Picassos Falsos – Nem Tudo Pode Se Ver (2017)


“Álbum dos cariocas do Picassos Falsos é uma grata surpresa”

O Picassos Falsos é uma das bandas mais subestimadas da geração do rock brazuca da década de 80, mesmo tendo influenciado (e continuar influenciando) muitos artistas da música nacional.

O novo álbum, “Nem Tudo Pode Se Ver”, foi produzido por Jr. Tostoi (que toca guitarra e baixo em algumas faixas) e gravado entre dezembro de 2015 e novembro de 2016, no Lab Tostoi – Ministereo Estúdio, no Rio. Um hiato de 13 anos, separa o novo álbum de seu antecessor, “Novo Mundo” (2004), que apresentava uma sonoridade mais próxima de seu cultuado disco “Supercarioca”. O novo álbum soa ainda mais carioca/brasileiro que seu antecessor com uma coleção de canções que passeia por diversas veredas da música brasileira.

Nome e capa do foram inspirados num conceito de José Saramago. No documentário “Janela da Alma” (2001), dirigido por João Jardim e Walter Carvalho, o escritor português dá um depoimento em que discorre sobre a ilusão de entender as coisas na forma que elas nos chegam: “É importante em tudo dar-lhes a volta, tentar ver, perceber todas as faces”.

Desde que foi anunciado o novo disco e se sucedeu todo o processo de Crowndfunding (alternativa para angariar fundos que faz com que o fã tenha um maior contato com o artista e vice-versa), a banda se empenhou em apresentar semanalmente todo o processo de gravação deste, mostrando trechos de músicas, bastidores das gravações, fotos, tudo com o intuito de angariar colaboradores/parceiros para o lançamento.

A bolacha reúne dez faixas – nove inéditas e a regravação de “Pavão Mysteriozo”, clássico de Ednardo, de 1974. Humberto Effe, considerado por muitos um dos grandes letristas outsiders do Brasil, novamente nos brinda com belíssimas letras sempre sendo um espetáculo à parte, e grandes interpretações destas, mostrando que a idade só fez bem a sua voz, acompanhado por Gustavo Corsi (guitarra), Abilio Rodrigues (bateria) e Romanholli (baixo), com uma cozinha potente, segura e de bons músicos, nunca apresentando sons fáceis, com riffs de guitarra vanguardistas, bateria pulsante como os olhos de uma mãe que protege um filho.

A banda continua a misturar ritmos tradicionais e regionais brasileiros, e internacionais, sempre antenados com o que tem a sua volta, confirmando ser uma banda que nunca se acomodou na proposta musical que se dispôs a fazer.

Em “Nunca Fui a Paris”, parceria do cantor com Mauro Sta. Cecília, Fernanda Takai divide os vocais com Humberto Effe numa nova versão para a canção, que já havia sido lançada como single em 2015 – a voz delicada da cantora da banda mineira Pato Fu acrescentou suavidade à canção. A inédita “O Que Fiz Foi Gostar” tem a participação de Duda Brack. A jovem cantora gaúcha, radicada no Rio, encanta com uma interpretação incendiária no dueto com Effe. A canção conta ainda com a participação de Ricardo Vignini, que tempera a mistura com uma viola caipira. Com mais uma parceria de Humberto com Sta. Cecília, há o funk “Vou à Vila”, escrito depois de uma visita à Vila Mimosa, onde a dupla de compositores assistiu a um show de Mr. Catra. Os teclados de “Vila” ficaram a cargo de Humberto Barros, que também gravou em “Misturando” e “Indômita”. A faixa título trata da superexposição e da dificuldade de troca de ideias, seja em redes sociais ou na mídia tradicional, insinuando serem duas das doenças dos tempo atuais.

Fruto de um bem-sucedido projeto de financiamento coletivo em parceria com o selo Embolacha, “Nem Tudo Se Pode Ver” é uma das gratas surpresas do rock nacional em 2017.

NOTA: 8,0

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FAIXAS:
01. Enigma
02. Nem Tudo Pode Se Ver
03. O Que Fiz Foi Gostar
04. Pavão Mysteriozo
05. Misturando
06. Indômita
07. Vou À Vila
08. Um Pouco Mais Perto
09. Nunca Fui A Paris
10. Mudança

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