Eugenius, o projeto de Eugene Kelly que era Captain America


Foto da banda Eugenius

Falar do Eugenius é falar de Eugene Kelly, e falar de Kelly é falar de The Vaselines, o que nos leva a canções como “Molly’s Lips” e “Son of a Gun”, canções que ganharam notoriedade graças ao Nirvana. Nesse conjunto, Kelly é a interseção para tudo que foi citado.

Figura carimbada na cena musical de Glasgow nos anos 80, o guitarrista participou de um punhado de formações em sua cidade natal, mas foi com o The Vaselines, projeto com a também guitarrista e vocalista Frances McKee, que teve algum reconhecimento. O Vaselines viria a se tornar mais falado após as versões do Nirvana para duas de suas canções: “Molly’s Lips” e “Son of a Gun”, lançadas em Incesticide. Posteriormente outra faixa do grupo viria a ganhar uma releitura do Nirvana, “Jesus Wants Me For A Sunbeam”, no álbum Unplugged.

Após dois EP’s e um álbum, os Vaselines entrariam num congelador em 1990 (sairiam de lá em 2008), e Kelly surgiria com um novo projeto e de nome “polêmico” Captain America, um quarteto completado por Gordon Keen (guitarra), James Seenan (baixo) e Andy Bollen (bateria) . Após dois, EP’s tiveram que mudar de nome. Enquanto gravavam o seu álbum de estreia, foram obrigados pela Marvel a abandonar o nome do super-herói após um processo. Surgia o Eugenius, pseudônimo que Kelly costumava usar, e junto uma nova formação, com Raymond Boyle substituindo Seenan no baixo e Roy Lawrence assumindo as baquetas. A banda também foi processada e obrigada e modificar a capa do EP Flame On, por usar a logomarca da loja de departamentos C&A.

Em uma entrevista de 2012, o músico comentou sobre o embrolio envolvendo o nome da banda: “Eu só me lembro de ser um pesadelo! Tínhamos o disco pronto para ser lançado e foi parado para o lançamento americano. Foi um período muito horrível de lidar. Eu nunca fui processado, então foi bastante assustador”.

Oomalama (1992), o álbum de estreia, foi então gravado com o nome antigo, mas lançado com o nome novo. A capa de algumas versões do álbum traz um adesivo com trechos de resenhas feitas em revistas especializadas se referindo à banda pelo seu antigo nome e a frase “They were Captain America, now they’re Eugenius”. O que demonstra que o nome do super-herói já tinha colado, mas teve que descolar. Antes disso a banda já havia conseguido certa repercussão graças ao Nirvana que os havia convidado para participarem da turnê europeia e constantemente era elogiada por Kurt.

Foto de Kurt Cobain, Eugene Kelly e Norman Blake
Na foto: Kurt Cobain, Eugene Kelly e Norman Blake

Sediados no pequeno selo Paperhouse, o Eugenius havia lançado apenas dois EP’s antes de partirem para a gravação do álbum de estreia. O apadrinhamento de Kurt Cobain chamou a atenção da gravadora Atlantic Records, que resolveu assinar com a banda, lançando o álbum nos Estados Unidos.

Gravado no Chamber Studios, em Edimburgo, entre 91 e 92, Oomalama foi produzido por Jamie Watson e coproduzido pela banda, à época um quarteto, mas que em estúdio contou com vários outros músicos, incluindo o baterista Francis MacDonald, do Teenage Fanclub. O álbum foi lançado em setembro de 92 e atraiu atenção da mídia para seu Power-Pop de guitarras altas que mesclava melodias, distorções e microfonia, em par com a sonoridade perpetrada pelos compatriotas e contemporâneos do Teenage Fanclub, especialmente na fase noventista do grupo.

Para divulgação do álbum foram lançados os singles “Bed-In” e “Buttermilk”. O videoclipe da segunda chegou a rolar nos programas alternativos da MTV. Oomalama ganhou frases como “uma corrida pop estridente e cativante em algum lugar entre os Byrds e os Stooges”.

Em 93, o Eugenius viria a dividir turnê também com o Mudhoney, o que os levou a uma segunda turnê pelos Estados Unidos – a primeira havia sido ainda como Captain America em 1992, quando chegaram a tocar no CBGB e no Maxwell’s. No mesmo 92, a banda tocou no gigantesco Reading Festival (aquele que teve a nata da cena alternativa noventista, incluindo Nirvana) e fez uma sessão de rádio para a BBC no programa de Mark Goodier, que viria a ser lançada no EP Timeless Wireless (Aka It Ain’t Rocket Science, It’s Eugenius).

Em 1994 o Eugenius lançaria seu segundo e derradeiro álbum, Mary Queen of Scots. Produzido por Craig Leon, fica perceptível a mudança na sonoridade do grupo, que abranda o lado mais barulhento (principalmente o lado dos feedbacks e microfonias) para enfatizar mais as melodias mantendo a distorção e um lado que os aproxima da sonoridade de bandas como Gumball e o próprio Teenage Fanclub, além de momentos em que a psicodelia surge com intensidade, vide as faixas “Friendly High” e “Tongue Rock”. Para alguns, essa sonoridade mais voltada para o Power-Pop rende o melhor álbum do grupo, para outros, uma mudança que não agradou.

O álbum foi recebido com certa frieza e o resultado das vendas não agradou a Atlantic, que dispensou a banda. Mary Queen of Scots emplacou a faixa “Blue Above the Rooftops”, uma das melhores do disco, que traz ótimas composições de Kelly, como a ótima faixa título e seus riffs matadores ao melhor estilo Dinosaur Jr., além de um refrão grudento e melodioso. Embora não traga canções tão marcantes como o álbum de estreia, é um disco coeso e traz o DNA do grupo.

+++ Leia a crítica do álbum ‘Endless Arcade’, do Teenage Fanclub 

Antes do encerramento das atividades em 1998, lançariam o single Womb Boy Returns (Human Condition), em 1996. Anos mais tarde, Kelly afirmaria que a banda chegou a preparar material que seria para um terceiro álbum mas que nunca viu a luz do dia.

Olhando em retrospecto, há que se perguntar como o Eugenius não alcançou  um maior alcance e como segue até os dias atuais sendo uma banda tão pouco comentada.

ÁLBUNS:

:: Oomalama (1992, Atlantic Records)
:: Mary queen of Scots (1994, Atlantic Records)


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