ENTREVISTA COM RENATO MALIZIA


Os anos finais da década de 80 viram surgir um punhado de bandas com uma sonoridade que resgatava tanto as guitarras barulhentas, feedbacks e microfonias eternizadas no clássico “Psychocandy”, do Jesus and Mary Chain, quanto as texturas etéreas e quase oníricas do Cocteau Twins e elementos de psicodelia feita nos anos 60.

O Semanário inglês New Musical Express, cunhou o termo “shoegaze” (admiradores de sapato), devido a postura assumida pelas bandas durante a apresentação, de cabeça baixa. Já o jornalista Steve Sutherland, do Melody Maker, chamou de “The Scene That Celebrates Itself” (A Cena que Celebra a Si Mesma), devido ao fato de ser comum as bandas irem aos shows umas das outras, inclusive usando camisa uma das outras. Nomes como My Bloody Valentine, Ride, Slowdive, Lush, Chapterhouse, Pale Saints, Moose, The House of Love, Catherine Wheel e outras estão encaixados em um ou outro termo, ou nos dois.

O que tem isso a ver com a entrevista de Renato Malizia? Muito!

Pra começar o seu blog e também selo, chama-se “The Blog That Celebrates Itself” (TBTCI), não só um trocadilho com o termo da Melody Maker, mas uma forma de deixar claras as intenções musicais. Embora a cena musical inglesa esteja restrita a uma determinada época, sonoridade e lugar, o TBTCI não se atem a fronteiras geográficas , “une passado e presente”, e se expande para outras vertentes musicais como pós-punk, darkwave, o dreampop, noise-rock e outras vertentes musicais próximas destas citadas.

Pesquisador incansável, Malizia se define como um “cara comum”. Mas não dá pra considerar comum um cara que já fez mais de duas mil e quinhentas entrevistas ao longo de quase dez anos de existência do seu blog. Não dá pra considerar comum um cara que ama tanto a música a ponto de administrar um blog e selo sem ganhar um tostão por isso, apenas pelo prazer de estar em contato, divulgar, conhecer os artistas e sua música, seja ela do Brasil, da Argentina, das Filipinas, da Rússia, da China ou de qualquer lugar onde os bons sons possam estar. Renato Malizia é uma instituição musical e seu TBTCI, blog e selo, se confundem com sua pessoa.

Pra começar, quem é Renato Malizia?
R: Resumidamente, eu sou como diz a letra de “Blues From a Gun”, do Jesus and Mary Chain: “I´m Stone Dead Tripper Dying In A Fantasy”, ou algo similar…hahahhaahhahaha. Mas eu sou um cara comum, man, com uma família genial, amigos espetaculares, uma esposa perfeita e dois anjos em forma de cachorrinhos. Por enquanto é isso.

Alguma vez pensou m montar uma banda?
R: Affff! Sempre,! Até hoje. Cheguei a ter várias bandas, assim como todo e qualquer moleque que cresceu nos 80´s/90´s. Mas eu era muito irresponsável pra levar isso a sério.

Quais discos você considera fundamentais para a sua formação, aqueles que fizeram acender aquela luzinha enquanto você ouvia?
R: “Rocket to Russia”, dos Ramones, e “Mudança de Comportamento”, do Ira!, foram fundamentais para eu adentrar ao universo do rock. Logicamente que depois disso as coisas foram virando um buraco sem fundo. Quando eu era moleque obviamente que internet era coisa de filme, então para descobrir coisas, você tinha que obrigatoriamente ler, e eu lia, e lia compulsivamente, a ponto de decorar textos e resenhas, e lógico, ouvia programas de rádio. Pra essa galera nova, que talvez nem saiba o que é rádio, mas é possível sintonizar o dial do seu rádio do carro em alguma emissora, sabe? Enfim, eu consumia os programas de mestres eternos como Kid Vinil, José Roberto Mahr, Fábio Massari, e outros que me fizeram adentrar a um universo absurdamente mágico, o pós punk, a new wave e os desmembramentos posteriores como a C86, foram e são, sem dúvida, fonte inesgotável de pesquisas. Mas voltando a questão, houveram momentos cruciais pós “Rocket to Russia” e “Mudança de Comportamento”. O principal chama-se “Psychocandy”. A primeira vez que ouvi aquilo, foi um murro na minha cara. E, por sinal, quase tomei uma chinelada na cara da minha mãe, porque estava ouvindo bem alto o disco e quando começou a tríade pós “Just Like Honey”, “Living End”, “Taste The Floor” e “Hardest Walk”, meu amigo, minha mãe quase me decapitou. Daí coloquei fone e continuei a audição. E assim meu amor por Jesus nasceu e sou devoto dos mais fervorosos até hoje.

