10 PERGUNTAS PARA BRUNO AZIZ


Foto de Bruno Aziz, Ilustrador

Bruno Aziz (AKA Aziz) é Artista Digital, Ilustrador/Cartunista/Chargista e muitas outras coisas mais. Com uma infinidade de trabalhos que vem desde a década de 90, Aziz desde cedo se interessou pelas imagens, pelo traço, pelas formas. Enquanto muitos corriam atrás do trio elétrico ou da bola de futebol, Chiclete com Banana (a revista) era sua predileção.

Da leitura dos quadrinhos para as criações foi um passo. Logo estava produzindo fanzines, travando contato com outros quadrinistas, acumulando experiências e buscando encontrar seu estilo sob influências que incluem Ziraldo, Uderzo e Gonsciny, Angeli, Laerte, Glauco, Luiz GÊ, Myiazaki e outros.

Com trabalhos diversos, que incluem charges, ilustrações, tirinhas, HQ’s, e também um livro, Aziz atualmente publica a tirinha do Dr. Lovesfora, aos sábados, no Caderno 2 do Jornal A Tarde e também charges diárias. Profundo conhecedor de cultura pop, na entrevista ele fala sobre seus trabalhos, carreira, censura e, no final, deixa uma Playlist com algumas dicas musicais e uma listinha de 10 filmes que recomenda.


01. Em que momento da tua vida você percebeu que lidar com criação, quadrinhos, arte, era o que você queria fazer? E qual o olhar que faz em retrospecto?

R: Acho que foi uma sucessão de momentos. Vem desde momentos da infância, ler Turma da Monica, Asterix, assistir o Daniel Azulay, Muppets, etc. Essas coisas ficam impressas na sua memória e inconsciente, acho. Meus pais (os dois eram professores de Filosofia) estimavam muito arte e cultura, música, principalmente . Então, você cresce ouvindo de Luiz Gonzaga a Vinicius de Moraes. Lembro de ouvir muita MPB quando criança, e as letras são tão imagéticas, que aquelas sensações ficam gravadas em forma de imagem, como se precisassem sair algum dia. Lembro muito de ouvir a Arca, de Vinícius de Moraes e os Saltimbancos, que tinha uma puta ilustração na capa, e era essa sensação de um mundo paralelo, de música e imagem.

Enfim, acho que a ideia de que criar ou trabalhar com criação vem dessa amálgama de informações que começam na infância. Na adolescência, eu preferia ler Chiclete com Banana do que bater baba, ou ouvir Chiclete com Banana, se é que você me entende? Rs. Foi outro passo, outro momento. Ler muitos quadrinhos na virada dos 80 para os 90. Muito, mas muito mesmo. O que culminou em conhecer pessoas que tinham o mesmo apreço e gosto por um tipo de contracultura.

Acabei conhecendo quadrinistas locais (Hector Salas, Augusto Matos, Fabio Abreu, Alix, Betonasi, Cedraz). Essa junção me levou a desenhar. Editei dois números de um Fanzine chamado Placebo, além de participar de publicações independentes com coletivos com os artistas citados acima e mais alguns. Acho que o terceiro passo fundamental foi ter entrado no Liceu de Arte e Ofícios como aprendiz de Vídeo. Comecei a ver que poderia trabalhar de uma forma educativa com criação, que dava pra tentar viver de arte e com função social. Acho que essa busca continua até hoje. Esse é o máximo de retrospecto que me dou o direito. Revisito sempre meus trabalhos mais antigos, alguns acho melhores que os de hoje, outros nem tanto, assim como tem coisas que eu faço hoje que seriam impossíveis para minha pessoa fazer naquela época, essa noção é uma via de mão dupla. Tem coisas daquela época que eu esqueci como fazer. Resta a busca, e esse compasso moral é o que liga os tempos.

02. Quais tuas referências e influências no que diz respeito ao traço e estilo?

R: Vou responder com os ídolos e com algumas obras que me marcaram, mas nada que me compare estilisticamente ou tecnicamente a nenhum deles. Não me vejo no nível de excelência desses artistas, que não tenho duvidas em dizer, acabam moldando a pessoa em que a gente vai se tornando. Vamos lá:

1 – Ziraldo, especificamente FLICTS. Abriu minha percepção de forma completamente intuitiva do que é contar uma historia com formas cores e conceitos. É uma obra prima. É uma aula de design, é a ilustração editorial na essência, a imagem completando o texto e vice versa, sem esforço;

2 – AsterixUderzo e Gonsciny – Eu queria desenhar como Uderzo. Eu queria ter o poder de criar mundos e personagens com aquele carisma universal. No máximo eu aprendi a copiar como desenha alguém dando um murro num Conquistador. Se não tecnicamente, mas conceitualmente. Uderzo e Gonsciny me ensinaram a bater com o desenho e com humor! A formação de caráter vem de brinde;

