THE NATIONAL – Sleep Well Beast (2017)


“Batidas eletrônicas e riffs distorcidos, The National buscando alternativas em seu sétimo álbum”

Você retorna à casa, são poucos degraus até chegar à porta. Entre as várias chaves reunidas no chaveiro, você sabe qual a que abre a porta sem precisar olhar, apenas tateando. Então a porta se abre você está de volta ao lar, após mais um dia de trabalho, de ruas entupidas de carros apressados, de caras conhecidas e desconhecidas que se sucediam freneticamente. Você está de volta ao lugar onde você se sente bem mesmo quando está mal, você está de volta ao seu mundo. Alguém estará lá?

Ninguém estará lá para um copo de gim ou para aquecer o frio. Há um piano de melodia simples e profunda e elementos discretos criando climas soturnos e uma voz gravemente aveludada que insiste em dizer que ninguém estará lá e que “despedidas duram apenas meia hora”. Estamos diante de “Nobody Else Will Be There”.

Consciente de ter encontrado seu caminho há duas escolhas: seguir adiante por um caminho conhecido ou seguir tateando pelo desconhecido sem certezas de onde chegará. O The National tem optado pela primeira opção e mesmo assim conseguido colocar mais encanto ao universo da música sem abrir mão de suas convicções, sejam elas musicais ou políticas. Enquanto muitos optam pelo silêncio, eles escancaram seu posicionamento sem rodeios. Seus fãs os compreendem, e eles são conscientes de seu papel e influência enquanto artistas.

Berninger pouco se intimida ao expor seu interior através das letras, seja relatando dilemas de relacionamento, ou momentos de fraqueza, ou mesmo buscando o entorpecimento com álcool ou outras substâncias, o que não o impede de colocar tudo isso e um pouco mais numa mesma letra. Exemplo disso é “Turtleneck”, a faixa mais garageira e suja do álbum, remetendo a Nick Cave em seus primeiros álbuns, segue o estilo mais narrativo do que cantado, guitarras furiosas e uma fina ironia ao questionar: “Este deve ser o gênio pelo qual nós aguardamos anos, oh não”.

“Sleep Well Beast” tem o orgânico e o eletrônico convivendo no mesmo espaço, mas sem paradoxos: riffs de guitarra em profusão – e alguns solos (algo inusitado na música do grupo) – e batidas eletrônicas em diversas faixas, convivem de forma harmoniosa neste sétimo álbum de Berninger e Cia., em detrimento do usual violão. A sonoridade está mais sisuda que o seu antecessor e os arranjos estão cheios de espaços, principalmente quando a base está fincada no piano, como em “Born to Beg” ou “Guilty Party”, que tem a mesma marcação de batida de “Sleep Well Beast”.

O que a besta citada no títlo do álbum tem a ver com isso tudo? “Sinto que estamos num período onde há uma tendência a apenas querer hibernar,quando as coisas estão estranhamente fodidas. É um escapismo tentar dormir com isso, mas a besta para mim não é uma coisa negativa: é o futuro”. Explica o vocalista. “A besta é como esperar que a juventude acorde. é uma coisa abstrata”. É a esperança de que as gerações futuras acordem e tentem consertar a merda que estamos fazendo neste momento. Poderia ser a faixa de abertura, mas a faixa título está lá no final do álbum. Sua construção relativamente simples é o encerramento que busca dar coesão.

“Sleep Well Beast” pende para o lado soturno na maioria dos momentos, e embora seja esse o lado que em muitas canções foram o ponto de forte atração da banda, aqui acaba criando a sensação de repetição, seja em relação a outros álbuns da banda ou até dentro do próprio. É um álbum longo, com quase uma hora de duração em doze faixas, tornando-se mais interessante justamente nas faixas de levada mais intensa: em “Day I Die”, com seu refrão marcante (No dia em que eu morrer, no dia em que eu morrer, onde nós estaremos?), no groove entrecortado por riffs de “The System Only Dreams In Total Darkness” (com questionamentos sobre um relacionamento) ou “Ill Still Destroy You”, que poderia ganhar mais adornos em seus minutos iniciais.

A bebida acaba junto com a música. Você gira a chave, a sai e fecha a porta. Sente-se um tanto embriagado, os sentidos aguçados. Há cheiro de terra molhada pela chuva, folhas de árvores úmidas e um vai e vem de guarda chuvas. A noite vai já em sua metade. Você caminha um pouco, pára e olha para trás. Sorri pelos bons momentos e segue adiante na esperança de revivê-los num futuro próximo.

NOTA: 7,4

FAIXAS:

01 Nobody Else Will Be There
02 Day I Die
03 Walk It Back
04 The System Only Dreams in Total Darkness
05 Born to Beg
06 Turtleneck
07 Empire Line
08 I’ll Still Destroy You
09 Guilty Party
10 Carin at the Liquor Store
11 Dark Side of the Gym
12 Sleep Well Beast

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