Ramones e a conturbada gravação de ‘End of the Century’ com Phil Spector


Foo dos Ramones para especial sobre 40 anos de End of the Century

No ano em que completa quatro décadas de seu lançamento, vamos falar um pouco sobre o processo de gravação e outras histórias relacionadas a End of Century, lançado em 04 de fevereiro de 1980.

Quando os Ramones iniciaram as gravações do que seria seu quinto álbum, mudanças significativas haviam acontecido. Uma delas era que, pela primeira vez, Tommy Ramone não participaria do processo de gravação do novo trabalho. Cansado e estressado com as turnês, Tommy abandonou as baquetas em 1978, cedendo o espaço para Marky, e passou a se concentrar no trabalho em estúdio. Road to Ruin (1978) foi produzido em parceria com Ed Stasium.

Até então os Ramones havia lançado quatro álbuns, todos com baixas vendagens, algo que seria corriqueiro na historia da banda. Sem conseguirem emplacar uma canção, o grupo resolveu ceder a Phil Spector, que já havia se oferecido para produzir a banda em outra ocasião. Spector era um produtor renomado, havia produzido artistas consagrados: The Ronettes, The Righteous Brothers, Beatles, John Lennon, George Harrison, e acenava com a promessa de fazer o grande álbum da carreira dos Ramones. Joey era fã da música de Spector, que havia ficado famoso por criar o estilo de gravação wall of sound, em que criava diversas camadas sonoras.

Em primeiro maio de 1979, no Gold Star Studio, em Los Angeles, praticamente um ano após as gravações de Road to Ruin, os Ramones e Phil Spector deram início ao que se tornaria a conturbada gravação de End of Century, motivo de estórias variadas, não só pelas canções que o álbum traz ou pela capa totalmente diferente do padrão Ramones, mas principalmente pelos desentendimentos entre a banda e Spector, em especial Johnny. Reza a lenda que em certa ocasião, durante uma festa em sua mansão, Spector teria obrigado a banda e convidados a permanecerem lá sob a mira de uma arma.

Capa do álbum End of the Century dos Ramones

Spector tinha seu próprio ritmo e métodos de trabalho. E era excessivamente perfeccionista. Em Commando – A Autobiografia de Johnny Ramone, o guitarrista dá um exemplo do tortuoso processo de gravação: “Depois de uns dias, cheguei ao limite. Ele me fez tocar o acorde de abertura de ‘Rock’in’Roll High School’ muitas e muitas vezes. Aquilo se estendeu por três ou quatro horas. Ele ouvia de novo, em seguida me pedia que tocasse o mesmo acorde outra vez. Batendo os pés e gritando: ‘Merda, caralho, porra! Merda, caralho, porra!’, sem parar. Não aguentei mais. Eu apenas disse: ‘estou indo embora’ e Phil disse: ‘Você não vai a lugar nenhum’. Eu disse: ‘O que você vai fazer, Phil, atirar em mim?’. Se ele tivesse atirado, àquela altura eu não teria dado a mínima. Só queria cair fora”. Durante as gravações, o engenheiro de som teve um enfarto.

Para uma ideia das excentricidades de Spector, o produtor falava para a banda que não sabia onde iriam gravar no dia seguinte, já que havia reservado três estúdios, solicitando que ligassem no dia seguinte para saberem o local: “Ele era dolorosamente lerdo…nos fazia pensar que mudaríamos de estúdio todos os dias, de modo que nunca sabíamos com antecedência aonde iríamos…todos os dias tínhamos de ligar para descobrir aonde ir, mas ele nunca trocou de lugar”, lembrou o guitarrista em sua autobiografia.

Além de lidar com as tensões de gravação com Spector, nessa mesma época houve o falecimento do pai de Johnny. Por outro lado, o guitarrista não gostava da grande aproximação que Spector demonstrava em relação a Joey, sempre o encorajando e chegando ao ponto de chamar a banda de Joey e os Ramones. Johnny até sugeriu que fizessem uma versão para uma canção de Spector, “(The Best Part of) Breakin Up”, mas Spector sugeriu “Baby I Love You” e levou uma orquestra para tocar. “Nenhum de nós tocou naquela música, nem Mark. Em vez dele, Phil decidiu usar um baterista de estúdio”, revelou Johnny, que considera a canção o pior momento da banda em todos os tempos.

End of Century não foi o estouro esperado. Custou cerca de duzentos mil dólares, um estrondo se comparado aos dez mil gastos com Rocket to Russia. Mas conseguiu se sair melhor que os álbuns anteriores dos Ramones e abriu o mercado europeu para o grupo. Dois singles foram escolhidos: “Rock’n’Roll Radio” e “Baby I Love You”, para desespero do guitarrista. Somado a tudo isso, apresentou uma capa “emblemática” na história da banda, sob um fundo vermelho, aparecem todos os membros da banda sem as tradicionais jaquetas de couro, mas com camisetas coloridas. Também foi o álbum que quebrou a sequencia que seguiam de lançar pelo menos um álbum por ano.Há quase um consenso entre os membros da banda que ‘End of Century’ foi responsável por desgastar as relações da banda. Para muitos fãs, é mais um clássico da banda novaiorquina.


:: RECOMENDADOS:
Commando – A Autobiografia de Johnny Ramone (Livro)
End of the Century: The Story of the Ramones (Documentário)


:: LEIA TAMBÉM:

ESPECIAIS: QUANDO ROBERT SMITH SE TORNOU UM BANSHEE
ESPECIAIS: THE SMITHS – A HISTÓRIA DAS TROY TATE SESSIONS


:: Ouça o álbum em versão remasterizada e com faixas bônus:

Anteriores EX – 2019 (2020)
Próximo TAME IMPALA - The Slow Rush (2020)

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *