A ENVIADA DO MAL (February / The Blackcoat’s Daughter, 2015)


Cena do filme de terror "A Enviada do Mal"

“Arrastado, minimalista, subestimado e com um final perturbador”

De antemão, percebemos que a sinopse da Netflix para “A Enviada do Mal” não ajuda: “Nas férias de inverno, duas alunas ficam em um internato só para garotas na companhia de uma presença terrível”. A tradução do título original “February” ou ” The Blackcoat’s Daughter”, tampouco.

As duas linhas de sinopse que tentam definir o filme trazem de imediato uma série de filmes com temática semelhante, com duas garotas isoladas sendo perseguidas por um psicopata ou por alguma força sobrenatural.

Ledo engano, o filme do diretor Oz Perkins, filho do famoso ator Anthony Perkins, busca (e consegue) fugir do lugar comum que se tornou boa parte dos filmes do gênero terror. Parte disso pode ser explicado por ser um filme da produtora A24.

O filme segue na maior parte do tempo pelo caminho do terror psicológico com com uma reviravolta já na parte final, e pode não agradar aos fãs convencionais do gênero terror, que buscam sustos fáceis, alívios cômicos para os momentos de tensão acentuada, jump-scares, trilha sonora exagerada, efeitos especiais, sangue em profusão ou monstros assustadores; artifícios usados no mais das vezes para maquiar a carência de outras qualidades.

Filmes de terror psicológico, como é o caso aqui, mais do que contar uma história e fazer com que o espectador se interesse por ela, exige um nível de imersão para que ela funcione. Por ser algo subjetivo (a imersão), e mais sugerir do que mostrar, filmes que seguem esse caminho tendem a serem menosprezados e até mesmo ridicularizados por parte do público, alguns caindo no esquecimento.

“Enviada do Mal” é um ótimo filme e deve ser visto e admirado pelos apreciadores do gênero que vivem à caça de boas ideias, caso dos recentes “A Bruxa” (2016) e “Hereditário” (2018), por exemplo

A historia se passa no colégio Bramford, um internato religioso para garotas. É chegado o mês de fevereiro e com ele as férias de inverno, quando os pais vão buscar as estudantes para passar o período em casa. Acontece que, por motivos não claramente explicados, os pais de Kat (Kiernan Shipka) e Rose (Lucy Boynton) não aparecem, fazendo com que as duas tenham que aguardar no internato. Para fazer-lhes companhia, ficarão duas funcionárias, as senhoras Prescott (Elana Krausz) e Drake (Heather Tod Mitchell).

Até esse momento, um dos cruciais para o segmento da história, o espectador vai sendo ambientado na atmosfera que permeará todo o filme: a sensação de desolação e isolamento, principalmente pela paisagem gélida da neve (algo que remete a “O Iluminado”); os diálogos misteriosos, com frases soltas, como na cena de abertura em que Kat pergunta a uma figura que parece ser seu pai se é possível reviver uma pessoa; as imagens cheias de simbolismos que pintam na tela como se fossem parte de um sonho ou lembranças; e o ambiente claustrofóbico representado pelo colégio, geralmente mostrado através de seus corredores ou de sua fachada.

Há uma terceira peça que surge nesse quebra-cabeça montado por Perkins, que também é responsável pelo roteiro, Joan (Emma Roberts). Ela está indo para Bramford, com indícios de que está fugindo de algum lugar, e encontra um casal traumatizado pela morte da filha e que está seguindo viagem para um local nas proximidades do colégio.

Essa segunda narrativa ou acontecimento paralelo, ao tempo que dá uma certa mudança de clima e andamento, bastante lento por sinal na primeira narrativa, que servirá também para “esclarecer” os acontecimentos do filme.

Entenda as aspas em esclarecer como um exagero, pois uma das coisas que o filme não faz questão é de esclarecer, deixando inúmeras lacunas para que o espectador as preencha. O uso de imagens jogadas na tela de forma rápida e aparentemente desconexa, contribui para isso, também os diálogos que parecem não fazer sentido. Outro detalhe importante é o uso recorrente da cor preta em diversos objetos e ocasiões.

Já fugindo do lugar comum, o roteiro trata de mostrar que Kat e Rose (principalmente) não estão preocupadas em fazer amizade, mas acabam se aproximando. A primeira é introvertida, vive num mundo recluso, tem visões assustadoras e parece sofrer de depressão, mantendo uma rotina de uso do telefone (que terá uma importância essencial à trama) à espera de um sinal dos pais; a segunda, apesar de extrovertida e desinibida, também está passando por um momento delicado, buscando resolver sua situação e pouco se importando em saber notícias dos pais, já que os aguarda num outro dia.

::SPOILER:: Com uma trilha sonora que varia entre o completo silêncio e uma música de tom gélido que se complementa com o barulho relacionado ao clima invernal, o filme vai como que atirando peças de um quebra-cabeças, desembocando, de forma até um tanto abrupta, num desfecho sangrento sob a sugestão de uma força maligna. Possível porque fica a dúvida de até que ponto as visões de Kat dessa presença maligna são reais ou fruto de uma mente perturbada, amplificada por uma série de acontecimentos consigo dentro e fora da escola. Algumas cenas são sugestivas de que trata-se de algo real, porém não conclusivas, a do vômito no momento da oração e a do exorcismo, em que ela pede para que a entidade não a abandone.::FIM DO SPOILER::

Significante que embora toda a ação transcorra durante a noite e gere uma ideia de que é nas sombras que algo vá acontecer com as personagens, é durante o dia que as cenas mais pesadas acontecem.

É também nos minutos finais que as histórias de Kat, Rose e Joan se chocam e choca o espectador, com um segundo desfecho ainda mais aterrador.

O que faz de “A Enviada do Mal” um filme acima da média, mesmo dentro de uma proposta minimalista (em seus diversos sentidos) e arrastada, são as escolhas acertadas, que vão desde o roteiro inteligente até a trilha sonora pontualmente ameaçadora, passando pela direção corretíssima, que tenta imprimir uma marca, além da ótima interpretação da dupla de atrizes, principalmente Kiernan Shipka, e nem um certo recurso, usado como forma de manter o mistério da trama, consegue diminuir a intensidade do filme, que deve ser visto mais de uma vez para melhor aprofundamento.

:: NOTA: 8,5


NOTA DOS REDATORES:
Eduardo Salvalaio: –
Eduardo Juliano: –
Isaac Lima: –

MÉDIA: 8,5


:: LEIA TAMBÉM:
ATERRORIZADOS (Aterrados, 2017)
HEREDITÁRIO (Hereditary, 2018)


Cartaz do filme de terror "A Enviada do Mal", de Oz Perkins

:: FICHA TÉCNICA:
Gênero: Mistério, Terror, Thriller
Duração: 1:34 min
Direção: Oz Perkins (Osgood Perkins)
Roteiro: Oz Perkins
Elenco: Emma Roberts, Kiernan Shipka, Lucy Boynton, James Remar, Lauren Holly, Greg Ellwand, Elana Krausz, Heather Tod Mitchell e outros
Data de lançamento: 16 de fevereiro de 2017 (USA)
Censura:
SITE OFICIAL: theblackcoatsdaughter-movie.com
IMDB: A Enviada do Mal

 

 


:: Assista abaixo ao trailer do filme:

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