GREEN BOOK: O GUIA (Green Book, 2018)


Viggo Mortensen e Mahershala Ali em Green Book

“Com a segregação racial como pano de fundo, “Green Book” é um filme leve e inofensivo sobre racismo, porém demonstra toda sua força quando fala sobre solidão”

Um dos favoritos ao Oscar de melhor filme em 2019, “Green Book: O Guia” é um delicioso e bem humorado Road Movie que, a exemplo de outros filmes do gênero, utiliza uma longa jornada pelas estradas para que os viajantes estabeleçam fortes laços diante das circunstâncias adversas que precisam enfrentar.

Trata-se de uma incrível história verídica, porém o diretor Peter Farrelly, que tem vasta experiência em dirigir comédias escrachadas como “Debi & Lóide” (1994) e “Quem vai ficar com Mary?” (1998), optou por imprimir um tom de fábula. Apesar da triste realidade apresentada, a sensação é de que existe um toque meio mágico por sobre os fatos.

A história se passa no início da década de sessenta, quando o exímio pianista negro, Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), decide sair em uma turnê de dois meses pelo sul dos Estados Unidos, passando por cidades marcadas pelo extremo racismo e segregação.

Para o cargo de chofer, a gravadora contrata o brutamontes ítalo-americano, Tony Lip (Viggo Mortensen), que além de ser branco e racista é um poço de ignorância e truculência. Ao motorista é entregue o tal “livro verde” que dá nome ao filme. Esse livro faz referência ao “The Negro Traveler’s Green Book”, que foi publicado nos Estados Unidos entre os anos de 1936 e 1966 e era uma espécie de guia de viagem contendo todos os restaurantes, pontos turísticos e hotéis nos quais pessoas “de cor” eram bem vindas naquela época.

Ambos os personagens são vividos com maestria pelos experientes atores, porém o pianista vivido por Ali rouba todas as cenas e possui o melhor arco dramático do filme, o que o torna um forte candidato ao Oscar.

A princípio, o pianista encara o seu motorista como um mal necessário para que a sua turnê termine bem, por questões óbvias de segurança, visto que o cantor negro Nat King Cole já havia tentado anteriormente e não conseguiu ir até o fim. Desde o primeiro momento, o abismo entre os dois é notado em todo e cada gesto, em cada diálogo e em cada comportamento.

O diretor procura evidenciar ainda mais essas diferenças através das composições de várias cenas. Basta tomar como exemplo a cena inicial da entrevista de emprego, na qual o pianista negro se encontra sentado em uma cadeira muito mais alta, olhando para o motorista branco de cima, numa posição que sugere superioridade. Mais tarde entendemos que essa soberba do pianista se deve não somente a uma postura defensiva devido ao racismo da época, mas também remete ao seu talento musical, seu sucesso, seu dinheiro, sua cultura refinada e seus inúmeros diplomas, enquanto que o branco é retratado de maneira quase caricatural, apenas como um ignorante semianalfabeto.

Obviamente, com o decorrer dos dias, quanto mais eles viajam em direção ao sul mais o pianista é exposto a situações vexatórias e racialmente absurdas, despertando a compaixão do motorista, que acaba por tomar suas dores e partir para a defesa do “amigo”, afinal ele não receberá o pagamento completo caso o Don Shirley não compareça a todos os shows da turnê.

Nesse ponto a relação comercial entre os dois, começa a adquirir contornos de amizade verdadeira, pois as situações humilhantes vividas pelo pianista o coloca em pé de “igualdade” com o seu motorista, que por sua vez sempre foi criminalizado na vida, obviamente por outras questões. Essa transição é um dos pontos altos do filme pois é uma construção quase que imperceptível de tão orgânica, mérito dos excelentes atores e da direção surpreendentemente séria e competente de Peter Farrelly.

Apesar do roteiro ter sido escrito pelo neto de Tony Lip, e portanto baseado nas histórias que o seu avó contava, nota-se algumas licenças poéticas, principalmente envolvendo o modo de Tony desprezar o seu próprio racismo para abraçar a causa do novo amigo de maneira tão intensa. O filme também se esforça para não pesar muito a mão em passagens mais dramáticas como a da prisão ou nos dois espancamentos sofridos pelo músico. A questão do racismo é apresentada, na maioria das vezes, como algo institucionalizado, são “as regras da casa” como sempre justificam, e isso vai deixando o discurso cada vez mais raso e inofensivo.

O filme se destaca de verdade quando se propõe a fazer um estudo de personagem e entender quem de fato era o musico Don Shirley. Como ele, sendo um ser humano tão diferenciado, poderia se encaixar em uma sociedade tão preconceituosa e polarizada? Para os brancos, ele era apenas um entretenimento, para os negros, um ponto fora da curva, uma aberração.

No fim das contas, “Green Book” é antes de mais nada, um filme sobre pertencimento e solidão e sobre as transformações internas pelas quais passamos a fim de nos adequar ao meio em que vivemos.

:: NOTA: 8,2

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NOTA DOS REDATORES:
Eduardo Salvalaio: –
Isaac Lima: –
Luciano Ferreira: 8,0

MÉDIA: 8,1
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:: LEIA MAIS DE EDUARDO JULIANO: ROMA (Roma, 2018)

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:: FICHA TÉCNICA:

Gênero: Biografia, Comédia, Drama
Duração: 2h10min
Direção: Peter Farrely
Roteiro: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini, Sebastian Maniscalco e outros
Data de lançamento: 24 de janeiro de 2019 (Brasil)
Censura: 12 anos
IMDB: Green Book: O Guia

 

 

 

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:: Assista abaixo ao trailer legendado do filme:

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