10 PERGUNTAS PARA OUSEL


Foto da banda goiana Ousel para entrevista

Apesar de Goiânia ter ganhado a alcunha de “capital do sertanejo”, da mesma forma que Salvador ganhou a de “capital do axé”, há na cidade uma cena que foge desse caminho “trágico” e de onde um grande número de boas e novas bandas tem surgido constantemente: Brvnks, Boogarins, Carne Doce, Acrílico, Cambriana, são nomes recentes, alguns nem tanto, que saíram de lá; num passado não tão distante, Violins.

Ousel é mais uma que vem se juntar para ratificar essa efervescência que parece existir na cena alternativa local.

Revelando influências que passam pelas camadas de guitarras recheadas de Delay-Reverb-Fuzz do Shoegaze e Dream-Pop com as explosões guitarrísticas do Post-Rock, vocais que transitam pelo etéreo, e um apurado senso melódico que quase se aproxima do pop, o grupo, formado em 2016, lançou há pouco, de forma independente, seu homônimo álbum de estreia, onde mostram preocupação com aspectos de produção, da arte gráfica e, claro, com a música, trazendo um conjunto de boas ideias em forma de oito belas canções.

A surpresa com o trabalho do grupo nos levou a buscar adentrar seu universo, que na entrevista fala sobre origens, significado do nome, gravação, composição, posicionamentos e mais.


01. Como surgiu a banda, quem está na formação atual e de onde veio o nome Ousel?

R: A banda iniciou suas atividades durante as férias de dezembro (2015) e janeiro (2016). Eu (Renato) e o outro guitarrista (João Paulo) fazíamos o curso de Economia na (UFG) e já havíamos tido um projeto musical com alguns amigos que acabou não tendo êxito como acontece com a maioria das bandas em estágio germinal. Para manter nosso lado artístico em atividade, decidimos continuar compondo, mesmo que de forma despretensiosa. O foco, a princípio, era apenas um projeto instrumental, mas o João teve a ideia de buscarmos uma vocalista, a preferência sempre foi o vocal feminino.

A banda passou por duas formações antes da que se encontra reunida atualmente. Hoje, nós somos um quinteto integrado por: Renato Fernandes (guitarra), João Paulo Guimarães (guitarra), Roberta Moro (vocal), Túlio Queiroz (baixo) e Jean Ramos (bateria).

O nome “Ousel” foi uma ideia que surgiu na primeira formação, ainda em 2016. A intenção era encontrar uma figura que representasse de forma materializada o som que a gente fazia naquela época. Por se tratar de um pássaro selvagem típico de regiões frias o melro (ousel) me parecia uma boa escolha. Além disso, era um nome curto e relativamente desconhecido, o que nos agradou mais ainda. (RENATO)

02. Vocês gravaram o álbum de forma independente, o que poderiam falar sobre o processo de gravação e como chegaram a essa qualidade tão surpreendente, incluindo a sonoridade de bateria tão encorpada?

R: No final de 2017, já tínhamos a maior parte das músicas que estão nesse primeiro álbum. Pensávamos em algumas estratégias para viabilizarmos nosso primeiro material, fosse algum tratamento lo-fi ou até mesmo algo mais trabalhado. Ao mesmo tempo, sabíamos que, considerando a quantidade de efeitos utilizados nos instrumentos e toda a dimensão etérea do nosso som, o trabalho de mixagem e masterização seria um desafio para nós. Eu (Túlio) então sugeri que tentássemos o suporte da Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Goiânia em 2018. Assim, poderíamos custear uma produção com profissionais experientes e equipamentos de alta qualidade. Como eu já trabalhava com audiovisual há um tempo, e possuía certa experiência com esses tipos de certames, o Renato e o João toparam a ideia e dividimos algumas tarefas para que tudo aquilo que fosse necessário estivesse concluído. Felizmente, fomos aprovados!

No final de 2018 com o recurso já captado demos início aos preparativos de pré-produção do disco no Estúdio Resistência, em Goiânia. O nosso produtor, Lucas Rezende, imergiu nas nossas referências para que pudéssemos afinar as expectativas e seguirmos com a execução do projeto no primeiro semestre de 2019 que passou pelas etapas de pré-produção, produção e pós-produção. Sobre a gravação da bateria, como o Jean (baterista) estava gravando outro disco na época o Lucas sugeriu que convidássemos um baterista experiente para a gravação, no caso o Luan Rampazzo, baterista da Branda e também do projeto solo do Beto Cupertino. Ele se saiu muito bem, foram necessários poucos ensaios para que tirasse, desenvolvesse e gravasse as músicas.

