RUSSIAN DOLL (BONECA RUSSA, 2019)


Foto da série "Boneca Russa" (Russian Doll), da Netflix

“Russian Doll é uma viagem conduzida por loops temporais, e dialoga com a índole humana e a rotina da vida”

ALERTA: O TEXTO PODE CONTER ALGUNS POSSÍVEIS SPOILERS

Loop temporal é tema constante no cinema. Com essa temática, foram muitas as produções que fizeram sucesso, tome como exemplo ‘Feitiço do Tempo’ (1993), ‘Corra Lola, Corra’ (1999), ‘Donnie Darko’ (2001) e ‘Efeito Borboleta’ (2004). “Russian Doll” chega com essa temática, porém foge do clima de suspense/ação que muitas produções desse tipo costumam ter para ganhar uma dinâmica de comédia dramática, com muitas reflexões, focada na natureza humana e bastante influenciada por contos fantásticos da Literatura.

Uma das criadoras da produção, Natasha Lyonne, trabalhou no elenco da série de sucesso, “Orange Is The New Black”, o que pode ter servido como uma boa experiência para a atriz em sua criação. Em “Russian Doll” ela é Nadia, ganha uma peruca ruiva e um outro semblante (revelando um lado bem camaleônico dessa atriz).

Após sair de sua própria festa agitada de aniversário num apartamento no centro de Nova Iorque, Nadia acaba morrendo. O problema é que ela aparece subitamente no mesmo lugar onde tudo começou, no banheiro do apartamento. A partir daí, mortalidade não existe mais para ela e como toda produção com loop temporal, a personagem vai tentando se moldar ao novo contexto de vida e busca compreender o que de fato está acontecendo.

Nadia é a personagem que dá impulso à série, convence logo no primeiro episódio. Seus trejeitos, caras e bocas, respostas ao pé da letra, ironias, soluções rápidas e determinação é que seguram, inicialmente, o espectador.

Conforme vai morrendo e repetindo esse ciclo, a personagem vai se adaptando a sua nova ‘fase’ e, inclusive, uma das cenas mais fantásticas é quando ela se entope de cigarros, drogas e bebidas na festa por conta de que a morte nunca lhe poderia afetar. Por outro lado, às vezes prefere não morrer de forma óbvia pelo obstáculo que já a matou diversas vezes, seguindo um atalho mais apropriado para evitar isso.

Claro que Nadia começa a percorrer/refazer seus passos da noite de sua primeira morte, e é dessa forma que a série se mostra outro luxo, nos personagens que aos poucos dão as caras: o mendigo que precisava apenas de um pouco de atenção, o professor de literatura orgulhoso, machistas de plantão, ex-namorado, dono de mercearia e uma psicóloga um tanto quanto maluca (só para citar alguns). Cada um com sua importância na série e trazendo muito mais substância ao enredo e aos diálogos (até personagens que aparecem em apenas três minutos, como a vendedora da joalheria acabam rendendo cenas memoráveis). O cenário noturno de Nova Iorque, com sua iluminação e os reflexos nas ruas, realçam a trajetória de Nadia.

A trama ganha ainda mais perspectiva quando Nadia descobre que não é apenas ela que está passando por esse mistério. A procura então passa a ser outra, conhecer esse outra pessoa, sua vida e seus medos para então o desvendamento ser mais lúcido (mas ele não será e nem chegará fácil). Dessa forma, ela tenta se ajustar, busca entender melhor os fatos, seu passado, as pessoas que a cercam, sua própria psicologia. Quando então o cenário a sua volta passa a mudar a cada ciclo recomeçado, Nadia percebe que a solução precisa ser rápida e a carga dramática aumenta, sem soar piegas e redundante.

Aos poucos a série vai revelando sua proposta. No meio de mais uma trama com base no loop temporal, o roteiro também dialoga com o espectador sobre relacionamentos amorosos e familiares, sexualidade, a fragilidade da vida, amizade, espiritualidade, vida moderna, depressão e solidão.

Nenhum desses temas focalizados conflitam com o espectador ou o soterram com muitas informações de uma só vez. Ao contrário, inseridos dentro da ficcionalidade do loop temporal, esse temas, tão comuns na rotina da vida, deixam o espectador numa posição confortável, fazendo uma aproximação coesa e funcional. O rompimento de uma relação amorosa, o trabalho rotineiro que exige respostas, as pessoas que cruzam nossos caminhos, a noite solitária dentro de um apartamento? Quem não passou por isso?

Cheio de referências, o roteiro inteligente e ágil ganha força ao se valer bastante tanto da Literatura quanto do Cinema. Existem inúmeras referências que acrescentam os diálogos, e, por consequência, enriquecem o roteiro. Da literatura de William Faulkner até a citação do filme “Vidas em Jogo” (1999), com Michael Douglas, o espectador encontrará muitas citações de outras produções. Outro destaque fica por conta da trilha sonora. Discreta em alguns episódios, mas aparecendo em cenas importantes, ela é composta de nomes desconhecidos e de outros consagrados. Abrangendo vários gêneros, de eletrônica a rock, muita banda do passado ressurge (When In Rome e B-52’s) ao lado de outras que continuam fazendo sucesso (Gang Gang Dance e Slowdive). Escolha certeira e diversificada.

“Russian Doll” não é uma série perfeita, tem episódios que até deixa a desejar como um todo, entretanto é bem inspirada e tem poder criativo ao pegar um tema do cinema e ir além dele, extrapolar, expondo a personalidade humana e fazendo uma espécie de viagem onde não somente a personagem faz uma reflexão de sua vida, como o espectador, mero cúmplice, passa também a fazer.

:: NOTA: 8,0


NOTA DOS REDATORES:
Eduardo Juliano:
Isaac Lima:
Luciano Ferreira:

MÉDIA: 8,0


:: LEIA TAMBÉM DE EDUARDO SALVALAIO: PEAKY BLINDERS – SANGUE APOSTAS E NAVALHAS (PEAKY BLINDERS, 2013)



:: FICHA TÉCNICA:
Temáticas: Comédia dramática, loops temporais, crise existencial
Emissora: Netflix
Temporadas: 1 (a segunda temporada foi prometida para 2020)
Episódios totais: 8 ( 25 a 30 minutos)
Criadores da série: Natasha Lyonne, Amy Poehler, Leslye Headland
Produtores Executivos: Natasha Lyonne, Amy Poehler, Leslye Headland
Elenco: Natasha Lyonne, Greta Lee, Yul Vazquez, Elizabeth Ashley, Charlie Barnett
Censura: 16 anos
IMDB: Russian Doll


:: Assista ao trailer oficial da série:

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ângelo Fernandes
    Ângelo Fernandes
    22/03/2019
    Responder

    Resenha muito bacana que instiga o leitor a querer conferir a série com urgência. Na minha lista pra começar a assistir muito em breve.

  2. Avatar
    Eduardo Salvalaio
    01/04/2019
    Responder

    Agradecemos o seu comentário, Ângelo. Algum pequeno spoiler que dei no texto não estraga a audiência do espectador que ainda não viu, pelo contrário, realmente desperta a atenção. Uns 3 amigos meus foram atrás de ver a série e acabaram gostando, espero que o efeito seja o mesmo com você. Gosto quando faço essa divulgação e ela funciona. É o que o Urge! sempre busca fazer.

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