The Sound, a banda que deveria ter sido gigante e fracassou


Foto da banda The Sound

Sempre me interessei pelos gênios fracassados. Por aqueles nunca reconhecidos, ou tardiamente descobertos. Há alguns anos mergulhei de cabeça em um desses mistérios, a banda britânica The Sound, que lançou na década de 1980 cinco LP´s de estúdio, um disco ao vivo e um EP, todos maravilhosos – e que quase ninguém conhece. Obtiveram algum sucesso na Holanda e Bélgica, mas em geral foram totalmente ignorados. Basta ouvir duas ou três músicas e ficar abismado com esse fracasso.

Com uma pegada Pós-Punk à la Joy Division, The Cure, Simple Minds e Echo and the Bunnymen, e liderada por um frontman super talentoso e conflituoso chamado Adrian Borland, as canções do The Sound são rapidamente assimiláveis e estavam totalmente em sintonia com o que as bandas acima citadas faziam. Só que não deu certo. E o líder Borland começou a apresentar transtornos psicológicos, que levaram ao fim da banda em 1987 e culminaram com o seu suicídio em 1999, jogando-se na frente de um trem na estação de metrô de Wimbledon, em Londres. Final mais Rock’n’Roll impossível, não é mesmo?

Um mini culto gira em torno de Borland e em muitas (quase todas, na verdade) das letras do grupo é nítida a angústia do cantor. Mesmo em canções aparentemente mais positivas, como “Winning”, que abre o segundo e melhor disco da banda (From the Lions Mouth) com um belo riff de teclado, existe uma aura melancólica e uma sensação de que o otimismo é mais uma vontade ou um apelo para ajuda do que uma realidade.

A trajetória musical de Borland e do baixista Graham Bailey começou em 1977 com a banda punk The Outsiders, que gravou dois discos (o primeiro deles de forma amadora na casa de Borland e com o pai dele na função de produtor) e já apresentava algumas das credenciais de Borland, como a voz marcante e o senso de urgência. O grupo terminou em 1979, e Borland engajou-se com vários projetos, incluindo um duo de música eletrônica com Bailey e uma banda que durou pouco chamada The Witch Trials, e que tinha Jello Biafra (Dead Kennedys) como vocalista.

Nesse mesmo período o The Sound foi formado, com Borland (nos vocais e guitarra), Bailey, o baterista Michael Dudley e a tecladista Belinda Marshall. As primeiras gravações do grupo (o EP Physical World e o LP Propaganda, não lançado na época) ainda seguiam a cartilha punk e apostavam numa abordagem crua.

Foto da banda The Sound, prmeira formação
(The Sound com a tecladista Belinda Marshall)

Jeopardy, de 1980, é uma estreia bombástica e que teve aclamação da imprensa britânica. “I Can´t Escape Myself” é um cartão de visitas que impressiona pela linha de baixo melódica, guitarras rascantes e, notadamente, pela letra atormentada. Em “Missiles”, Borland sai do característico modo introspectivo para atacar a indústria bélica e questionar “quem diabos fabricou esses mísseis?”. Não chega a ter a força de “Masters of War”, de Bob Dylan, mas também provoca grandes inquietações. “Heyday”, por sua vez, tinha grande potencial para hit, mas seu riff viciante e estilo Echo and the Bunnymen (banda companheira deles no selo Korova, da WEA) não causaram grande impressão no público.

Apesar das vendas nanicas, a Korova aumentou o orçamento para o próximo álbum, From the Lions Mouth, lançado em 1981. A troca de Belinda Marshall por Colvin “Max” Mayers nos teclados e a produção mais limpa dão um ar mais atmosférico ao registro, que impressiona pela consistência e pelos dons melódicos. Em “Sense of Purpose”, Borland escreve sobre a necessidade de se ter objetivos. “Silent Air” é magia pura, sua melodia perfeita embalando uma letra atormentada que fala sobre o poder do silêncio: “Você me mostrou aquele silêncio/Que assombra este mundo conturbado/Você me mostrou aquele silêncio/Que pode falar mais alto que palavras”. O solo de Borland nessa música é uma preciosidade que só grandes guitarristas conseguem esculpir.

A arte da capa é maravilhosa, e utiliza uma pintura intitulada “Daniel na Cova dos Leões”, do artista Briton Riviere, que apresenta, em cores fortes, Daniel encarando os leões ferozes. Imagino como deveria chamar a atenção de quem procurava por discos nas lojas da época. Mas From the Lions Mouth também teve pouca repercussão. Além das vendas baixas, alguns críticos viam o grupo como um sub-Joy Division. As letras excessivamente diretas, que falavam de tristeza e melancolia sem sutileza, eram um alvo freqüente.

