WILD BEASTS – Two Dancers (2009)


Há álbuns que te põem pra baixo. Há álbuns que te põem pra cima. Há álbuns que te arrastam por um turbilhão de sentimentos, num passeio divertido e cheio de surpresas. Assim é “Two Dancers”, segundo álbum das “bestas selvagens”.

Depois de lançarem o surpreendente, estranho, teatral, barroco, inusitado “Limbo, Panto” (que entrou na lista de melhores de 2008) no ano passado e se mostrar uma banda promissora, consolidam-se em 2009 como uma das propostas mais interessantes surgidas nos últimos anos na Inglaterra.

A voz em falsete de Hayden Thorpe não é para qualquer ouvido, por isso a música do grupo parece transitar sempre nos opostos: ame ou odeie, pegue ou largue.

Herdeiro dos histrionismos que um certo Stephen Patrick costumava usar em algumas canções dos Smiths e com semelhanças com Antony Hegarty (Antony and The Johnsons) nos falsetes, Thorpe praticamente divide os vocais com o baixista Tom Flemming (que canta em quatro faixas).

Fleming tem a voz grave de barítono, já havia mostrado sua capacidade em “Devil’s Crayon”, uma das melhores canções do álbum anterior. Aqui a dobradinha que faz com Thorpe em “All the Kings Men”, uma das tops do disco, é memorável. É em sua voz também que o álbum assume tons mais sisudos nas faixas “Two Dancers (i)” e “Two Dancers (ii)”.

Fleming é um coadjuvante de luxo nos vocais. Mas o charme maior do Wild Beasts reside em seu vocalista cheio de peripécias. Como um maestro que dita o ritmo dos instrumentos, Thorpe conduz as canções com dramaticidade, uma dramaticidade mais contida agora, menos exarcebada que em “Limbo, Panto”. Para os fãs de primeiro momento das inflexões vocais do rapaz, esse lado mais contido de seu vocalista e acessível da banda pode ser encarado como uma mudança malquista. Mas, convenhamos, ao acrescentar um acento mais pop, “Two Lovers” mais ganhou do que perdeu, no fim das contas.

Pense em fragmentos. Assim é a música deles. Uma porção de fragmentos representados por cada um dos instrumentos: o baixo parece esquecido mas desempenha um papel fundamental ao fazer uma marcação que deixa as guitarras livres para costurarem as canções com riffs simples e esparsos, dedilhados, ou alguma melodia. Piano, teclados e percussão aparecem ocasionalmente. Mas é a bateria que tenta roubar a cena: alta, mixada de forma incomum e muitas vezes tribal e percussiva, é, novamente, um show à parte, “When I’m Sleepy” ou “The Fun Powder Plot” servem como confirmação.

Aliás, a produção e mixagem do álbum são soberbas, uma luva para as músicas do Wild Beasts. Dá uma burilada no som do grupo sem tirar o que lhe é característico. Outros momentos em que o trabalho de mixagem ressai é em “The Fun Powder Plot” e “We Still Got the Taste Dancin’ on Our Tongues”, onde as guitarras se revezam nos dois canais de som, efeito melhor perceptível com fones de ouvido. Apesar de uma produção caprichada, há alguns espaços vazios, mas somar partes dá nisso, o que não significa que o resultado seja incompleto.

Segundo o grupo, “Two Lovers” reflete bem o momento atual em que se encontram, já que todas as canções são recentes, foram compostas após o lançamento de “Limbo, Panto”, que foi uma espécie de produto final do trabalho que vinham desenvolvendo ao longo dos anos. Nessa nova fase, as guitarras estão mais acentuadas e mostram uma dinâmica e diversidade de timbres impressionante.

Enquanto “Limbo, Panto” tinha a ótima “Devil’s Crayon” com uma de seus momentos mais inspirados, “Two Lovers”, tem “All The Kings Men” como uma rival a altura. Apesar de “Hooting & Howling” estar também no mesmo quilate ou ainda a catarse suingada de “We Still Got the Taste Dancin’ on Our Tongues”.

Com um passeio tão agradável ao longo de dez canções, impossível não se render e pedir bis.

NOTA: 9,5

FAIXAS:
01. The Fun Powder PloT
02. Hooting & Howling
03. All the King’s Men
04. When I’m Sleepy
05. We Still Got the Taste Dancin’ on Our Tongues
06. Two Dancers (i)
07. Two Dancers (ii)
08. This Is Our Lot
09. Underbelly
10. Empty Nest

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=DwHoh2vNdiA]

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