Linda Martini fala sobre o álbum ‘Errôr’, Pandemia e mais


Foto da banda Linda Martini, 2022
Foto | Ana Viotti

Tudo que fazemos é na busca do acerto, mas sempre passível ao erro. Inclusive nesse processo de erros e acertos que as ciências trabalham, aprendem, evoluem. Essa diferença entre o que se busca e o que se alcança é um antagonismo que caminha inevitavelmente de mãos dadas. Entender e aceitar os erros como parte do processo permite o crescimento. Na imobilidade ou na passividade é onde se esconde quem teme o erro. Enquanto muitos buscam apenas os acertos, o grupo Linda Martini aceita o erro como parte do processo. Eles até já comentaram que a própria banda é fruto de um erro

É entendendo e abraçando o erro como algo muitas vezes inevitável e até mesmo inexorável que o grupo nomeia o seu sexto álbum de Errôr. O próprio lançamento do novo trabalho é marcado por uma sucessão de “erros”, seja na programação das gravações, seja na própria data de lançamento do disco, adiado por causa da pandemia. E a Pandemia é um tema que surge em várias das letras de Pedro Geraldes: “Depois de um ano com as notícias a bombardearem-nos diariamente, e não tendo mais nada a passar-se nas nossas vidas, seria difícil fugir ao tema”.

Não só a Pandemia e seus efeitos (físicos ou psicológicos) estão presentes em Errôr, o recrudescimento do extremismo e do negacionismo surgem em faixas como “E Não Sobrou Ninguém” e “Objeções à Firmeza do Olhar”: “Eu teimoso, quem teimou, eu teimoso / Eu teimoso, quem teimou, eu teimoso nunca / Entrei armado até aos dentes / Do lado certo da razão / Mas se a terra é plana porque não se entorna o mar?”. Ainda que afirmem não quererem ser a voz de ninguém, mas apenas a sua própria. Mas é que diante de todo o contexto que se apresentou nos últimos dois anos, são temas dos quais não tinham como se esquivar: “Este disco funcionou como uma esponja de todos os assuntos dos quais não pudemos fugir desde 2020”.

Ao mesmo tempo, Errôr, que assim como seu antecessor teve a produção de Santi Garcia, vem marcado por uma estética que prioriza o preto e branco, seja na fotografia dos videoclipes, no títulos e nas próprias letras e também na capa do disco, criação da baixista Claudia Guerreiro: “uma mancha que escorre, um borrão, algo que também pode ser visto como um erro”.

Próximo do lançamento do novo álbum, a banda se viu às voltas com a saída do guitarrista Pedro Geraldes num momento em que se preparavam para a retomada dos shows, tornando-se assim um trio: Andre Henriques (Voz e Guitarra), Cláudia Guerreiro (baixo e backing), Hélio Morais (bateria), com Rui Carvalho AKA Filho da Mãe assumindo a segunda guitarra durante os shows.


Vocês acabaram de lançar “Errôr”, um álbum duplo, o que poderiam contar sobre o processo de gravação e se tudo que foi produzido estará no disco.
R: O processo de gravação foi rápido, o processo de composição é que foi mais demorado. Começamos a compor para este disco em 2019 e no início de 2020 fizemos uma residência onde fechamos o instrumental de quase todas as músicas, com coisas que já tínhamos e outras que apareceram ali. Apenas a “Horário de verão” surgiu depois, na nossa sala de ensaio. Entretanto rebentou a pandemia e, claro, os planos de gravação e edição foram sendo consecutivamente adiados, até que conseguimos gravar em janeiro de 2021 nos estúdios Namouche, tendo o nosso amigo Sandro Garcia vindo até Portugal para se encarregar da produção. Foram cerca de 10 dias em estúdio, com muita liberdade e espaço para experimentar soluções novas e encaixar todas as letras que o André escreveu até à data da gravação.

Em dois dos singles apresentados “Taxonomia” e “Horário de Verão” o tema da pandemia é abordado, como foi pra vocês lidarem com a situação enquanto banda e individualmente?
R: Individualmente não há de ter sido diferente do que para o resto dos comuns mortais, uns com mais, outros com menos dificuldades. Para a banda implicou ficarmos sem concertos (o que individualmente significa falta de trabalho) e adiamentos sucessivos dos planos que tínhamos. Os ensaios ficaram parados e quando voltámos foi quando o André voltou a pegar nas letras, já contaminadas pela nova conjectura.

