Stone Roses e sua ligação com a arte de Jackson Pollock


Foto de Jackson Pollock para texto sobre Stone Roses

Capas, como elas parecem tão magnânimas em seu formato vinil, quase um quadro, e como no formato CD se tornaram algo tão banal, pobre, mesquinho. Veja, esses três adjetivos estão relacionados à maneira como a indústria da música tratou as capas de CD’s nos seus primórdios.

Quem coleciona, deve ter aí em sua coleção alguma capa de CD que chega dar tristeza de tão pobre que é a produção. Em alguns casos, um pedaço de papel com a foto do álbum da frente e um lado branco do outro falando sobre as maravilhas do CD, como conservá-lo e etc. Com o tempo, até surgiram trabalhos gráficos inusitados, diferentes, de capas para CD. Independente disso, não há como comparar a capa de um disco de vinil com a de um CD!

Claro, o conteúdo é o mais importante, mas é impossível ignorar a importância e até influência da capa na história de um disco, seja para o bem o para o mal.

Tome o exemplo da belíssima capa do álbum de estreia dos  mancunianos The Stone Roses: uma pintura abstrata, declaradamente inspirada no trabalho do pintor norte-americano Jackson Pollock, artista bastante referenciado pela banda.

Pollock nasceu em 1912 e morreu de um acidente de carro em 1956, aos 44 anos de idade. É considerado um dos criadores do expressionismo abstrato ou action painting, que valorizava a espontaneidade, o movimento corporal e gestual durante a criação da obra.

Jackson Pollock em ação
Jackson Pollock em ação

Em suas obras, ele utilizava tinta líquida e a técnica de pintura por gotejamento, despejando a tinta sobre a tela e criando linhas e formações aleatórias. Sua forma de trabalhar consistia em colocar a tela no chão, despejar a tinta líquida e utilizar o próprio corpo como instrumento para a criação, numa espécie de imersão física do artista na pintura.

Ele utilizou a técnica entre 1947 e 1951, quando resolveu abandoná-la. São justamente desse período algumas de suas telas mais conhecidas: “One” e “Autumn Rhythm: Number 30” (tela tão grande que precisou ser pintada num celeiro) , ambas de 1950, e “Número 5” (1948), uma das obras mais famosas do Abstracionismo, vendida em 2006 pela pequena quantia de 140 milhões de dólares, um recorde na época.

Desde 1980, a dupla John Squire (guitarra) e Ian Brown (vocal) já estavam envolvidos com música, participando de formações diversas, Brown até chegou a tocar contrabaixo. O The Stone Roses surge efetivamente em 1983. Entre entradas e saídas de integrantes e um processo de evolução musical, levou seis anos até que seu estrondoso primeiro álbum fosse lançado. Antes disso, o grupo gravou com Martin Hannet (Joy Division New Order, Magazine), o midas da produção musical na época, o álbum Garage Flowers, que poderia ter sido o primeiro álbum do grupo. A insatisfação da banda com o resultado final fez com que o disco ficasse engavetado até 1996. Apenas duas faixas desse álbum seriam utilizadas em seu álbum de 1989, “I Wanna Be Adored” e “This is the One”.

Pode parecer coincidência, mas é justamente com “Elephant Stone”, o single de 1988, que as coisas começam a mudar para a banda. E lá estão pela primeira vez as referências a Jackson Pollock: a capa de inspiração abstrata, cortesia de John Squire, e o B-Side “Full Fathom Five”, título de uma das pinturas de Pollock. Essa faixa é a mesma “Elephant Stone”, só que tocada ao contrário.

“Made of Stone”, o single de 1989, segue referenciado o trabalho do pintor norte-americano. A faixa-título é uma homenagem expressa no conteúdo da letra de Ian Brown: (Seus nós dos dedos embranquecem no volante / A última coisa que suas mãos vão sentir / Seu voo final não pode ser atrasado / Sem terra, apenas o céu é tão sereno) e no B-Side, “Going Down”, ele é citado na frase “There she looks like a painting Jackson Pollock’s number five”. A capa, mais uma vez a cargo de John Squire, é uma referência à famosa pintura No. 5, de Pollock.

capa do álbum the stone roses

Enfim, a banda encontrou na produção de John Leckie – que coproduziu e produziu os dois singles citados, respectivamente – a química perfeita para a sua música, ligada aos anos 60 através dos elementos psicodélicos e guitarras melodiosas, e a cozinha poderosa e cheia de groove de Reni e Mani, antenada com a cena das raves e toda a cultura Indie-Dance.

Além da inspiração óbvia, vinda dos trabalhos de Pollock, a icônica capa do homônimo álbum de estreia – criada novamente por John Squire, conhecida como “By Bye Badman” (título de uma das canções) – foi também inspirada pelas históricas manifestações de Paris em 1968, por isso o azul, branco, e vermelho (liberdade, igualdade e fraternidade), símbolo da Revolução Francesa.

E os limões?

Em entrevista, o vocalista Ian Brown explicou a razão de estarem ali: “Quando estávamos em Paris, conhecemos um homem de 65 anos que nos disse que, se você chupar um limão, os efeitos do gás de pimenta são cancelados. Ele ainda pensava que o governo da França poderia ser derrubado um dia; ele esteve lá em 68 e tudo. Então ele sempre carregava um limão com ele para que pudesse ajudar na frente”.

Em outra entrevista, John Squire falou sobre a origem e de onde veio a inspiração para o verde usado de fundo: “foi baseada na cor da água e da espuma na Giant’s Causeway”. Também conhecido como “Calçada dos Gigantes”, o local fica na Irlanda do Norte e é formada por um conjunto de cerca de 40.000 colunas prismáticas de basalto.


DOCUMENTÁRIO SOBRE JACKSON POLLOCK:

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