3 – A Geração Brasil 80 – Laerte, Angeli, Glauco, Luiz GÊ, Gonzales… etc.  – Não da pra rasgar mais seda do que já foi rasgada pra essas pessoas. Acho que o contato com esses artistas é a resposta mais correta para a pergunta anterior. Mas acho que a melhor lição tirada em acompanhar o trabalho deles foi: Buscar sua voz, sua identidade, romper com as coisas que te incomodam na sociedade se possível no caminho. Procurar ser ao máximo autoral e encontrar seu estilo ou o seus estilos sem moldes;

4 – Moebius – Criar mundos, rasgar a realidade e levar algumas almas boas no processo. Se eu conseguir fazer isso com um desenho apenas na vida fico feliz;

5 – MacunaímaMário de Andrade. – A coisa mais imagética e iconoclasta q já li. Leio e releio. Todas as barreiras são rompidas nesse livro. E com um humor magico;

6 – Myiazaki – Mudou minha vida… como fazer magia;

7 – Musica e cinema vale como influência para um trabalho gráfico ou fica presunçoso? Rsrsrs Fica pra próxima então…

03. Atualmente, quais são tuas ferramentas de trabalho para criação das ilustrações e desenhos? Quais programas indicaria para quem está iniciando?

R: Eu me considero um artista digital. Minha arte final é digital. Mas o meu processo criativo varia com o objetivo final. Estou fazendo umas pinturas digitais, uma fase experimental, que inicio com fotos de celular, por exemplo, e trabalho com contrastes, saturações de cores localizadas e colagens no Photoshop para gerar uma pintura digital intuitiva. Tenho uma canetinha digital, uma mesa Wacon, e basicamente finalizo tudo no Photoshop. Mas para as charges e cartuns, por exemplo, às vezes começo no lápis, digitalizo e finalizo no Photoshop. Às vezes parto da captação direta do traço com a caneta digital, sem rascunho, tentativa e erro, correções, tudo na mesa Wacon. Começo tudo em P&B, traço ou lápis. Cores no computador. E faço alguns trabalhos em programas vetoriais. Às vezes misturo as técnicas também. Levo do lápis para o vetor, depois transformo em imagem para colorir texturizar no Photoshop.

04. Diz-se que todo artista passa por fases de bloqueio, já aconteceu contigo? Como você lida quando acontece?

R: Na verdade eu tenho mais como experiência o seguinte:

Quando eu estou bloqueado na vida começa a fase de criação. A minha criação autêntica vem do incomodo ou do confronto e da fuga da realidade.

Tô criando compulsivamente nessa quarentena, por exemplo.

Mas se é um caso de um trabalho direcionado, uma ilustração editorial para o jornal ou para um cliente, por exemplo, e acontece o bloqueio, e sim ele acontece, o melhor a fazer é parar o trampo e se dedicar a outras coisas por um tempo ate que a ideia se adapte, se molde e chegue de uma forma melhor. Ou seja, para e vai fazer outra coisa e deixa o subconsciente resolver… rsrs….funciona assim às vezes.

05. De alguma forma, publicar e ilustrar no Jornal A Tarde contribuiu para “expandir” o teu trabalho, ampliar o alcance das tuas criações? E além do jornal, onde mais é possível encontrar teus trabalhos?

R: Sim, lógico! O jornal é um motor para mim. Até mais interno do que externo. Me força a ficar atento aos acontecimentos, e estar constantemente pensando artisticamente e criticamente.

Nas redes tenho um Flicker com a maioria dos trabalhos de Design, Ilustração Editorial e HQ’s e Tirinhas. Publico a tirinha Rock Sujo, que na verdade a algum tempo é a tirinha do Dr. Lovesfora. Sai aos sábados no Caderno 2. Ilustrei um livro infantil em parceria com uma escritora de São Paulo, logo logo divulgo melhor. E estou com uma página no Insta com quadros a venda, criações novas e antigas. Posto as charges lá também, mas movimento elas muito pelo Face. Basicamente isso. Esse ano se eu conseguir me organizar com o mundo em pandemia (rs) devo fazer uma Expo com as imagens criadas com a técnica das fotos que falei antes.  Será uma Expo em parceria da minha companheira, Sandra Travassos, que é fotografa. Será um duo se tudo der certo com o mundo.

06. A Política sempre forneceu farto material para as charges, é o principal assunto das tuas? E como não cair na auto repetição?

R: Tenho que confessar que é difícil. Principalmente para mim que não me considero um bom caricaturista. Até achar o personagem (a carica, ou cartoon da personalidade retratada, o “meu Trump”, o “meu Bolsonaro”) o processo é difícil. Quando a gente se acostuma a desenhar o personagem com nossa identidade impressa nele, as ideias ficam mais fáceis de surgir e não se repetirem, porque você se sente confortável para colocar o alvo da caricatura na situação que você quiser. Mas, de novo, um bom caricaturista tem mais chance de não se repetir na charge politica, principalmente na diária. Porque você pode desenhar outras figuras do poder. Por exemplo, é muito fácil pra eu fazer o Neto, tenho “meu ACM Neto” já de memória. Mas nunca acerto um Rui Costa. Dificílimo! O Cau Gomez, que é um monstro da caricatura, mata qualquer um a pau!

