GANG GANG DANCE – Kazuashita (2018)


“Grupo novaiorquino lança novo álbum aprimorando a sonoridade eclética”

Em 2008 optei por não sair no recesso de Carnaval e fiquei em casa ouvindo alguns discos que havia encontrado pela internet, alguns sendo dicas preciosas de amigos. De muitos álbuns que escutei durante esses dias, um em especial me despertou bastante a atenção, ‘Saint Dymphna’ dos novaiorquinos do Gang Gang Dance. Estranho à primeira vista, como quase tudo que saía da irreverente cena musical do Brooklyn naquela época, aos poucos fui entendendo a sonoridade e as características da banda, sem medo de adentrar numa jornada um tanto quanto inusitada, porém inventiva. O disco acabou figurando na minha escolha dos melhores do ano sem nenhuma dúvida pendente. Em 2011 viria o novo trabalho, ‘Eye Contact’, sem o mesmo e surpreendente impacto, mas de forma alguma eliminando as probabilidades de uma banda criativa e que ainda poderia surpreender.

Os vocais de Liz Bougatsos comandam o grupo. A vocalista mostra sua versatilidade e em certos momentos pode fingir que é uma adolescente enérgica que acaba de montar sua banda (‘Too Much, Too Soon’) ou mesmo pode ser aquela cantora experiente com a candura precisa e necessária para levadas contagiantes (‘Lotus’). O instrumental é riquíssimo, em parte se preocupa com a percussão que muitas vezes busca ritmos tribais, contudo a banda monta texturas que acabam gerando catarse no ouvinte: sintetizadores se multiplicam, efeitos podem ser percebidos, vozes ao fundo, narrações, e mesmo dentro de um padrão bastante eletrônico, alguns elementos do pop-rock como guitarras dão as caras e funcionam em sincronia. ‘J-Tree’ é um bom exemplo para citar tudo o que foi descrito anteriormente, com destaque para o minuto final que fecha a canção de forma magnífica.

Num poder criativo e ousado, os americanos fundem gêneros, montam um caleidoscópio sonoro e trazem não só lembranças de grupos conterrâneos (executando o experimentalismo e o psicodelismo de Yeasayer e Animal Collective) como também referências a ícones que ajudaram a construir a história da música no mundo (Brian Eno e Kraftwerk).

Citando os alemães, a faixa ‘Kazuashita’ é algo que Florian Schneider e seus companheiros fariam na atualidade, com a adição de um vocal feminino. A canção é repleta de texturas e ganha mais destaque na segunda metade, expõe como o kraut-rock é inspiração constante para a geração mais nova de artistas. As vinhetas presentes no álbum como ‘(Infirma Terrae)’ funcionam perfeitamente, e, mesmo carregadas de um clima sombrio, servem para preparar o ouvinte do que virá adiante. Os novaiorquinos extrapolam as barreiras de alguns gêneros. ‘Young Boy (Marika in Amerika)’ pega uma levada meio balearic, porém cheia de percussões tribais junto a guitarras e sintetizadores que nos oferecem o (feliz) trabalho de escutar diversas vezes para compreender tudo. ‘Snake Dub’, como o próprio título sugere’, é um dub incorpado e dançante, apresentando uma atmosfera que pende para a latinidade.

Detalhe importante é que a banda retornou depois de 7 anos. Não perde a postura, ganha maturidade, se mostra ainda mais ligada com a universalidade da música, de tudo o que a arte abraça, seja o país que é feita, seja o gênero em que se encaixa. Dançante sem cair na eletrônica descerebrada, flertando com a world beat e com o melhor que Nova Iorque produziu nos últimos anos, tudo reverenciando vários ícones da música sem copiá-los descaradamente. Que tal fazer parte da dança?

:: NOTA: 9,0

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:: FAIXAS:
01 – (Infirma Terrae)
02 – J-Tree
03 – Lotus
04 – (Birth Canal )
05 – Kazuashita
06 – Young Boy (Marika in Amerika)
07 – Snake Dub
08 – Too Much, Too Soon
09 – (Novae Terrae)
10 – Salve On The Sorrow

 

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:: Ouça abaixo ‘Lotus’:

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