Fables of the Reconstruction (R.E.M., 1985)


R.E.M._27.jpg

“Apesar de subestimado, um dos preferidos da casa”

Algum leitor atento que acompanha essa seção poderá reclamar que todos os discos aqui comentados são dos anos 80, e terá razão. Mas também não tenho culpa, 90% dos meus vinis foram lançados nessa década. Além disso, foi nessa década que descobri o rock’n’roll, os Smiths, o U2, o Sex Pistols (que também tinha em vinil), os Ramones, o Bauhaus, o Echo and The Bunnymen, a Legião Urbana, Plebe Rude, Camisa de Vênus, Picassos Falsos e outras tantas bandas que já passaram e passarão por aqui.

Nasci para a boa música na década de 80, não tinha/tenho como fugir disso.

Tal afirmação não implica em um “aprisionamento” à música dos anos 80, pelo contrário, pra mim música boa independe de época. Gosto de bandas das mais diversas décadas.

A época do surgimento de uma banda não é fator determinante para que goste ou não dela.

Mas reconheço que as bandas da década de 80 são mais marcantes pra mim. Foram a trilha sonora para diversos momentos marcantes da minha vida, momentos em que a música parecia ter “magia e mistério”, como diria Ian McCulloch, ou que a música parecia ser minha “amiga especial”, como diria Jim Morrison.

Na década de 80 trouxe para minha coleção o “Fables of the Reconstruction” do, então desconhecido pra mim, R.E.M. O “disco patinho feio do R.E.M.” que ninguém quis comprar, já que na prateleira da loja disputava lugar com os preferíveis “Life’s Rich and Pageant”, “Dead Letter Office” e “Document”.

Mas eu precisava conhecer essa banda, ter algo dessa banda. Restou-me o “Fables of the Reconstruction”, para muitos, um dos álbuns mais irregulares da banda de Athens.

Sendo sincero, de início não gostei da voz de Michael Stipe. Soava anasalada, estranha, irritante, embora gostasse das melodias, dos dedilhados cristalinos de guitarra, que me lembravam os de Johnny Marr. Conclusão rápida: a banda era boa, mas precisava me acostumar com a voz de Stipe.

E o disco?

Quer saber? Nunca achei o disco tão irregular assim. Sempre o vi como um disco de transição. A transição do R.E.M. das guitarras dedilhadas para o R.E.M. explorando outros efeitos, texturas, distorções, dinâmicas e outros elementos em seus arranjos. Nesse trajeto de mudança nem tudo são acertos, há algumas derrapadas, mas não acho que cheguem a comprometer o disco como um todo. Talvez pesem aí a mudança de produtor (Joe Boyd) e o fato de ter sido gravado em Londres.

A trinca de canções que o abre é perfeita, inesquecível, transportando-me para aquela época, quando aos domingos era comum irmos à casa de um amigo (o maior fã de Led Zeppelin que já conheci) que tinha o “Life’s Rich and Pageant” e o “Dead Letters Office” e adorava colocá-los para ouvirmos enquanto exaltava a beleza de “Begin the Begin”, “Superman” e “Cuyahoga”. Reconhecidamente grandes canções da banda. Mas lá no íntimo eu pensava: “Algum dia alguém descobrirá a beleza escondida do “Fables…”.

Sentia-me sozinho na minha “paixão” pelo meu subestimado disquinho. Todos falavam do “Document” e do “Life’s Rich and Pageant”. Todos sonhavam em conhecer o “Murmur”, que parece que nunca chegou a ser lançado por aqui nem em vinil nem em CD. E eu vibrava com: “Feeling Gravity’s Pull”, “Maps and Legends” e “Driver 8”.

Então, com “Fables…”, aos poucos, eu desencanei com a voz de Stipe e adicionei mais uma banda preferida à minha lista que já tinha The Smiths encabeçando a lista.

Se a trinca que abre o álbum é perfeita e inesquecível, tem também a soturna “Old Man Kersey” e a ótima “Green Grow Rushes”. Mas o hit do álbum, ou canção escolhida para ser a de trabalho, a contragosto da banda, se não me falha a memória, foi “Can’t Get There from Here”. Uma canção agitadinha, com uma pegada pop e até metais, mas que nunca caiu no meu gosto.

Como de costume, enquanto escrevo essa seção, boto o “disco” da vez pra rolar na “vitrola” e viajo no tempo, a viagem com o “Fables…” foi uma das que mais rendeu, talvez pelo tempo que fazia que não nos encontrávamos, coisa que acontece quando bons e velhos amigos se encontram.

:::

:: FAIXAS
01. Feeling Gravity’s Pull
02. Maps and Legends
03. Driver 8
04. Life and How to Live It
05. Old Man Kensey
06. Can’t Get There From Here
07. Green Grow the Rushes
08. Kohoutek
09. Auctioneer (Another Engine)
10. Good Advices
11. Wendell Gee

 

:::

:: Assista abaixo ao videoclip de “Driver 8”:

Anteriores NOTHING – Guilty of Everything (2014)
Próximo WILD BEASTS – Present Tense (2014)

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *