The Velvet Underground, de Todd Haynes, é registro abrangente


Foto da banda The Velvet Underground para critica do filme de Todd Haynes

“É útil ser o antagonista porque você define uma posição e define a oposição, criando algo com isso.
O fato de compreendermos onde estávamos e o quanto desdenhávamos tudo, funcionou”
(John Cale)

Categorizado como documentário, o filme The Velvet Underground (2021), do diretor Todd Haynes (Não Estou Lá, Velvet Goldmine), acompanha a trajetória da banda sessentista de vanguarda de mesmo nome e tem no seu elenco dois protagonistas e antagonistas: Lou Reed e John Cale. Reed, o guitarrista de Rock que sonha em ser estrela; Cale, o músico de vanguarda interessado em drone music e experimentações. É do encontro e choque dessas duas personalidades com visões musicais distintas, mas que se complementam, que brota a música totalmente original e única de uma das bandas mais subestimadas em seu tempo e incensadas por gerações posteriores. Entropia.

A abertura é inusitada, com uma apresentação de Cale em um programa de auditório (I’ve Got A Secret), em 1963, explicando sua apresentação de mais de 18 horas de duração tocando uma peça do compositor francês Erik Satie. A peça chama-se “Vexations”, e no topo da partitura o autor escreveu: “Para tocar este motivo 840 vezes em seguida, é aconselhável preparar-se de antemão, no mais profundo silêncio, através de sérias imobilidades”. Junto com o músico, um dos que estavam presentes na plateia e ficou até o final do concerto. A certa altura, o apresentador pergunta a Cale: “O que levaria um homem a dizer que deve tocá-la 840 vezes para estar completa?”. -Nem imagino, responde desajeitado o músico.

The Velvet Underground 2021, poster

É um dos poucos momentos engraçados do longa de duas horas. Um salto para a cena final: um vídeo recuperado com um diálogo entre um tenso Lou Reed e um entediado Andy Warhol, que olha um conjunto de fotos enquanto pergunta sobre por onde andam Moe Tucker e Jon Cale. Entra uma apresentação acústica no Bataclan, em Paris, em 1972, com apenas Lou empunhando sua guitarra numa versão bastante melancólica de “Heroin”.

Entre essas duas cenas antagônicas, a estória do Velvet como jamais vista. Contada através de uma rica quantidade de vídeos. Há um sem número de cenas de outros filmes sobre a banda como: The Velvet Undeground and Nico (1966) – primordialmente -, filmagem de um ensaio/jam cujas imagens seriam utilizadas em projeções nos shows; Velvet Underground – South Bank Show (1986) e  Velvet Underground – Live MCMXCIII. O documentário utiliza muito material dos filmes feitos por Andy Warhol, na época. Fotos, áudio de entrevistas antigas, depoimentos de pessoas que acompanharam a banda de perto e entrevistas com os remanescentes do VU, Moe Tucker e John Cale. São de Cale algumas das falas mais poderosas do filme: “Porque vão reclamar das canções por fazerem apologia do uso de drogas. Mas não são sobre drogas. São sobre pessoas cansadas ou insatisfeitas com a vida”.

A escolha dos entrevistados é um dos pontos chaves do filme de Haynes, que busca imprimir em seu trabalho não só uma narrativa diferenciada, mas também um formato menos lugar comum, fugindo do clássico expediente de entrevistar influenciados. Um eufórico Jonathan Richman (The Modern Lovers) é o único fã permitido, que conta como o VU praticamente mudou sua vida. Sua presença é explicada por ter convivido de perto com o grupo.

Além de contar a trajetória da banda desde a sua formação a partir do encontro de John Cale e Lou Reed, a entrada de Sterling Morrisson e, posteriormente, Moe Tucker, o filme busca contextualizar a banda em seu tempo, levando a uma imersão na cultura dos anos 60, tendo Nova Iorque como seu epicentro, através de imagens e vídeos variados, a maioria em preto e branco, apresentando uma efervescente Nova Iorque e toda uma gama de artistas de vanguarda: poetas, escritores, pintores, cineastas e músicos.

O VU acabou inserido nesse contexto pelo conjunto de sua obra: as letras transgressoras de Lou, que narra suas experiências pessoais com drogas, prostituição, homossexualismo, sadomasoquismo e outros temas sensíveis para a época; e a música experimental e também transgressora esculpida pelo grupo. Içado pelo apadrinhamento de Warhol e do cineasta Paul Morrissey, que viu na banda uma oportunidade de ganhar notoriedade e dinheiro.

Olhado do ponto de vista do tempo, esse é o registro mais abrangente sobre o VU. Todo o trabalho de pesquisa, reconstituição e diversificação de recursos narrativos utilizados por Haynes, dão uma dinâmica incrível ao filme ao longo dos primeiros e empolgantes 90 minutos,  todo ele utilizado para contar a gênese da banda, a ligação com Warhol e a Factory, a turbulenta entrada de Nico e, por fim, o lançamento de seu icônico primeiro álbum, mais conhecido como o álbum da banana”, criação de Andy Warhol, que também assina a produção do disco e é o responsável por manter a integridade musical do grupo no registro.

A sequência mostra de forma mais acelerada o processo de deterioração da banda, com Lou Reed assumindo uma posição de líder do grupo, dispensando Warhol do papel de empresário e, enciumado, obrigando seu antagonista, Cale, a deixar o grupo. Esse é um ponto marcante para o futuro da banda, com o início do declínio, apesar dos esforços do talentoso e irascível guitarrista. É também um ponto de inflexão no ritmo do filme, que perde sua vertiginosidade e avança de forma quase insípida para o seu final tristonho.

Se proposital ou não, esse descompasso entre as duas partes traz essa sensação de quebrada no ritmo, o que não diminui o impacto inicial provocado pelos primeiros minutos da obra de Heynes, que é admirável e faz levantar uma pergunta primordial: Por que levou tanto tempo para que fosse feito um trabalho dessa magnitude para uma banda tão influente?

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O filme tem uma delimitação, ele acompanha a banda enquanto alguns de seus principais membros originais (Lou, John, Moe e Morrisson) ainda estão nela, ou seja, até o álbum Loaded (1970), e o posterior abandono da banda por Lou Reed, em 1972. Em ritmo acelerado, surgem na tela os vários álbuns solos lançados pelo quarteto original, e também após o grupo voltar a se reunir em 1993, mais a inusitada parceria dos antagonistas no álbum Songs for Drella (1990). Dentro desse espaço definido, Squeeze, o álbum lançado em 1972 por Doug Yule (o guitarrista que entrou no lugar de Cale) usando o nome da banda, nem chega a ser mencionado. Faz sentido, já que não há sentido algum um Velvet sem qualquer dos velvets originais.

A demora foi longa, mas compensada com um registro a altura da importância do The Velvet Underground, banda errática, transgressora, vanguardista, única, original. Explicada pelo onipresente Danny Fields através do conceito da Física de entropia: “Só recorrendo à física pra descrever a banda no seu auge. A banda tinha entropia.”


O TRAILER DO FILME:

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