E de que forma todo o contexto pandêmico está refletido no álbum?
R: Depois de um ano com as notícias a bombardearem-nos diariamente, e não tendo mais nada a passar-se nas nossas vidas, seria difícil fugir ao
tema. Todo o isolamento a que esta situação nos obrigou, numa altura em que tudo se tornou extremo, em que as questões da saúde mental e as diferenças sociais se tornaram tão evidentes, levou-nos naturalmente às questões que abordamos. Não o costumamos fazer de forma tão direta,
mas neste disco pareceu-nos incontornável.

A letra de “E Não Sobrou Ninguém” é inspirada num poema de Martin Niemoller e toca em assuntos como preconceito e discriminação, algo que recrudesceu em escala global nos últimos anos. Pode-se afirmar que haverá esse Zeitgeist em ‘Errôr’?
O título da música, bem como parte da letra, são, de facto, inspirados nesse poema, tornando-se depois num exercício sobre os assuntos que referes. Sem dúvida que esse sentimento está presente no disco. Como referimos anteriormente, tudo se tornou extremo nestes últimos tempos, mas no que diz respeito às desigualdades, que são sempre acentuadas em alturas de crise, o mundo já estava no caminho de retrocesso, com os, cada vez mais, surgimentos de partidos de extrema direita e todos os extremismos que o seu posicionamento implica. Este disco funcionou como uma esponja de todos os assuntos dos quais não pudemos fugir desde 2020.

Poderiam contar sobre as influências presentes em ‘Errôr’, musicais ou não?
R: Sabíamos que queríamos um disco mais escuro. Mais lento, mais repetitivo. Mais pesado. Pensámos em Nick Cave, Protomartyr, Daughters, Queens of the Stone Age, o Hélio Pinha desde início a referência de bateria de Peixe: Avião. Claro que muitas outras referências vão surgindo, não intencionais, mas que têm sempre que ver com a nossa bagagem musical.

Por exemplo, a referência ao Brasil é recorrente nos nossos discos. Desta vez foi no “Oba Oba”.

Esteticamente vocês tem utilizado a fotografia em preto e branco seja nos vídeos ou nas fotos recentes. O que poderiam contar a respeito dessa escolha?
R: Uma das coisas que definimos logo no início, mesmo antes de ter músicas fechadas, é que queríamos um ambiente escuro. A começar por nós, vestidos de preto. Isso acabou por definir o caminho estético dos vídeos e de tudo o resto. A capa é um desenho da Cláudia, também a preto e branco, uma mancha que escorre, um borrão, algo que também pode ser visto como um erro. Dessa capa acabámos por definir a nossa imagem de palco, tudo a preto e branco, com um vídeo no fundo com uma mancha galopante que nunca para de escorrer até ao final do concerto. Como se quer que também seja a música.

Vocês estão com alguns shows agendados e houve a saída do Pedro Geraldes, como essa mudança impacta nos shows e na banda de forma geral?
R: Qualquer ruptura numa relação tem impacto na vida de todos os envolvidos, mas as relações são assim e a única hipótese é seguir com a vida. Tínhamos um disco para pôr cá fora e muita vontade de o tocar, e é isso que estamos a fazer. Tivemos que pôr uma outra pessoa a tocar conosco, porque o disco e as nossas outras músicas assim o exigem, por agora. Quem está a tocar conosco é da família, o Rui Carvalho, também conhecido
como Filho da Mãe. Tivemos duas semanas de ensaios exaustivos com ele e os concertos estão a correr muito bem. O Rui vem ocupar o espaço de
uma segunda guitarra, não necessariamente igual ao que foi gravado. É um espaço musical que precisa de ser preenchido e ele está a fazê-lo da
melhor maneira. Estamos muito felizes com os concertos, com a reação do público e com a possibilidade de podermos voltar a tocar ao vivo.

No próximo ano vocês completam vinte anos de banda. Já pararam pra fazer essa reflexão? Pretendem fazer algo em comemoração?
R: Desde 2006 que temos a ideia de fazer um disco chamado “20 anos, 20 canções”. Quem sabe se será para o ano! Hahaha!

Na canção “Febril” há um sample de “Tanto Mar”, de Chico Buarque. Vocês são fãs da música de Chico? 
R: Claro que somos fãs do Chico! Como não ser?…

Em uma entrevista de 2020, vocês falaram da interessante partilha da língua entre Portugal e Brasil e afirmaram a vontade de tocar aqui. O que sabem sobre os fãs brasileiros de Linda Martini e se já foram convidados ou sondados para shows no país? O que falta para acontecer?
R: Não sabemos muito, mas de vez em quando vão aparecendo alguns com muita vontade de nos ver no Brasil. Claro que isso nos deixa entusiasmados! Mas até hoje, infelizmente, não aconteceu… Falta algum promotor Brasileiro que se encante conosco e que nos queira levai aí. A nós não nos falta vontade!

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