Série ‘A Sete Palmos’ e a morte mostrada de forma única


A Sete Palmos

A Morte é um tema presente no inconsciente coletivo de várias formas, inclusive pelo viés religioso ou de forma alguma.

Uma pergunta que sempre esteve presente entre os povos ao longo das gerações é o significado da morte, seja ela como rito de passagem, ou finitude da vida, do ciclo, ou simplesmente a aceitação da única verdade que é absoluta da natureza humana, pois se sabe que todo ser humano que nasce, pode fazer milhões de coisas ou simplesmente não fazer nada de sua vida, a única certeza dele é sua morte, podendo ser de forma dolorosa ou não!

Partindo do principio da morte como um ritual de passagem, sem se ater ao que vem depois (pelo menos na primeira temporada), é que revisitamos uma das séries de grande sucesso de público e crítica da década passada, e uma das precursoras em estabelecer um padrão altíssimo de qualidade nas produções para a televisão pela rede de TV HBO, e que, juntamente com outras produções de mesmo calibre, está disponível na plataforma HBO GO.

A Sete Palmos (Six Feet Under) tem como pano de fundo a muitas vezes disfuncional família Fisher, proprietária de uma funerária em Los Angeles que funciona no andar de baixo e subsolo. A Fisher & Sons Funeral Home é uma empresa familiar estável e razoavelmente próspera. A primeira temporada mergulha na vida dos Fishers, apresentando Ruth (Frances Conroy), a matriarca um pouco neurótica e estranhamente sexy, e os irmãos David (Michael C. Hall antes de Dexter), o irmão mais velho e mais descontraído Nate, e a irmã mais nova Claire (Lauren Ambrose).

Rachel Griffiths interpreta Brenda, a constantemente analítica namorada de Nate, cujo desejo pelo namorado floresce em um relacionamento fascinante e simbiótico. Jeremy Sisto é o seu irmão bipolar, Billy. Ainda no elenco tem Freddy Rodríguez como Federico (Rico) Diaz, funcionário da funerária e Mathew St. Patrick, como Keith Charles, policial e amante de David e bússola moral. A série é um melodrama a ser apreciado, tem a condução do showrunner Alan Ball, que em 1999 recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Beleza Americana”.

Já na cena de abertura, o patriarca Nathaniel Fisher (Richard Jenkins) morre de forma prematura numa colisão com um ônibus, no momento em que ia buscar o filho Nate para passar as festas de final de ano com a família, desencadeando uma série de eventos e emoções, obrigando a uma nova dinâmica familiar.

O espectro da mortalidade é a grande constante da série – cada episódio começa com os momentos finais de um futuro cliente da Fisher & Sons, então não espere um programa simplista mas uma série que bombardeia o espectador com vários socos no estômago, apresentando os dilemas pelos quais esta família e seus próximos passam, envolvendo numa teia de dramas pessoais em que é impossível ficar alheio as situações vivenciadas pelos personagens.

Há que se tirar o chapéu para Alan Ball, ele apresenta um programa coeso com personagens multidimensionais. Um exemplo disso, o personagem de Nate Fisher, por mais preguiçoso que seja, é o personagem mais humano apresentado na temporada. A forma como ele se dirige as pessoas que perderam seus familiares em momento algum soa com interesse financeiro, ele consegue mostrar empatia e sofrer a dor alheia,  o que o fez relutar em assumir os negócios da família. Foi o personagem que mais cresceu durante a primeira temporada.

Alan Ball aborda temas que eram e são tabus até hoje, e que a maioria das pessoas se recusa a falar sobre isso abertamente. Eles estão tão cercados pela morte o dia todo, todos os dias, que ficam sombrios em tudo o que fazem, morrendo um pouco por dentro. Em um certo diálogo um cliente dos Fishers comenta: “Eu já estive em muitas casas funerárias, mas esta é a mais deprimente”, que se percebe que os Fishers são uma família sombria, e que o seriado prefere dessa maneira.

Segundo entrevistas da época, Alan Ball comentou sobre como perder a irmã ainda jovem e ser cercado pela morte quando criança moldou a forma como ele enxergou A Sete Palmos.

Se as famílias tentam contornar o que não foi dito, o medo de um filho sair ou a revelação de um caso há muito abortado, a série trata de enfrentar nosso maior medo, mortalidade, de frente. As cenas de abertura em particular podem ser brutais e às vezes trágicas, fazendo com que ocasionalmente risadas estranhas sejam provocadas. A série também é sobre o quão realmente os corpos são nojentos. Localizar o drama em uma casa funerária mostra não só corpos sendo embalsamados, mas também pés decepados sendo roubados por atos de vingança.

Um dos destaques, se não o maior destaque da primeira temporada é o ator Michael C. Hall. Ele é o personagem que tem os maiores problemas emocionais da família: ressentido por desistir de seus sonhos, e por seguir uma carreira em que acabou sendo jogado, percebe-se que é um personagem a ponto de explodir, sua postura quase sempre rígida sem a mínima ou nenhuma leveza demonstra isso. Em tela, seu personagem rouba todas as cenas, sendo extremamente marcante e dificilmente esquecível.

Há muito o que admirar na série, incluindo performances de alto nível, direção artística e narrativa criativa que emprega várias técnicas, incluindo sequências de sonhos e comerciais de TV em forma de paródia. O melhor de tudo, porém, é a introspecção de Ball e o insight que ele fornece sobre a sociedade, a indústria funerária e as relações familiares. Há de se ressaltar que a série foi produzida no formato 4:3 (mais quadrado) o que pode parecer estranho para quem está acostumada com o formato 16:9, mais retangular.

A abertura marcante utiliza tons pasteis e bastante frios, numa combinação de imagens que são relacionadas ao tema: um cadáver sendo preparado para um funeral, flores murchando, mãos que se separam, tudo relacionado com a morte. Tudo é muito bem pensado, até o logo da serie que fecha a vinheta de abertura com uma árvore. A musica de abertura, a cargo de Thomas Newman, é belíssima. E houve o cuidado para que nem a música de abertura ou a trilha sonora soem fúnebre, pelo contrario, é como se quisesse alertar que apesar de toda a tristeza, a vida deve ser vivida.

Com um episódio de final de temporada belíssimo, que traz a ideia de que para se ter vida é necessário se ter morte, A Sete Palmos aborda uma poderosa exploração do que significa viver e morrer. Graças à natureza de seus negócios, a família Fisher olha a mortalidade nos olhos constantemente. Espetacularmente roteirizada e encenada, continua sendo um dos grandes triunfos da televisão moderna da era dourada, uma potente crônica de perda, pesar e perseverança. Embora envolto em uma escuridão que beija a desolação, A Sete Palmos é iluminada por seus personagens e pela determinação em fazer o que Nate Fisher cita como a mesma razão pela qual as pessoas têm que morrer: “tornar a vida importante”.

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FICHA TÉCNICA – 1ª TEMPORADA

Título Original: Six Feet Under
Gênero: Drama, Comédia
Episódios: 13
Duração: 58 a 60 minutos
Direção: Alan Ball, Daniel Attias, Rodrigo García, Jeremy Podeswa, Kathy Bates, Michael Cuesta e outros
Roteiro: Alan Ball
Elenco: Peter Krause, Michael C. Hall, Frances Conroy, Lauren Ambrose, Rachel Griffiths, Richard Jenkins, Freddy Rodriguez, Jeremy Sisto, Mathew St. Patrick e outros
Data de Lançamento: 03 de Junho de 2001 (HBO)
Censura: 18 anos
Avaliações: IMDBRotten Tomatoes

 


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