07. Em algum momento de tua trajetória você percebeu algum tipo de censura em relação aos teus trabalhos?

R: Não tanto quanto eu gostaria (risos). Mas, sim. Algumas charges tiveram que ser atenuadas no jornal. Mas é raro, e há diálogo. Mas houve uma época de transição de chefias e equipe em que tivemos uma editora chefe com postura politica bolsonarista assumida. Nessa época, sofri muitas retaliações nas redes e fui suspenso uma semana por causa de uma charge sobre Bolsonaro, na época da facada. Tive meu face bloqueado por duas semanas por causa do Cartaz da versão baiana do Facada Fest (que acho e nem aconteceu, mas eu que fiz o flyer). E sim, há muita repressão às charges nas redes por parte do público com essa mentalidade neofascista.

08. Já te passou pela cabeça lançar um livro ou um site para publicar os teus trabalhos, ou fazer exposição?

R: Sou péssimo em autogestão, lobby, empreendedorismo e tudo isso que os artistas normais sabem fazer pra sobreviver. Sou péssimo. Sei fazer. Mas enfim. Fiz no esquema Punk “faça você mesmo” o Placebo, fanzine dos anos 90. Participei dos coletivos locais Desagaquê, Revista Crau e Tudo com Farinha (UNEB).

Um livro tanto de textos como de tirinhas está sempre nos planos. Expo… Fiz a Simbiose com uma serie de gravuras digitais, também no esquema “faça você mesmo”. As gravuras ficaram expostas num bar agora já extinto.

Esse ano, se o Corona deixar, quero fazer outra como já disse. Tenho um livro infantil publicado via prêmio em edital da Secretaria de Educação do Estado, O Ponto no Céu (CLIQUE PARA BAIXAR). E esse ano imprimimos pela Editora Patuá outro livro infantil, Xerxinho: O gato que falava em Farsi. Uma parceria muito muito bacana  com a Solange Argon, uma escritora paulista. Ainda não divulguei porque o lançamento físico ficou inviável devido a Pandemia.

09. Você é um cara que se interessa também por quadrinhos, música e cinema, de que forma essas outras artes contribuem ou se refletem no teu trabalho?

R: Acabei falando disso antes né? Influencia diretamente e full time. Chamo tudo isso de infraestrutura da alma. Uma coisa alimenta a outra.

10. Você começou a vender alguns dos teus trabalhos pelas redes sociais, explica como funciona para aqueles que desejam adquirir.

R: Olha estamos fazendo as vendas online pelo Facebook e pelo Instagram. O pedido é feito, o pagamento é via transferência bancária, por enquanto, e a entrega é em casa ou via correio com acréscimo do frete para fora de Salvador. Envio os links ao fim da entrevista.

PS: Solicitamos a Aziz pra montar uma Playlist com indicações para o pessoal ouvir durante o período de isolamento e uma lista de 10 filmes que indica (AO FINAL).

| MAIS SOBRE O TRABALHO DE AZIZ: Facebook | Instagram | Flicker |


:: GALERIA COM ALGUNS TRABALHOS DE AZIZ:

 


:: Playlist por Aziz:

01. LOVE BATTERY – Out of Focus e Confusion Au Go go (Descobrindo um cadáver do grunge)
02. DIE ANTWOORD – Da Godz Mus B Crazy (Novo da dupla pop da cracolandia da áfrica do Sul)
03. RUN THE JEWELS – Ooh La La (Single novo – Hip Hop old school is the new new shool – Os caras estão abrindo pro Rage, então, vamo dar uma moral)
04. PIXIES – Lovely Day (Fica de dica por ser um lado B pouco ouvido deles)
05. SONIC YOUTH – I Love You Golden Blue (Choro toda vez)
06. AMON TOBIN – Dust for a Duster (Gênio, gênio!)
07. MELVINS – Smillinig Cobra e Kicking Machine (Pra gastar a raiva)
08. MUDHONEY – Here Comes Sickness (Vocês sabem porque…rs)
09. DEADCROSS – Church of the Motherfuckers (Paniker remix) (Mike Paton + Lombardo_+  Locust…..hardcore crossover paradise)
10. J MASCIS –  Very Nervous and Love (Meu ansiolítico em forma de música!)

:: Filmes Recomendados: (Vou nos que re-assisti até agora durante a pandemia)

01. Ex_Machina: Instinto Artificial (Ex Machina, 2014 – Alex Garland)
02. Depois de Horas (After Hours, 1985 – Martin Scorsese)
03. O Verão de Sam (Summer of Sam, 1999 – Spike Lee)
04. Coração Satânico (Angel Heart, 1987 – Alan Parker)
05. A Viagem de Chihiro (Spirited Away, 2001 – Hayao Miyazaki) – Pela 8° vez, no mínimo!
06. Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013 – Jim Jarmusch)
07. Ghost Dog: Matador Implacável (Ghost Dog: The Way of the Samurai, 1999 – Jim Jarmusch)
08. A Estrada Perdida (Lost Highway, 1997 – David Lynch)
09. Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me, 1992 – David Lynch) – O começo é uma bosta, mas a segunda metade do filme é simplesmente o paraíso para quem assistiu a serie. Pura Arte!
10. A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2010 – Werner Herzog)


 

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