BRIGHT (Bright, 2017)


“Filme tenta abarcar vários gêneros e falha em todos”

Logo na abertura de “Bright”, através de uma série de mensagens em pichações diversas na cidade, somos informados sobre a situação atual em que se encontra o mundo: humanos, orcs, elfos e fadas convivem de forma não muito harmoniosa. A indicação é que, após uma diversidade de eventos ocorridos anos os problemas só fizeram crescer. Enquanto os orcs são uma raça marginalizada, os elfos são a elite, vivem na parte mais “bonita e organizada” da cidade e ocupam as melhores posições na sociedade. Transitando entre esses dois mundos antagônicos, os humanos, mostrados como meros coadjuvantes nesse cenário dominado por duas raças com poderes: elfos com a magia, orcs com a força bruta.

Quanto às fadas, o filme não se preocupa em explicar a situação delas. Por sinal, na única cena em que uma aparece, tentando roubar comida de passarinho, a mesma é esmagada com uma vassoura pelo policial Ward, personagem de Will Smith, numa cena não só desnecessária para o contexto do filme, como cruel, já que a fada é esmagada como se fosse uma barata, de forma violenta. E aí já vem o primeiro questionamento: a ideia do filme é discutir a busca de um convívio pacífico entre as raças ou mostrar como uma subjuga a outra? Essa é uma resposta que a história de Max Landis (Victor Frankenstein, Poder sem Limites) não responderá.

O filme dirigido por David Ayer (Esquadrão Suicida, Corações de Ferro, Tempos de Violência) acompanha a rotina conflituosa dos policiais Daryl Ward (Will Smith), humano, e o orc David Jakoby (Joel Edgerton), que só quer ser um bom policial, honrar o distintivo, numa Los Angeles caótica e violenta. Já Ward é o policial que tem suas sujeiras embaixo do tapete, mas que, nas suas próprias palavras “finge ser decente”, e não está muito satisfeito com o novo parceiro, por quase ter morrido e atribuir a ele o acontecido, algo que, posteriormente, mostrará que não tem sentido. E esse é outro arco da filme que é bastante simplório, conforme será mostrado em seu desfecho. Voltando ao orc Jakoby, a todo instante terá, não só sua honra, mas também sua capacidade questionada, seja por humanos, orcs ou elfos. Embora seja o personagem mais correto do filme, apesar de caricato.

A ideia do filme é até interessante, apesar de pouco original, já vimos algo parecido em “Alien Nation” (1988), ou mais recentemente no australiano “Distrito 9” (2009), de Neill Blomkamp, com resultados e discussões mais profundas sobre convivência com as diferenças. Ou, ainda, em “Inimigo Meu” (1985), ficção onde dois astronautas devem deixar as diferenças de lado para sobreviverem num planeta hostil. O filme de Ayer é raso nesse sentido, prefere focar na trama, que é bem confusa e cheia de falhas, e enfatizar as cenas de ação, recheada de tiros e explosões.

Sobra pouco ou nenhum espaço para suscitar questionamentos por qualquer dos personagens em relação à sua situação enquanto raça. Por vezes, a sensação é de uma visão bastante preconceituosa, bem exemplificada na cena em que o Jakoby fala: “Por que os orcs sempre são os bandidos?”, ao que o policial Rodriguez responde: “Nem vem, mexicano se dá mal desde o Álamo”, referindo-se a histórica batalha entre os EUA e México.

“Bright” pode ser classificado como um filme policial que mistura com ficção e ação, não sendo relevante em qualquer dessas categorias.

Mas que o enfoque acaba sendo mais para o lado policial com ação, e nesse quesito é um filme entre o mediano e o sofrível. Por mais que o personagem Edgerton tente transmitir através das expressões de seu personagem os seus conflitos interiores, o filme não dá tempo para isso, está mais preocupado em mostrar cenas de ação.

E a ação começa quando um grupo de elfos “renegados” começa uma busca para recuperar uma varinha mágica. A ideia é usar três varinhas para ressuscitar o Senhor da Trevas. Detalhe, no filme aparece apenas uma, essa que pertence a elfa Leilah (Noomi Rapace), e foi roubada por sua irmã Tikka (Lucy Fry), a quem os policiais protagonistas do filme irão proteger a todo custo. Isso porque, não só a dona, mas toda a cidade, quer se apropriar da varinha que dá poderes a quem a possuir, mas só quem for um “Bright” é que pode tocar nela com as mãos desnudas.

Em alguns momentos o filme lembra também “16 Quadras”, filme com Bruce Willis, onde ele tem que proteger uma testemunha que guarda informações importantes sobre um mafioso, indo de encontro até contra seus corruptos colegas de trabalho. A verdade é que “Bright” é uma colcha de retalhos, onde nada da trama parece ter originalidade, mas um apanhado de ideias retirados de outros filmes.

Produzido pelo Netflix com o intuito de ser uma produção grandiosa – custou cerca de noventa milhões de dólares -, “Bright” é aquele tipo de filme para assistir para passar o tempo(isso se não tiver nada melhor para fazer) sem se preocupar com as soluções fáceis ou apressadas do roteiro, ou em ver boas interpretações dos atores, ou com o roteiro confuso e batido, ou em encontrar diálogos surpreendentes. Abstraia tudo isso e um pouco mais, e divirta-se com as quase duas horas de duração.

NOTA: 3,0

:: FICHA TÉCNICA:

Gênero: Ficção, Ação, Policial
Duração: 1h 57min
Direção: David Ayer
Atores: Will Smith (Daryl Ward), Joel Edgerton (Nick Jakoby), Noomi Rapace (Leilah), Edgar Ramírez (Edgar Ramirez), Lucy Fry (Tikka ), e outros.
Roteiro: Max Landis
Produção: Netflix
Lançamento: 22 de dezembro de 2017
IMDB: Bright
 
 
 
 
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