Mas, cara, tem tantos discos que destroçaram minha cabeça, “Sister”, do Sonic Youth, “Surfer Rosa” (Pixies), “Isn´t Anything” (My Bloody Valentine), “Crocodiles” do Echo. Enfim, a lista seria interminável.

Qual a diferença entre o Renato Malizia ouvinte, fã de música, e o que administra o TBTCI?
R: Basicamente nenhuma. O mesmo Renato que consome música é o mesmo que criou e toca o TBTCI. Eu não vou colocar no TBTCI nada, absolutamente nada, do que eu não goste. Não é um site feito pra ter likes ou grande publico. Eu não faço resenha, não sou jornalista, não tenho essa pretensão. O TBTCI é um meio de comunicação feito única e exclusivamente para as bandas falarem através das entrevistas. Obviamente que faço uma introdução do que será abordado, mas não é nada rebuscado, pelo contrário, é fruto do que eu sinto sobre a banda a ser entrevistada.

Poderia nos contar, de forma resumida, como surgiu o TBTCI?
R: O TBTCI surgiu basicamente para ser algo como um diário particular que sintetizaria o que eu estivesse ouvindo naquele momento. No inicio, em dezembro de 2008 era assim. Se você for buscar as primeiras publicações, elas não são entrevistas, são devaneios meus, feitos pra mim, nada mais. Todavia, depois que conheci o dono da gravadora Northern Star, desenvolvemos uma amizade por conta dos gostos musicais, e ele sugeriu que eu entrevistasse as bandas da gravadora dele, dentre elas uma das minhas prediletas atuais chamada 93MillionMilesFromTheSun, e ai, meu caro, tomei gosto e foi indo, uma atrás da outra. Até hoje, se não me engano, passei das 2500 [Entrevistas] no TBTCI, e não pretendo parar tão cedo.

Quem faz parte do TBTCI atualmente e como vocês dividem as tarefas?
R: Eu, apenas e tão somente eu, no que diz respeito ao blog. Em relação ao selo, meu fiel companheiro Dimitry Uziel é responsável por 90% da parte visual.

Mas é isso, não tem uma equipe, nem divisão, eu basicamente sou o office boy, o faxineiro e o dono. Simples assim.

Em que momento o blog expandiu para selo, e isso aconteceu de forma pensada?
R: Em meados de 2012, eu estava envolvido com casa noturna, organizando shows e me pareceu atraente convidar bandas das quais eu gostava para fazer algo, mas não sabia ao certo o que exatamente, e quem abraçou de cara a ideia foi o Robson Gomes, guitarrista do lendário The Concept, guitar band noventista paulistana, mas ele debutou com o TBTCI com seu projeto solo chamado Robsongs, foi basicamente isso. Tudo aconteceu em pouco meses. Três meses e já estávamos lançando os EP’s dele. Simultaneamente, no final daquele ano, além dos EP’s, eu organizei um projeto com sete volumes englobando mais de setenta bandas do mundo todo, dando assim o pontapé inicial as atividades do selo.

Quais bandas fazem hoje parte do cast do selo?
R: Robsongs, The US, Céus de Abril, The John Candy, The Dead Suns, Blackpool Astronomy (USA), Lur Lur(Portugal), estas são as bandas que lançaram seus últimos trabalhos em parceria com o TBTCI.

Financeiramente, o TBTCI selo consegue “se pagar” ou vocês tiram do bolso pra mantê-lo funcionando?
R: Cara, no TBTCI tudo é gratuito, ou seja, a resposta é: nos viramos.

Qual o critério para uma banda fazer parte de uma das coletâneas tributo do TBTCI?
R: Bom, primeiro eu tenho que gostar da banda, obvio; segundo, são bandas que já passaram pelas páginas do TBTCI.

Como funcionam os tributos que o TBTCI faz, vocês pedem autorização para as bandas donas das músicas, pagam algo para as bandas que participam?
R: Sempre vou atrás das bandas a serem reverenciadas. No inicio eu ficava mais constrangido, sabe. Mas hoje eu mostro o que já fizemos até agora, e cara, sempre, ou 99% das bandas acham os projetos geniais.

