Em quinto álbum, Big Thief se credencia a melhor banda de Indie Rock da atualidade


Foto da banda Big Thief

Adrianne Lenker é a cantora, compositora, guitarrista e, de certa forma, a alma do grupo americano Big Thief, que desde 2016 lançou cinco álbuns extraordinários que os credenciam ao título de banda mais consistente e inovadora do Indie Rock dos últimos tempos.

Lenker tem voz infantil e personalidade forte, e fica difícil tirar os olhos dela quando a banda se apresenta. Emotiva e temperamental como suas canções, Lenker transparece júbilo e aflição quase na mesma medida durante a execução ao vivo de suas músicas, e nunca se sabe qual vai ser o setlist (eles sempre tocam algumas canções que ainda estão na fase de composição) e se a cantora retornará ou não para o bis – ela inclusive divulgou um vídeo para os fãs em 2019 nas redes sociais em que explica que por vezes não se sente bem para retornar ao show e pede que compreendam essa situação.

Uma leitura mais atenta, no entanto, mostra que esse não é um grupo de uma pessoa só. As fotos de divulgação invariavelmente mostram o grupo abraçado, rindo, quase caindo uns em cima dos outros. Nos shows, Lenker, o baixista Max Oleartchik, o guitarrista Buck Meek (ex-namorado de Lenker) e o baterista James Krivchenia costumam tocar bem pertinho e trocar olhares e sorrisos, o que realça o clima de magia e comunhão coletiva que emana desse conjunto de amigos que encontraram suas almas gêmeas musicais e cultivam profundo respeito e admiração uns pelos outros.

Essa alquimia pode ser percebida em cada passo da escalada da banda rumo ao topo do universo indie. Masterpiece, de 2016, foi um debute poderoso que misturava peças acústicas delicadas (“Paul”) com petardos roqueiros vigorosos (“Real Love”). Em Capacity (2017), Lenker se mostrava uma letrista diferenciada, e nos brindava com memórias de infância (“Mythological Beauty”), pitadas de sonho (“Mary”) e abordagens tão assustadoras e vívidas da violência contra a mulher (“Pretty Things”, “Watering”) que faziam pensar se ela tinha passado efetivamente por uma experiência dessa natureza.

Em 2019, o grupo surpreendeu ao lançar dois discos “irmãos”. O primeiro deles, UFOF, revelava composições complexas e produção cheia de detalhes, inclinando-se para uma linha mais viajante e escapista. Two Hands, por sua vez, tem guitarras rascantes, menos polimento e a impressionante destruição sonora de “Not”, ponto alto da discografia do grupo.

A pandemia os pegou durante uma excursão de divulgação dos dois discos que vinha sendo muito bem-sucedida (e que contou com público de mais de 5.000 pessoas em Londres, recorde da carreira). Mesmo com a frustração decorrente da turnê interrompida (ou, talvez, por isso mesmo) Lenker – que deve compor até dormindo e imagino que sofra do mesmo “mal” da grande Kristin Hersch (líder dos Throwing Muses), que diz que as músicas brotam na sua mente de forma incontrolável – lançou um disco solo acústico em 2020 (ela já havia lançado um nos mesmos moldes em 2018).

A indefinição sobre o futuro pairava sobre a banda e eles não tinham o que fazer durante o período pandêmico. A proposta veio de Krivchenia: um ambicioso projeto de disco a ser gravado em quatro diferentes locações dos EUA e com quatro diferentes engenheiros de som, e em que o baterista assumiria, pela primeira vez, o papel de produtor.

E foi isso o que eles fizeram ao longo de parte de 2020 e 2021, o que gerou impressionantes 45 canções, das quais 20 (que somam mais de 80 minutos) foram incluídas no recém-lançado Dragon New Warm Mountain I Believe in You. O título estranho dá pistas para o que encontraremos: um conjunto de canções que não tem preocupação alguma com coerência estilística, que amplia a paleta de sons do grupo, e que, ainda assim, soa exatamente como o Big Thief que conhecemos, esplendoroso em sua magia imperfeita, melodias elípticas e intimismo peculiar.

No repertório, encontramos Country Music regada por violinos (“Red Moon” e “Spud Infinity”), solos de flauta (na ultrapop e pegajosa “No Reason”), flertes com o Trip-Hop (“Blurred View”) e com o Boogie Woogie (“Blue Lightning”). Há espaço também para as conhecidas faixas em que o modo Crazy Horse aparece, e a pedaleira de distorção trabalha bastante nas hipnóticas “Love Love Love” e “Flower of Blood”.

Lenker declarou que estava tentando superar o excesso de autojulgamento, e que buscou uma abordagem mais relaxada, não tentando tornar as músicas complexas demais como fazia no passado. Liricamente, ela se arrisca por terrenos inexplorados – toques de humor e sensualidade, por exemplo – e outros já conhecidos. como os jogos de palavras, os ambientes de sonho e fantasia (na belíssima faixa que batiza o registro) e as reflexões sobre a vida (“Wake Me Up to Drive”).

Dragon… revela-se como prova irrefutável de que o Big Thief domina com perfeição a arte da criação, e se o disco não tem tantos pontos altos como nos registros anteriores, por outro lado ele abre novos caminhos promissores e que não parecem entrar em conflito com a identidade artística cuidadosamente construída por eles ao longo dos anos. E se você quer ouvir algo que não soa como nada que está sendo feito no universo do Pop Rock, experimente a surpreendente e apaixonada “Little Things”, movida por um ritmo galopante e à beira do descontrole – e que proporciona uma aventura sonora peculiar. Me parece que a peça central do disco, no entanto, seja a acústica “Promise is a Pendulum”, em que Lenker praticamente desvela o seu modus operandi de enxergar o mundo, o que a caracteriza como uma poeta e observadora sensível, atenta e, sobretudo, irrequieta (“I Can Never Tell You Now What I Had Often Said Before”).

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A trajetória impecável do Big Thief e o compromisso da banda com a arte construída de forma autêntica, livre e passional – e também como instrumento para coroar amizades genuínas – deixa muitas lições para quem quer se iniciar no universo artístico. O céu é o limite para Lenker e seus amigos, e eles nos ensinam a curtir o trajeto e olhar mais para cima do que para baixo.


Capa de Dragon New Warm Mountain I Believe In You, do Big ThiefINFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 11/02/2022
GRAVADORA: 4AD
FAIXAS: 20
TEMPO: 80:13 minutos
PRODUTOR: James Krivchenia
CURIOSIDADES: Esse é o terceiro álbum da banda pela gravadora 4AD, os anteriores foram lançados pela Sadle Creek | O álbum U.F.O.F., de 2019,  foi indicado ao Grammy de Best Alternative Music | Ao longo das sessões de gravação do álbum, a banda gravou 45 faixas
DESTAQUES: “Little Things”, “Flower of Blood” e “Promise is a Pendulum”
PARA FÃS DE: Cowboy Junkies, Angel Olsen, Jenny Lewis

 


O ÁLBUM NA ÍNTEGRA:


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