Assim, eu atribuo o segredo da qualidade do resultado final, sobretudo, no excelente trabalho que o Estúdio Resistência nos ofereceu em todas as etapas mencionadas, desde a pré-produção com o Lucas até o processo de mixagem e masterização com o excelente Francisco Arnozan, também produtor. Foi um período de muito aprendizado! (TÚLIO)

03. Quem é o responsável pelo trabalho de ilustração das capas dos singles e álbum?

R: O trabalho de ilustração é todo do Estevão Parreiras, artista visual que tem ganhado muito destaque aqui em Goiânia. Tem vários trabalhos em exposição e uma publicação que saiu esse ano, inclusive. Ele foi baixista da banda na segunda formação e participou do processo de composição de duas músicas, “Borderland”, e “Choices”. Ele conseguiu traduzir nosso som pro aspecto visual de um jeito muito único. O trabalho dele é espontâneo e muito expressivo, ao mesmo tempo em que é visualmente simples. Dialoga muito com quem vê e pra mim traz essa sensação de proximidade, justamente por ser algo mínimo, na textura do papel, que é tão comum e familiar.

A parte gráfica como a diagramação dos CD’s físicos, foi um trabalho conjunto entre o Estevão e o Maurício Mota, designer que participa ativamente da cena goiana. Ele já fez vários trabalhos pra Monstro Discos, um selo bem conhecido daqui. (ROBERTA)

04. Há na música de vocês dois lados, um que explora uma linha mais melódica, que até lembra The Sundays e The Cranberries, e outro que segue um caminho mais explosivo, algo típico do Post-Rock, são referências pra vocês?

R: Sim, com certeza são referências. A partir do momento em que inserimos na banda a figura de uma vocalista, já sabíamos que seria necessário buscar novas influências para desenvolver um projeto que fosse também focado na construção das melodias vocais, o que vejo como um dos grandes desafios. The Sundays e The Cranberries eram bandas que criavam melodias vocais com excelência assim com Elizabeth Fraser no Cocteau Twins e Steve Nicks na Fleetwood Mac, exemplos que também me vieram à cabeça. No processo de mixagem do álbum, houve sim uma preocupação para que o vocal soasse até mais destacado que o instrumental em boa parte das músicas, justamente para dar atenção às melodias.

O Post-Rock e o “Shoegazing” sempre foram influências. No início, eu (Renato) e o João ouvíamos muito bandas como Mogwai, Slowdive e até algumas mais pesadas como Alcest, por isso é natural que o arranjo de algumas músicas tenha caminhado para um final mais explosivo como em “Maya”, nossa primeira composição e que reflete bem esses dois lados. (RENATO)

05. Por que a opção de cantar em inglês e qual a importância das letras dentro do contexto da música da Ousel?

R: Acho que o inglês veio de um jeito muito natural nas composições. No final de 2017, quando entrei na banda, “Maya” já estava composta, com a letra em inglês. Então, foi algo que me influenciou inicialmente e acho que no final acabou sendo um fator pra continuar escrevendo em inglês. Quando conversamos sobre toda a intenção do projeto e eu comecei a escrever, (pela primeira vez inclusive) até tentei desenvolver algo em português, e foi difícil pra eu chegar a um resultado que ficasse realmente bom (risos). O português é uma língua muito rica e admiro muito quem consegue utilizá-la para composição, mas pra fazer as palavras soarem como eu queria, o inglês acabou sendo uma opção mais natural. Até por escutar muito do que vem de fora.

As letras são mais uma camada nas músicas que levam pra esse lado da reflexão. Em sua maioria, são letras bem pessoais e tratam de temas variados, que, no geral, sempre voltam pra esse aspecto contemplativo, e isso meio que “flutua” em cima das melodias.

Os vocais são todos voltados pra essa finalidade e intencionalmente posicionados pra dar destaque em certas frases, funcionando também como um recurso poético. As camadas de vozes no refrão de “Silent Mess”, no final de “Fade Out” e as que vão se sobrepondo em “Mistaken” são alguns exemplos. (ROBERTA)

06. Nos comentários a respeito da música de vocês, costuma-se citar um lado invernal, contemplativo, viajado, é algo que, no processo de criação, vocês buscam atingir de forma consciente?

R: Acredito que você esteja se referindo aos comentários dos singles e videoclipe que postamos no Youtube, correto?! Sim, posso dizer que atingimos de forma consciente. Desde que a banda foi formada nós sempre buscamos construir camadas sonoras com delays, reverbs e synths que pudessem ser misturadas de forma cautelosa com as distorções, buscando algo que soasse bonito, contemplativo de fato. Essa construção sonora etérea e atmosférica possui uma linha muito tênue entre o belo, como um som “embalado em uma nuvem” e algo que soe como uma típica “caixa de abelhas” (risos), o resultado pode ser desastroso. Nosso produtor entendeu bem as referências na mixagem, e felizmente saiu como esperado. (RENATO)

07. Cada vez mais tem surgido no Brasil bandas com vertentes sonoras diversas, voltada para públicos “específicos”, vocês tem essa percepção e ao que atribuem essa mudança?