Como eu disse, tudo é gratuito, não existe venda ou monetização física dos tributos, ou seja, as bandas entram porque curtem o projeto.

O selo tem álbuns físicos lançados? E pegando carona nessa pergunta, o que acha de sites de streaming como Spotify e Deezer?
R: Tem sim. No início, fazíamos CD’s. Mas, pra ser bem sincero, eu perdi por completo o interesse neste formato. Explico. Na minha opinião, o CD se banalizou, principalmente no sentido independente de como é concebido. Veja você, se o brasileiro em sua grande maioria mal consome música, imagina você música física.

Brasileiro gosta de entrar vip no show, brasileiro gosta de ser espertalhão e ganhar de graça, por essas e outras que as bandas nascem e morrem, ou então não conseguem criar a todo momento. O publico deste pais é cancerígeno. Eu digo isso com tristeza, sabe? Na verdade tudo é um problema bem maior. Na minha opinião, a cena independente nacional também é bem mambembe, sempre foi e, infelizmente, pelo que vejo, vai continuar sendo toda vida.

A partir do momento que as coisas se profissionalizarem e a galera encarar como um negócio… porque, cara, ter uma gravadora e uma banda é um negócio, não me venham dizer que fazem só por amor a causa e o escambau que não cola, ao menos pra mim, todos temos contas e tudo mais, e pra viver de musica é necessário sim ser profissional, mas o ciclo interno brasileiro não propicia isso, enfim, formato físico no TBTCI não rola mais. Prefiro tudo digital e gratuito, e digo mais, lá fora é muito mais prestigiado do que aqui dentro, infelizmente.

Quanto a Spotify e similares, eu não uso, não tenho o menor interesse em ouvir playlists, e, ao menos pra mim, não é algo que me faça ir pesquisar. Já disse em outra entrevista que o Spotify pra mim é o câncer atual da música, pessoas não escutam mais um disco na integra, vão lá e montam suas playlists e consomem uma música, duas, sei lá! Não vejo nada de benéfico nestas plataformas, em termos de conhecimento ao menos é nulo.

Você já fez milhares de entrevistas com bandas, teve alguma que foi mais complicada de conseguir?
R: Demorei um ano pra entrevistar o Adam Franklin, do Swervedriver. Isso foi lá nos primórdios do TBTCI, ninguém tinha perfil no Facebook. Hoje todo mundo troca ideia com ele fácil, mas quando descolei a entrevista…cara, foram emails pra lá e pra cá… afinal o que era o TBTCI, um bloguezinho brasileiro indie?? E, porra, o Adam Franklin pra mim é uma lenda dos 90´s, então quando consegui foi tipo orgasmático.

Você é um cara que ouve muita coisa, mas sempre tem aquela banda que chama mais a atenção, poderia citar alguma ou algumas recentemente?
R: Na minha opinião, o A Place to Bury Strangers é a banda da década. Eles sintetizam o caos que vivemos, o lado sombrio, enfim, os tempos modernos. Mas eles nem são tão novos assim, mais de dez anos de estrada. Mas eu citaria de bandas novas o Echolust (post punk), Lacing (barulho noventista) e daqui acho que todos deveriam ouvir o Lava Divers sem parar.

Lidando com bandas espalhadas ao redor do mundo e também do cenário nacional, você consegue perceber diferenças nos métodos de trabalho no que diz respeito a gravação, divulgação, relacionamento com as mídias, etc?
R: Pois então, acho que os brasileiros deveriam focar o mercado gringo, sempre disse isso e vou repetir eternamente, pelo simples motivo de que lá fora a obra do artista é mais valorizada, porque se ficar nesse feudo chamado Brasil, desculpe, vai nascer, lutar e morrer.
Agora em termos de gravação, cara, o que é feito na Tailândia, na Nova Zelândia ou na Republica Dominicana tem a mesma qualidade do que é feito no eixo USA/UK.

Qual ou quais álbuns ou coletâneas você mais se orgulha de ter lançado?
R: Todas, cada projeto é sempre um desafio, sempre é, e eu sempre amo fazer.