A WEA tomou a decisão de fazer uma última aposta na banda, que foi promovida da Korova para o cast principal da gravadora. O investimento mais alto veio com uma cobrança típica de grandes empresas: um disco mais comercial e que tinha como referência o Duran Duran. O tiro saiu pela culatra, pois o grupo, em tom de desafio, concebeu All Fall Down (1982), um álbum difícil e hermético. É um grande disco, com faixas acessíveis e brilhantes como “Party of the Mind” e a romântica “Monument”, mas que acabou sendo massacrado pela crítica na época, e boicotado pela gravadora, que acabou cancelando o contrato com a banda. Olhando em retrospecto, a injustiça fica evidente. Faixas como a fantasmagórica “Glass and Smoke” e a claustrofóbica “All Fall Down”, por exemplo, são tão experimentais quanto “Happy Death Men”, dos Bunnymen, ou qualquer faixa de Closer, do Joy Division. E sem dever nada em termos de qualidade.

Livre do peso de uma grande gravadora, mas ainda sofrendo com crises de depressão, Borland demorou um pouco para recompor o grupo. O EP Shock of Daylight veio à tona em 1984, e suas seis músicas estão entre as melhores composições do artista. A envolvente “Longest Days” merecia estar no top 10 de grandes músicas da década de 1980. Levada por uma linha de baixo “estalado” e por um riff de guitarra com efeitos hipnóticos, a canção resume a dor incessante do cantor em meio a dias que, no turbilhão de aflição em que ele se encontra, parecem nunca ter fim (“Leve esses dias pra longe/ E me traga os dias curtos”). “Counting the Days” estabelece um estranho contraponto à música anterior, ao apresentar um Borland esperançoso por dias melhores. Musicalmente, o tom é leve e melancólico, realçado por um riff de teclado que poderia até mesmo estar numa música do Duran Duran ou de outras bandas de Synthpop.

Foto da banda The Sounds

Para quem imagina que a invisibilidade da banda tenha passado por uma postura que rejeitava sucesso ou mídia, cabe destacar que eles fizeram centenas de shows e participaram de programas de televisão de todo o tipo (especialmente na Europa). As apresentações eram invariavelmente impecáveis e a entrega de Borland e seus companheiros impressiona. Um bom exemplo disso está no registro ao vivo In the Hothouse, lançado em 1985.

A saúde mental de Borland começava a cobrar um preço maior e vários dos comportamentos descontrolados que ele narrava em suas músicas passaram a fazer parte do mundo real. O trabalho o mantinha de pé, e o The Sound ainda lançou duas pérolas: Heads & Hearts (1985), que se destaca pelo uso do saxofone em algumas faixas, e o canto de cisne Thunder Up (1987), uma despedida à altura dos melhores momentos da carreira, e, provavelmente, o álbum mais pop e palatável deles (confira “Acceleration Group” e “Iron Years” e me diga se estou exagerando).

Borland continuou compondo e gravando discos solo ou em grupo (ainda mais obscuros e desconhecidos que o próprio The Sound) na década de 1990, alternando esses momentos criativos com internações decorrentes de crises depressivas. Em 1999, deixou de tomar os medicamentos por acreditar que eles estavam afetando sua capacidade de compor, e essa provavelmente foi a gota d`água que o levou ao suicídio.

Na obra imaculada deixada pelo The Sound, o clima de desilusão é difícil para o ouvinte mais atento às letras, mas a beleza das melodias e a verdade desse conjunto de composições que poucos conheceram e admiraram constituem uma riqueza que merece ser garimpada. Para apreciar a criação de Borland e de outros gênios fracassados não basta ouvir, é preciso entender o contexto, a história de vida, a evolução dos traumas e pesadelos, os momentos eventuais de redenção e como isso se reflete no processo criativo.

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Borland e The sound estão numa imaculada galeria que inclui a melhor banda de Pop Rock do mundo pós-Beatles, Big Star, o cantor Folk Nick Drake, entre outros. A descoberta é sempre difícil, muitas vezes demorada, mas invariavelmente recompensadora. Na obra dos gênios fracassados fica ainda mais evidente o poder de conexão único e atemporal da arte, dom divino e que não é mensurável por número de fãs, bilheteria nos cinemas ou primeiros lugares nas paradas.


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2 COMENTÁRIOS

  1. Rocque Moraes
    02/04/2022

    Fantastica a rezenha sobre o The Sound, esclarecedora eu sabia muito pouco sobre, Valeu muito !

  2. 02/04/2022

    Obrigado, Rocque, pelas palavras generosas elas são o combustível para que o site siga em frente. O The Sound é daquelas bandas que quando a gente descobre se pergunta? Como essa banda não é tão comentada/conhecida inclusive por muitos fãs de Pós-Punk?

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