se comparado ao sétimo conseguido por “I Am a Vallet”. “I’m Not a Patriot But” é a controversa faixa do álbum, que faz alusão a Guerra da Nicarágua: ”Longe na América Central / Homens e mulheres jovens lutam para tornar seu país livre / Para expulsar um exército estrangeiro / Os inimigos da liberdade / O que você vai dizer quando alguém te perguntar / “Você está do lado de quem?” / Em sua luta, irmãs e irmãos distantes, estou no seu lado”. A faixa contém um sample com as palavras proferidas pelo líder negro Fred Hampton, momentos antes de ser assassinado pela polícia de Chicago: “Repeat after me. I am a revolutionary”.

O álbum foi produzido por Ian Caple juntamente com a banda e tema participação de Vicky Richardson (violino). Há um consenso entre Eden e Gane de que esse é o pior álbum que eles gravaram. Em uma entrevista de 2001, Gane atribui a assinatura do contrato com a Midnight como um dos fatores para isso, definindo como a pior coisa que eles fizeram: “That contract was a trap, but we didn’t see it then” [O contrato era uma armadilha, mas não percebemos]. O processo de gravação foi horrível, com Gary preferindo fazer todas as seções de bateria numa Drum Machine. A canção escolhida para single é “Keep an Open Mind or Else”.

“BANKING, VIOLENCE AND THE INNER LIFE TODAY” E O FIM

“Banking, Violence and the Inner Life Today”, terceiro e último álbum do McCarthy, lançado em agosto de 1990, mostra uma ligeira mudança na sonoridade do grupo, que já na faixa de abertura, “I’m on the Side of Mankind as Much as the Next Man”, mostra elementos psicodélicos e letra no padrão McCarthy: “Chega um momento em que devemos nos perguntar / Se o dinheiro ou a humanidade são melhores / Chega um dia em que devemos nos perguntar / Se o dólar ou o nosso próximo vem em primeiro lugar”.

Musicalmente, há o uso de uma maior variedade de elementos e instrumentos (incluindo teclados e sintetizadores), é o álbum mais diversificado do grupo e também o melhor produzido, a cargo de Kevin Harris. Em “The Drinking Song Of The Merchant Bankers” os climas remetem diretamente ao New Order com até a voz de Eden soando como a de Bernard Sumner.

“Now is the Time for an Iron Hand” é sobre alguém que clama a “necessidade de uma mão de ferro para colocar a nação nos trilhos”. Ao longo do álbum, Eden canta de forma mais suave, até conta com os vocais de Laetitia Sadier na faixa “I Worked Myself Up From Nothing”, com a ironia dando o tom: “Mesmo o mais baixo dos baixos pode ser um milionário / Com a atitude certa / E um pouco de trabalho duro”.

Embora a banda estivesse corroída internamente – Gane estava “dividido” entre o McCarthy e o Stereolab -, que havia criado junto com Laetitia, a percepção é de uma grande evolução musical do grupo, que consegue criar um bom e diversificado álbum. As letras mostram um maior refinamento de Eden em seu discurso, mantendo o tom politizado e adicionando doses de ironia e desesperança, mas mantendo a verve ácida no topo.

“Get a Knife Between your Teeth” e “You’ll Have to Put an End to Them” mostram facetas novas na música do McCarthy, a primeira é dançante sobe riffs com efeitos de wah-wah e elementos de Indie-Dance; a segunda, com vocais divididos com Laetitia (que participa em três faixas), apresenta um arranjo construído sobre uma base densa e camadas de elementos, inclusive sintetizadores densos; e a letra: “Este grupo não aceitará um não como resposta / Violência é a única linguagem que eles entendem / Eles não desistirão de nada sem lutar / Algumas migalhas da mesa é tudo que obteremos / Queremos uma greve, mas se você quiser mais / Bem, você terá / Você terá que acabar com eles”.

A capa de “Banking, Violence and the Inner Life Today” é inspirada na pintura “Die Arbeitsmänner” (Os Trabalhadores), de 1925, do pintor e escultor construtivista alemão Franz Wilhelm Seiwert. “Get A Knife Between Your Teeth” foi o único single do álbum. Após o lançamento, o grupo seguiu em turnê com a banda The Chills e fez seu último show na London School of Economics. A conclusão foi de que a banda havia alcançado seu ápice com seu último disco e que era a hora de parar.

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:: DISCOGRAFIA:

I Am a Vallet (1987)
The Enraged Will Inherit The Earth (1989)
Banking, Violence and the Inner Life Today (1990)


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2 COMENTÁRIOS

  1. Avatar
    Ângelo
    12/03/2021

    Matéria bem interessante e informativa – vivendo e conhecendo… Parabéns!

  2. Avatar
    12/03/2021

    McCarthy tem uma história bastante curiosa dentro do gênero devido ao posicionamento político exposto nas letras. Valeu pelo comentário!

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