CRÍTICA | Nem um Passo em Falso (No Sudden Move)


No Sudden Move (Nem Um Passo em Falso)
Foto | Divulgação

Desde seu primeiro longa, “Sexo, Mentiras e Videotape” (1989), Steven Soderbergh se envolveu na direção de produções com temáticas diversas. Também diversas tem sido a recepção aos filmes com a sua assinatura, da aclamação em “Traffic” (2000), “Erin Brockovich, uma Mulher de Talento” (2000) e “Onze Homens e um Segredo” (2001), a trabalhos que não foram bem recebidos como “Kafka” (1991) e “Solaris” (2002), só para citar alguns títulos dentro da sua extensa lista de longas, que tem também filmes subestimados e pouco comentados, algo “normal” dentro de uma carreira tão prolífica.

Com “Nem um Passo em Falso”, parceria com o canal HBO Max, ele homenageia aos filmes Noir da década de 40 e 50, adentrando mais uma vez no Neo Noir (uma variação do Noir com novos elementos), terreno em que ele já havia pisado com maior intensidade no intrigante “O Segredo de Berlim” (2006), totalmente rodado em preto-e-branco. A logomarca antiga da Warner na abertura e as imagens de época em P&B que surgem no início são dois elementos utilizados por Soderbergh que entregam essa ideia que ele pretende explorar em seu filme, que tem roteiro de Ed Solomon (Bill & Ted, As Panteras, Truque de Mestre) e se desenrola numa Detroit em processo intenso de mudanças e marcada pela expansão automobilística, tensões raciais e domínio de gangsteres.

Imagem de No Sudden Move (Nem Um Passo em Falso)

Nesse cenário, três desconhecidos: Don Cheadle (em ótima atuação), Benicio del Toro (no piloto automático) e Kieran Culkin, todos com o submundo da criminalidade em comum, são contratados por um homem misterioso (Brendan Fraser) para executarem um plano de teoricamente três horas: fazer refém a família de um executivo (David Harbour) para que ele retire do cofre da empresa em que trabalha um envelope contendo documentos. Como era de se esperar desde o início, o plano não corre como esperado e todos os envolvidos terão que arcar com as consequências provocadas pela ação desastrosa.

Para dar vida aos vários personagens que surgem durante a história (alguns com participações bem pontuais), Soderbergh tem em mãos um elenco recheado de nomes conhecidos, muitos inclusive já trabalharam outros de seus filmes. É pena que a função de todo o elenco seja de suporte para a trajetória dos protagonistas (Cheadle e del Toro), seja   para dar alguma pista sobre o passado deles ou ser responsável por suas ações. Isso não impede que Matt Damon e Noah Jupe tenham uma atuação bem destacada em relação a boa parte do elenco. Ainda que a opção narrativa deixe de lado o aprofundamento dos personagens, inclusive com pouco tempo de tela para as personagens femininas (Julia Fox e Amy Seimetz), que poderiam ter sido melhor exploradas, percebe-se que todos eles estão às voltas com alguma pendência, sentimental ou financeira, que é um dos pontos de intersecção entre eles.

Não espere grandes perseguições por centros urbanos, tiroteios extenuantes, cenas de luta ou investigação policial. O que há aqui são plot twists variados, com traições e emboscadas,  e uma exigência para que o espectador esteja o tempo todo atento aos diálogos, sob o risco de ficar perdido como num emaranhado de fios soltos.

Grande parte do filme acontece em locais fechados, dando a sensação de aprisionamento. A outra parte é na rua, com a sensação de desproteção dos protagonistas, que parecem lutar contra aquele lugar. Em muitas das cenas em locais abertos, Soderbergh se utiliza da lente grande angular, com as bordas da imagem levemente distorcidas e uma amplitude de cena bem maior; nas internas, o uso do plano inclinado e do close geram a ideia de desconforto, capturado nas expressões dos personagens. Temos então um drama com uma trama cheia de reviravoltas e que, apesar das quase duas horas de duração, não perde o ritmo. Destaque-se que que além de dirigir, Soderbergh também é responsável pela edição e Direção de fotografia, usando dois de seus pseudônimos:

Embora um thriller policial, o papel da Polícia na trama, representada no personagem de John Hamm (aqui no piloto automático), é no geral secundário, quase insignificante. Sua virada, mais uma das várias do filme, acontece no terceiro e último ato, tornando-se elemento fundamental para o fechamento.

Imagem de No Sudden Move (Nem Um Passo em Falso)

Ainda sobre os protagonistas, embora aparentemente possuam as mesmas motivações, elas buscam basicamente o mesmo fim, uma mudança de caminho. Divergem na forma, que está ligada inexoravelmente ao percurso de vida de cada um. Ambos buscam, a seu modo, uma saída. Estão juntos desde o início (fisicamente), mas separados até o último instante (em ações e caráter).

No fim, “Nem um Passo em Falso” fala muito de ganância. É ela que move as ações de quase (sublinhe-se esse “quase”) todos os personagens desde os primeiros atos, independente de qual posição ocupam nas diversas escalas sociais representadas no filme. E é ela que surge na sua completude após a última cena, quando enfim descobrimos o teor do que se encontrava no cofre. Apesar de ser o mote para tudo que se passa em tela, ele fica a maior parte do filme em um plano secundário, até ser finalmente revelado no final, quando todas as pontas se unem, e encontramos uma mensagem de cunho social.

O desfecho poderia até ser pessimista, mas é redentor, apesar de inverossímil para os dias atuais, mas lembremos que estamos em Detroit, em 1954.


No SUdden Move poster

FICHA TÉCNICA

Título Original | Ano: No Sudden Move | 2020
Gênero: Thriller, Policial, Neo Noir
País: EUA
Duração: 1:55h
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Ed Solomon
Elenco: Dnn Cheadle, Benicio Del Toro, David Harbour, Jon Hamm, Amy Seimetz, Brendan Fraser, Bill Duke, Julia Fox e outros
Data de Lançamento: 01 de julho de 2021
Censura: 14 anos
Avaliações: IMDBRotten Tomatoes

 


 

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