R: Sim, temos essa percepção! Eu (Renato) por ser um dos mais velhos da banda, tenho acompanhado a cena musical nacional há mais tempo e com certeza essa percepção pode ser atribuída ao advento da internet e o número excessivo de aplicativos de música como o Spotify, por exemplo. Hoje o que manda são as playlists, quem tem um gosto muito específico pode permanecer dentro de determinado nicho e ouvir apenas o estilo de som que gosta, os algoritmos relacionam uma quantidade enorme de bandas similares e ai você se encaixa no lugar que se sentir melhor. Aí os estilos vão se ramificando e subdividindo-se em várias partes a partir de um eixo original que é o rock. Soft Rock, Vaporwave, Blackgaze e por aí vai! (risos). Não sei até que ponto fechar-se pra determinado estilo pode ser bom, mas é o que tem acontecido. (RENATO)

08. Goiânia tem surpreendido por apresentar novas e interessantes bandas alternativas, como anda a cena musical por aí?

R: Falando apenas pelas bandas, a cena tem gerado bons frutos em diversas vertentes. Temos a Desert Crows na linha do Stoner Rock, a Caffeine Lullabies que faz um som bem próximo ao Indie e Emo 90’s, a Høstil que já vai pra uma linha totalmente Darkwave a Se Bastião que faz boas letras em português e já vai pra um estilo mais Soft Rock. Uma cena que já foi representada por Violins, Black Drawing Chalks e Hang the Superstars não pode parar de fazer musica definitivamente! (risos).

Aqui algumas casas são bastante receptivas a projetos autorais e organizam shows semanalmente, o Shiva Alt Bar seja talvez o melhor exemplo. Sobre festivais, ainda nos deparamos com “espertalhões” que não cumprem com o combinado, mas isso me parece algo meio incontornável em início de carreira, a banda precisa de alguma forma pegar ritmo de palco e rodagem, então a opção é tocar! (JOÃO)

09. Como tem sido a rotina de shows? Vocês pensam em tocar ou excursionar fora do país?

R: Nós ainda não temos uma rotina de shows. Desde que concluímos as gravações ficamos temporariamente sem baterista por que o nosso atual (Jean Ramos) estava trabalhando em outro projeto de uma artista conhecida na cena alternativa da cidade, a Bruna Mendez. Foram apenas cinco apresentações, se não me engano. Todas com um baterista provisório.

Nossa intenção no momento é conseguir divulgar bem o nosso som, trabalhar para organizar uma apresentação realmente interessante e aí construir essa “rotina de shows” e nos tornarmos mais conhecidos primeiramente na cena local. Fazer turnês seja dentro ou fora do país sem dúvida é algo que nos interessa, é o que mantém uma banda viva. Assim que houver uma demanda podemos começar organizando shows por regiões, seria muito legal! Fora do Brasil existe um número interessante de seguidores da banda, principalmente depois que aparecemos com destaque na DKFM rádio da Califórnia, mas nada que indique uma turnê. (JOÃO)

10. Há em muitas pessoas um sentimento de angústia em relação ao momento político do país, com a cultura e a arte sendo sistematicamente esfaceladas. Entretanto, a arte em geral, muitas vezes, é usada como abrigo e como instrumento de combate, nesse cenário como a música da Ousel se insere?

R: A arte pode assumir distintos papéis. O importante, em nossa avaliação, é que ela alimente cada vez mais sua potência de questionar esses mesmos papeis que assume. Existe uma dimensão muito particular do pouco que entendemos sobre a “liberdade” que cerca essa “potência”. Recentemente tínhamos um secretário especial da cultura literalmente nazista no governo. E ele não estava interessado em simplesmente “acabar com a arte”, ele queria justamente determinar um tipo de arte. Está lá, dentro do discurso nazista que ele pregou e que foi transmitido em rede nacional. Uma arte extremamente restrita, que impossibilita o seu “ensimesmamento”, uma arte totalmente orientada para um objetivo, nesse caso, nazista (não teria outro adjetivo pior). E isso ele projetava para uma pretensa “arte brasileira”. Mais do que antes, produzir arte hoje, ignorando essas forças políticas, é, ao mesmo tempo, “militar”. Não se foge disso. Ou você coaduna, ou você se rebela.

Ao mesmo tempo, a Ousel não produz músicas que, diretamente, “enfrente” tudo isso que estamos passando. Mas, inevitavelmente, acreditamos pertencer a essa construção subjetiva que em todos os sentidos incomoda, e muito, essas “novas” idéias velhas. De forma indireta, nossas músicas dialogam com afetos muito ricos e extremamente necessários, sobretudo para essa ocasião, como a melancolia, para ficarmos em um exemplo. Saber lidar com esse turbilhão de emoções é, ao mesmo tempo, comunicar isso. E nosso trabalho pode, também, estar indo para essa direção. Não é algo que pensamos “vamos atingir as pessoas assim…” É muito mais no sentido de estarmos sintonizados com “o outro lado da força” (risos).

Daqui alguns anos, nosso momento político provavelmente vai estar mais compreensível… Algumas coisas ainda estão um tanto abertas… As respostas que explicam “como chegamos até aqui” ainda não estão suficientemente dadas. Mas saber de que lado se posicionar… Está mais claro do que nunca. (TÚLIO)


:: Mais sobre a banda: Facebook | Bandcamp


:: Ouça o álbum da banda na íntegra:


:: Assista ao videoclipe de “Silent Mess”:

 

Anteriores Charge do dia
Próximo Rock Sujo

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *