RIDE – This is Not a Safe Place (Wichita, 2019)


Foto da banda Ride para resenha do álbum "This Is Not a Safe Place"

“Ride vai além da atualização dos vídeos para qualidade em HD”

Ride ficou vinte e um anos sem lançar novo material de estúdio, mas voltou com apetite: dois álbuns e um EP no espaço de quase dois anos. O mais importante é que conseguiram nesse retorno ainda soarem relevantes, evitando a armadilha da auto-imitação.

As ideias não muito bem desenvolvidas em algumas faixas de Weather Diaries (2017) foram equacionadas pelo maior cuidado com os arranjos. Os caminhos apontados tanto ali quanto no EP  de 2018 seguem direcionando a música do grupo para frente, mesmo quando ela tende em olhar para trás. A busca de diferentes timbres e efeitos de guitarras sinalizam isso, somam-se ao uso de elementos não muito usuais no estilo, que se convencionou chamar de Shoegaze, e do qual a banda é uma das precursoras, e por isso se sente livre para experimentar e expandir as linhas. A produção de Erol Alkan mostra-se melhor familiarizada com a musicalidade do grupo.

De facetas diversas, This is Not a Safe Place (disponível para ouvir no Bandcamp) – com influências declaradas pela banda do trabalho de Jean-Michel Basquiat – tem momentos de assustar aos mais puristas, acrescentando recursos novos ao universo da banda de Oxford. As batidas pesadas e o baixo distorcido que se alternam com climas de My Bloody Valentine, em R.I.D.E., faixa de abertura baseada num ritmo drum’n’bass, causam o mesmo estranhamento que o barulho garageiro de “Kill Switch”, composição do baterista Laurence “Loz” Colbert. Ao tempo que “Repetition” é um mergulho no lado mais pop da banda. São três das quatro primeiras faixas que introduzem o álbum de forma irregular, dentre elas está o fôlego para seguir adiante com a melodiosa “Future Love”, séria candidata a melhor do disco e que traz o frescor e todos outros ingredientes dos primeiros anos da banda.

Em seu segundo terço, o álbum entra nos eixos e engata, remetendo ao Ride dos melhores momentos de Carnival of Light (1994),  e direito àquelas belas harmonias vocais da dupla Gardener/Bell, com a roupagem do Ride para a década de 10 ou, ainda, lembrando trabalhos paralelos de seus integrantes.

Segue-se um passeio por momentos de Dream-Pop com camadas etéreas em “Eternal Recurrance”, que poderia entrar tranquila no álbum “Universal Road” (2015), parceria de Mark Gardener com Robin Guthrie, e a melancolia de “Clouds of Saint Marie”; a psicodelia dissonante com toques de Sonic Youth de “Fifteen Minutes”, uma meio irmã para “Charm Assault”, cantada por Bell; e momento do puro Ride de outrora na ótima “Jump Jet”.

Em “End Game”, outro momento inspirado, eles quase se deixam levar pelas cascatas de guitarras que construíram em Nowhere, dando certo ar de modernidade com o uso do vocal rapeado. Nesse entremeio, duas baladas semi-acústicas divididas entre as vozes de Gardener e Bell, que mantêm as influências absorvidas na convivência com o Oasis num nível quase imperceptível, além de “Shadows Behind The Sun”,  influência do tributo a Nick Drake, do qual Gardener participou.

Com os quase nove minutos da atmosférica “In This Room”, tempo suficiente para desenvolver todo o clima viajado que a canção exige, está finalizado o sexto álbum do Ride, que segue mostrando-se criativo na busca de atualizar um estilo do qual foram precursores e que encaixota quem fica preso ao paradigma. O Ride não está só atualizando a qualidade (de áudio e vídeo) de suas apresentações , mas oferecendo um passeio por um lugar seguro e agradável.

:: NOTA: 8,0


NOTA DOS REDATORES:

EDUARDO SALVALAIO: –
ISAAC LIMA: –
EDUARDO JULIANO: –
MÉDIA: 8,0


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Capa do álbum "This is Not a Safe Place", da banda Ride

:: FAIXAS:

01. R.I.D.E
02. Future Love
03. Repetition
04. Kill Switch
05. Clouds of Saint Marie
06. Eternal Recurrence
07. Fifteen Minutes
08. Jump Jet
09. Dial Up / 10. End Game
11. Shadows Behind the Sun
12. In This Room


:: Ouça o álbum na íntegra:

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2 COMENTÁRIOS

  1. Avatar
    Ângelo
    03/09/2019
    Responder

    O início do segundo parágrafo desta boa resenha (“As ideias não muito bem resolvidas de Weather Diaries (2017) foram equacionadas pelo maior cuidado com os arranjos”) resumiu de forma precisa este novo álbum do Ride, que também “briga” bonito por um lugar na lista dos 10 melhores álbuns internacionais deste ano. A banda surpreendeu – um verdadeiro feito!

    • Sim, um dos bons álbuns de 2019 a entrar na listinha de melhores ao final do ano. O começo dele é meio estranho, parece que a banda não vai engrenar, mas depois segue bem bonito. Ele poderiam ter distribuído as canções de uma outra forma, o resultado seria bem diferente do estranhamento das faixas iniciais. Obrigado pelas palavra, pela presença constante e apoio ao site.

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