Desde receber e-mail do Bowie dizendo “go ahead, spread the world, but with only unsigned bands…” ou o Sonic Youth postando na página oficial deles, ou ainda o Ride mandando newsletter falando sobre o tributo, o Wayne Coyne distribuindo corações coloridos no Instagram dele, tudo é prazeroso, cara, e o fundamental é que isso ajuda as bandas que participam a interagirem com outros que nem conheciam do mundo todo, gerando um circulo de auto ajuda, saca?

Como uma banda certa vez disse sobre o TBTCI: “O TBTCI une o passado ao presente”, acho que isso sintetiza o que eu faço.

Tem uma frase do Ian McCulloch, do Echo and the Bunnymen, em uma entrevista antiga, que é emblemática: “As pessoas não amam a música, elas apenas compram discos que estão nas paradas”, o que você acha?
R: Isso quando compravam discos, né? A grande maioria não faz isso, e ainda reclamam que não existe nada de novo, lamentável.

Já o William ou Jim Reid, do Jesus and Mary Chain afirmou que o disco mais sincero de uma banda é o primeiro, porque a banda ainda não teve contato com o music business. Qual sua opinião?
R: Pode ser que sim, pode ser que não, não sei dizer ao certo, é claro que eles estão falando de majors e do mercado grandão, mas existe o mundo independente que hoje voltou a ser mais independente talvez do que já foi no passado.

Obviamente que a sinceridade e ou ingenuidade de uma banda esta toda fincada no início, mas não dá pra aplicar isso por exemplo ao Velvet Underground. Ou o White Light, White Heat é menos sincero do que o primeiro? O que dizer então do “Unknown Pleasures” e do “Closer”? Enfim, é subjetivo.

Como você tem visto a volta aos palcos, e aos álbuns, de nomes como My Bloody Valentine, Slowdive, Ride, Lush (que já acabou de novo), dentre outros?
R: Primeiro que sou fã de todas essas bandas, então eu amei, e amarei mais ainda se eu puder vê-las ao vivo. O Slowdive já vi, o Lush não rola mais. Agora eu morreria pra ver o MBV, todos que me conhecem sabem disso.

Cara, minha opinião sobre retornos é assim, se os integrantes estão afim de resgatar aquilo que criaram seja pra ganhar uma grana, seja por diversão, seja pelos dois, vai agradar quem os aprecia, então é válido, e que se fodam os críticos.

Malizia, entre o lançamento do primeiro álbum e o mais recente, “Come On Feel The NoiZe, Vol. 2 – Americas´Attack”, o que mudou no TBTCI e na maneira como enxerga o cenário musical?
R: Talvez eu tenha percebido, ou melhor, eu me certifiquei que as pessoas não consomem música, fingem que consomem, mas isso é algo global, não somente com a música, aqui no Brasil. O mercado editorial vai de mal a pior, eu diria que a cultura vai mal, então eu sigo com o TBTCI, primeiramente pra mim, porque eu sou fã do TBTCI, sou mesmo, afinal sou fã das bandas que são homenageadas e sou fã das que participam. Então, quando eu planejo um projeto, eu penso se eu vou gostar muito, se a resposta for sim, eu sigo adiante e procuro pessoas que pensem de forma similar, é isso.

O TBTCI está no “lugar” que você imaginou quando começou?
R: Cara, eu nem imaginaria que eu iria entrevistar bandas, então, imagine você, em dezembro o TBTCI completará 10 anos, e o lugar que ele está é o lugar onde estou, feliz, realizado, conheci ídolos meus, novos amigos, pessoas geniais, pessoas péssimas também, infelizmente passaram mas já sumiram, e esta saga continuará desta forma, até quem sabe um dia, virar uma revista física, ou uma gravadora especializada nestes nichos sonoros que gosto, lançando edições em vinis, quem sabe? Existe limite pra algo?

Finalizando, qual pergunta você gostaria de responder mas que nunca lhe perguntaram?
R:Putz, não faço ideia… vou perguntar pra mim aqui e em outra oportunidade te respondo, beleza?

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ângelo Fernandes
    20/11/2018
    Responder

    Parabéns Luciano pela excelente entrevista (provavelmente a melhor do site até então)! Uma leitura que provoca prazer, saudosismo e muita identificação – trilhamos caminhos muito parecidos como consumidores e, principalmente, amantes da música.

    • Valeu, man. Obrigado pelas palavras, elas nos ajudam a buscar fazer o site cada vez melhor.

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