IT, A COISA (It, 2017)


“Refilmagem de “It” consegue captar a essência do livro de Stephen King e consagra atuação de Bill Skarsgaard”

O que torna um filme um clássico ou o eleva ao status de filme Cult? São perguntas difíceis de serem respondidas. Muitos filmes de décadas passadas passaram por essa situação, com críticas comuns e presença de público idem. Algumas películas chegam a essa posição por uma história que poderia ser contada de forma diferente, com potencial para ir muito além do que ela se propôs; projeto muito grande em importância para diretores comuns? Nunca se saberá ao certo.

Pensando dessa forma, alguns filmes perdidos de tempos passados são levados às tão temíveis refilmagens ou remakes/reboots, muito por parte do viés lucrativo que nunca foi alcançado ou para tentar explorar o real potencial destes.

Após um período de 27 anos, chega as telas o reboot de uma dessas obras perdidas da década de 80. O filme ‘It, Uma Obra Prima do Medo’, foi transformado em ‘It, A Coisa’, nome mais adequado para proposta do livro do grande escritor de terror Stephen King.

A obra original, um calhamaço de mais de mil páginas, pode afastar muitos leitores pelo seu tamanho, mas, como grande parte desta, o terror apresentado nada mais é que uma metáfora dos medos que a maioria das pessoas estão sujeitas quando submetidas a situações de difícil compreensão. A partir deste ponto os demônios interiores se mostram piores do que os monstros que estes enfrentam.

Com o filme de 2017 não deixa de ser diferente. A história tem início nas férias escolares de 1988, em Derry, pacata cidadezinha do Maine. Bill, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly formam o ‘Clube dos Perdedores’ – jovens que não são populares e sofrem bullying na escola. Naquele verão, eles enfrentaram pela primeira vez a Coisa, um ser sobrenatural e maligno que deixou terríveis marcas de sangue em Derry. aprendendo o real sentido da amizade, do amor, da confiança e… do mais profundo e tenebroso medo.

Todos os personagens do “Clube dos Perdedores” têm seus demônios a serem exorcizados, e o confronto com o palhaço Pennywise os explora da forma mais assustadora possível, fazendo com que as crianças sintam medo, combustível que alimenta o perigoso palhaço. O filme aborda temas como abuso sexual, racismo, superproteção, bullying – que se apresenta de forma violenta -, e o próprio medo de palhaços, dramas comuns a essa fase da vida, todos aqui muito bem representados.

O filme do diretor Andrés Muschietti (diretor do terror ‘Mama’) apresenta cenas de perfeita interação entre seus personagens principais, num total de sete, com a possibilidade de uns despontarem mais que os outros.

Nesse aspecto, tem-se como alivio cômico os atores Finn Wolfhard e Jack Dylan Grazer, respectivamente Richie Tozier e Eddie Kaspbrak, mas a grata surpresa fica por conta da única garota do grupo, vivida intensamente por Sophia Lillis dando vida a Beverly Marsh, capaz de transmitir uma notável gama de sentimentos dentro de uma mesma cena, apenas com a força do olhar.

“Eu não sou real o suficiente para você? ”, pergunta em determinado momento o perverso Pennywise, que contenta-se na maioria das vezes em deixar seus alvos em pavor constante ao invés de matá-los. Por definição, poderia até ser considerado um terrorista. A exploração do medo e dos (futuros) traumas da garotada é o que dá mais significado à presença de Pennywise. Ele é “apenas” isso. O filme não se preocupa em explicar origem, motivos, nem qual o objetivo final do palhaço. O foco é a ameaça à amizade dos garotos na forma de um palhaço maligno – e aqui não importa o que ele é exatamente. É um personagem imprevisível, multifacetado, e muito bem interpretado por Bill Skarsgaard, numa combinação de sedução e loucura, em interpretação intensa e visceral, até nas cenas em que pouco aparece.

A fotografia é igualmente bela, contrastando os momentos quentes. O filme se desenvolve praticamente durante o dia, o ótimo design de produção não só acerta nas cores, mas também ao conceber ambientes claustrofóbicos, com tetos baixos, corredores estreitos e um ar de decadência angustiante. Por se tratar de um filme diurno, o diretor não se atém a sustos fáceis, criando as condições para que as cenas sejam mais assustadoras possíveis.

Comparações são inevitáveis com o grande sucesso de público e crítica da série ‘Stranger Things’, responsável pelo revival da chamada década perdida (anos 80), mas as obras de Stephen King são mais que uma referência para o popular seriado, ditando muitas referências a sua obra como em muitas das produções da década de 80. Logo não faz muito sentido os comentários que ‘It’ usa ‘Stranger Things’ como inspiração, sendo o fato maior por ser um período que traga muitas boas lembranças aos espectadores.

“It – A Coisa” é um filme que exige sacrifícios de personagens, de crenças no futuro, de idealizações sobre pais e instituições – todos falhos ou ausentes nesta história. O imaginário de que “qualquer um pode ser feliz caso se esforce de verdade” é brutalmente destruído pelas perspectivas cinzentas do roteiro. Os adultos já se perderam, e talvez não tenham solução. Cabe aos pré-adolescentes, que retornarão na sequência do filme, trazer alguma mudança estrutural ao cenário para não tornarem-se os adultos que não transmitem nenhuma segurança as suas crianças.

:: NOTA: 8,5

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:: Assista abaixo o trailer do filme:

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