DOUTOR SONO (DOCTOR SLEEP, 2019)


Cena do filme Doutor Sono

Continuação de ‘O Iluminado’  surpreende por unir as visões distintas de Stephen King e Stanley Kubrick em um único projeto.

Não é segredo que o escritor Stephen King não aprovou a adaptação para os cinemas feita pelo genial diretor Stanley Kubrick, para um de seus melhores livros, O Iluminado.

Embora o filme de 1980 tenha sido um enorme sucesso de público e crítica e hoje seja considerado uma obra-prima do horror, King nunca se sentiu confortável com as alterações que o Kubrick fez em sua história.

Quem leu O Iluminado e viu o citado filme, entende perfeitamente as queixas tão justificáveis de King, pois muita coisa foi revista, alterada ou retirada do filme, principalmente no ato final.

Eis que em 2013, ignorando totalmente a versão cinematográfica de Kubrick, Stephen King lançou o livro Doutor Sono, dando continuidade a história de O Iluminado. E é essa adaptação homônima que chega agora aos cinemas.

Capitaneada pelo estiloso diretor Mike Falanagan, mais conhecido por dirigir a excelente série da Netflix, A Maldição da Residência Hill (2018-), esta adaptação consegue o que parecia impossível: dar continuidade tanto ao livro quanto ao filme O Iluminado, não só agradando em cheio ao Stephen King como também aos fãs da versão cinematográfica do saudoso Kubrick.

A história parte de onde O Iluminado parou, com o garoto Dan Torrance e sua mãe se reestabelecendo na cidade após os maus momentos que passaram no isolado hotel Overlook, portanto é importante, mas não imprescindível, que o público tenha essa bagagem.

Dan está mudo e em choque pelo enlouquecimento/possessão do pai, que foi interpretado inesquecivelmente pelo Jack Nicholson no filme de 1980, e continua sendo atormentado pelos fantasmas que encontrou no Hotel. Paralelo a isso, somos apresentados a uma gangue composta por uma espécie de “vampiros de alma” que se alimentam de pessoas “iluminadas”, rastreando, aliciando e matando crianças que possuem este dom a fim de preservarem sua imortalidade.

Este grupo é capitaneado pela Rose, numa interpretação hipnótica e sensual da Rebecca Ferguson, de Missão Impossível: Efeito Fallout (2018). Rebecca rouba o filme em todas as cenas nas quais aparece, conseguindo transmitir brilhantemente o encantamento, a ameaça e a imponência necessária para que sua personagem funcione.

No segundo ato, a história avança vários anos. A fim de sufocar sua “iluminação”, Dan se tornou um adulto viciado em cocaína e álcool, totalmente perdido e traumatizado, interpretado pelo ótimo Ewan McGregor. Ao buscar refúgio e recomeço em uma pequena cidade, acaba se aproximando de uma garotinha que possuiu o mesmo dom. Enquanto isso o grupo de sugadores de alma continua sua jornada sanguinária em busca dos cada vez mais raros “iluminados”, até que inevitavelmente os caminhos de ambos se cruzam.

O diretor não demonstra pressa alguma em contar a história. Ele utiliza um recurso muito inteligente e que poucos cineastas do gênero praticam hoje em dia: desenvolver bem as personagens. Afinal, quanto mais os conhecermos, maior é a probabilidade de realmente nos importarmos com o destino deles e é daí que surge o verdadeiro terror.

Outro ponto em que o filme acerta bastante é a forma como traduz em imagens criativas e tecnicamente irrepreensíveis, todo o espiritualismo envolvendo o desprendimento da alma durante o sono, num fenômeno mediúnico conhecido como desdobramento. A utilização da meditação como forma de atingir uma consciência extracorpórea também é abordada com ineditismo e rende uma das melhores sequências.

O filme só cai um pouco em seu terceiro ato, quando o diretor Mike Flanagan inexplicavelmente deixa de lado sua forte personalidade e decide emular Kubrik, apostando em uma sequência repleta de referências sonoras e com ambientações e enquadramentos iguais aos do clássico filme de 1980.

Felizmente o roteiro, escrito pelo próprio Flanagan, é esperto o suficiente para não se contentar apenas com a nostalgia e consegue reparar algumas distorções do filme de Kubrick ao mesmo tempo em que conclui a nova história, que embora lide com forças sobrenaturais, opta por uma abordagem sem exageros na resolução dos embates estabelecidos.

Doutor Sono é um filme diferenciado de terror psicológico, que ganha frescor e vitalidade sempre que se afasta da sombra de O Iluminado, porém a colcha de retalhos de tantas referências anteriores (dois livros e um filme) e o comprometimento apaixonado do diretor com essas três fontes, acaba influenciando numa variação irregular da tensão, resultando em momentos enervantes ao lado de outros bem tranquilos.

Entretanto, se analisado como obra individual, podemos afirmar que se trata de um dos melhores thrillers do ano, tendo como melhor característica o fato de realmente parecer a sequência natural dos icônicos livros e filme de King e Kubrick, respectivamente.

 

:: NOTA: 8,2


NOTA DOS REDATORES:
EDUARDO SALVALAIO: –
ISAAC LIMA: –
LUCIANO FERREIRA: –
MÉDIA: 8,2


:: LEIA TAMBÉM:

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting of Hill House, 2018)
IT – A COISA CAPÍTULO 2 (IT – CHAPTER 2, 2019)


 

:: FICHA TÉCNICA::

Gênero: Drama, Fantasia, Terror, Thriller
Duração: 2h 32 min
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan (baseado no livro de Stephen King)
Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kylieg Curran, Cliff Curtis e outros.
Data de Lançamento: 7 de Novembro de 2019
Censura: 16 anos
IMDB: DOUTOR SONO
ROTTEN TOMATOES: DOUTOR SONO

 

 


:: Assista ao trailer:

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