The Railway Children e o Jangle-Pop da Factory Records


Foto The Railway Children

A gravadora Factory Records, de Tony Wilson, teve uma importância e contribuição incomensurável para a criação e consolidação do Pós-Punk inglês no final dos anos 70 e início da década de 80. De lá saíram alguns nomes fundamentais como Joy Division e New Order, além de vários outros grupos de menor repercussão mas não menos influência. Mas nem só de bandas com sonoridade calcada no Pós-Punk era constituído o catálogo da Factory, além de alguns grupos da cena Indie-Dance também estiveram no cast do selo nomes como James e o quarteto The Railway Children, cuja sonoridade é ímpar dentro do universo de bandas que compunham a gravadora.

Formado em 1984, em Wigan, região da chamada Great Manchester, o The Railway Children foi criado pelo guitarrista/vocalista Gary Newby junto com o baixista Stephen Hull. Logo recrutaram o baterista Guy Keegan e o guitarrista Brian Bateman e começaram a trabalhar nas composições de Newby, criando sua música recheada de dedilhados melódicos, com o timbre típico das guitarras Rickenbacker , e uma sonoridade próxima principalmente dos Smiths, um Jangle-Pop ou Guitar-Pop empolgante comandado pelos vocais límpidos de Newby.

“Eu era amigo da escola de Stephen Hull, nosso baixista. Estávamos em algumas bandas diferentes que nunca tocaram em nenhum show. Então conhecemos nosso baterista Guy Keegan, provavelmente por volta de 83, e começamos a ensaiar como um trio e tocar em bares e clubes em Wigan. Trabalhamos principalmente coisas que eu escrevi, além de alguns covers, coisas como “Crocodiles” do Echo & The Bunnymen ou “Figurehead” do The Cure. Brian Bateman se juntou na guitarra base, e o próximo grande passo veio quando começamos a tocar em clubes de Manchester, por volta de ’84”, recorda o vocalista. A banda chegou a fazer uma sessão de gravação com o lendário Martin Hannet, mas sem qualquer registro.

O nome The Railway Children veio de um livro infantil de mesmo nome da escritora Edith Nesbit, que teve várias adaptações para as telas, sendo a mais conhecida a versão de 1970, do diretor inglês Lionel Jeffries. Logo a banda se associou a gravadora Factory – talvez Wilson estivesse em busca de um “novo The Smiths”. O ambiente da gravadora foi favorável e contribuiu para que a banda trabalhasse seu som, conforme declarado por Newby: “Crescemos ouvindo Joy Division e New Order, e Tony Wilson era um personagem inspirador. Acho que prosperamos naquela atmosfera porque era completamente desestruturada e sem pressão”.

Foto da banda The Railway Children

A estreia do grupo foi com o single “A Gentle Sound”, lançado em maio de 1986; o lado B trazia a faixa “Content” na versão 7” e mais “Darkness and Colour” na versão 12”. Esse primeiro lançamento alcança o sexto lugar na parada indie britânica e é sucedido por “Brighter/History Burns/Careful” (1987), o segundo single, que alcança uma posição melhor ainda, chegando ao terceiro lugar. “Brighter” é um dos grandes hits do grupo, ela até ganhou um videoclipe produzido por Tony Wilson, que usou como inspiração para o cenário uma apresentação dos Beatles de 1962 na TV Granada (ASSISTA AO FINAL). Junto com “Careful”, “Brighter” foi a única das faixas lançadas previamente que entrou em “Reunion Wilderness” – as outras canções lançadas nos singles seriam adicionadas em edições posteriores da versão CD.

“Reunion Wilderness” foi gravado no Revolution Studios e produzido pela própria banda. O disco foi lançado em novembro de 1987 pela Factory Records sob o código FACT 185. A capa é de autoria do próprio Gary Newby, e há a participação do músico Chris Manis tocando percussão. Contendo apenas sete faixas, seu lançamento foi um sucesso, chegando ao topo da parada indie inglesa. Enquanto a parada “oficial” se via dominada por U2, Prince, Paul Simon e outros, o Railway Children se juntava a nomes como The Smiths, Michele Shocked, The Pastels, Laibach, Smithreens e mais alguns nomes menos conhecidos no segmento independente.

Apesar de não terem entrado naquela famosa fitinha lançada pelo NME em 1986, devidamente chamada C86 (Class of 86), a música do grupo está ali na mesma prateleira de grupos contemporâneos como The Bodines, Primal Scream, The Weather Prophets e McCarthy. A sonoridade calcada em dedilhados melodiosos de guitarras, baixo marcante e os vocais cristalinos e com uma fina melancolia de Newby, angariou muitos fãs, alguns órfãos dos Smiths, que haviam chegado ao fim no mesmo ano em que o grupo lançou seu álbum de estreia.

“Reunion Wilderness” chegou a ser lançado aqui no Brasil pela gravadora Stiletto/Eldorado e até foi comentado na seção de discos da Revista Bizz. Embora não seja um álbum que traga algo revolucionário, dentro do gênero em que a banda transita, há nele algumas gemas do Jangle-Pop feito nos anos oitenta, “Railroad Side” e “Brighter” entrariam tranquilas entre as melhores coisas produzidas nessa seara, bem como a excelente “Gentle Sound”.

+++ ESPECIAL | McCarthy, o discurso politizado do Jangle-Pop

O sucesso do disco fez com que o grupo fosse procurado pela Virgin que lhes ofereceu um contrato. Na nova gravadora, o quarteto gravaria outros dois álbuns, sob forte pressão para que gravassem um single de sucesso, inclusive com uma mudança na sonoridade para algo mais dançante, em seu terceiro álbum.

O grupo abriu shows do R.E.M. e The Sugarcubes, até serem dispensados quando a EMI comprou a Virgin. Newby considera que foi um erro ter deixado a Factory tão apressadamente: “Tivemos muito interesse de outras empresas e suponho que fomos seduzidos pelas luzes brilhantes. Olhando para trás, provavelmente deveríamos ter ficado com o Factory por pelo menos outro álbum, e crescido um pouco”.

FONTES:


O ÁLBUM ‘REUNION WILDERNESS’, DO THE RAILWAY CHILDREN:


O VIDEOCLIPE DE “BRIGHTER”:

Anteriores Robin Guthrie está de volta e a todo vapor
Próximo A-ha - The Movie acompanha os altos e baixos do grupo

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *