‘The Southern Harmony’ mostra o The Black Crowes seguro e coeso


The Black Crowes Band

Após o show do The Black Crowes em SP no último 14 de março, passei os últimos dias ouvindo a banda. E foram muitas audições de The Southern Harmony And Musical Companion, segundo álbum deles, de 1992.

Na época do lançamento do álbum, toda a cena musical parecia ter passado por uma tormenta. O Rock Alternativo ditava os rumos da indústria musical. As bandas fugiam de virtuosismo e preciosismo nas produções. O sujo e o primitivo eram as direções apontadas por todos.

Em contraponto, o The Black Crowes soava anacrônico: com um visual de brechó e um som cheio de riffs, solos , mudanças de andamento e construções diversificadas. Esse som, se não bebia diretamente no blues americano, certamente referenciava às bandas da primeira invasão britânica (que, essas sim, bebiam diretamente dos copos de whisky do blues americano!), como Faces, Humble Pie e, claro, os Rolling Stones. Mas não se trata de revisionismo. Tudo soa genuíno, afinal, os músicos ‘viviam aquele som’ como se não houvessem décadas separando-os.

Para The Southern Harmony and Musical Companion, a banda passou por mudanças na formação, incorporando o competente Marc Ford nas guitarras, que aproveitou de forma estupenda a cama de riffs crocantes e certeiros de Rich Robinson. Eddie Harsch assumiu os teclados e trouxe calor e emoção à sessão rítmica da banda. Essa formação brilhou até 1997, auge do grupo.

Se houve alguma cobrança pela manutenção do sucesso e qualidade para a tal ‘provação do segundo álbum’, os The Black Crowes não apenas se provaram competentes, mas nadaram de braçada, e entregaram um álbum perfeito.

Em 1992, os EUA ardiam em tensões raciais, diante da absurda absolvição dos espancadores de Rodney King. “Sting Me”, a primeira faixa do álbum, é o posicionamento dos Crows frente ao absurdo. (“De frente aos seus juízes e júris, vocês se dizem inocentes”, diz trecho da letra). A banda vai entregando porções de cada instrumento, numa clareza sonora arrebatadora. Quando Chris Robinson entrega o primeiro verso, você já está completamente entregue!

O álbum segue com “Remedy” e “Thorn In My Pride”, os dois maiores hits do álbum. Enquanto a primeira sugere, subjetivamente a liberdade para se consumir o que bem entender (precursores do tema, a banda já falava abertamente sobre o consumo de maconha à época); a segunda é, no melhor dos sentidos, uma estupefaciente música sobre sexo, relações abusivas e amor.

Essa primeira trinca de músicas vale o álbum!

A entrega da banda aqui é um primor, os andamentos, os riffs, a pavimentação que os teclados, baixo e backing vocals deixam para que as guitarras e, claro, os vocais de Chris Robinson brilhem é algo que há muito não se ouvia naquele longínquo 1992. Mas a banda, atrevida e afiada, entrega, na mesma sequência “Bad Luck Blue Eyes Goodbye”, a emocionante “Sometimes Salvation” e a ‘Stickyfingeriana’ “Hotel Illness”.

Sério! Se você não se emociona com a performance vocal de Chris Robinson nesta segunda trinca de músicas, seu coração já parou faz tempo.

Com o jogo ganho, a banda ainda tem tempo de desconstruir Bob Marley de forma faceira, e entrega sua versão ‘sulista’ para “Time Will Tell”.

+++ Leia sobre o álbum ‘Sea Sound’, do Apnea 

Para o teste do segundo álbum, os Black Crowes estavam seguros e muito coesos. Surpreendentemente, tudo foi produzido em processo analógico (outra afronta ao imediatismo digital dos 90) em apenas 8 sessões de estúdio.

Isso tudo faz de TSHaMC um disco obrigatório para qualquer um que quer entender a história do Hard Rock. Ainda que estejamos falando de um álbum dos anos 90.


The Black Crowes - The Southern Harmony

 

 

 

Ano | Selo: 1992 | Def American
Faixas | Duração: 10 | 50:33
Produtor: George Drakoulias e The Black Crowes
Destaques: “Sting Me”, “Remedy”, “Thorn In My Pride”
Pode agradar fãs de: Hard Rock, Southern Rock, Aerosmith, Rolling Stones

 

 

 


 

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