Through the Looking Glass, Siouxsie and the Banshees através do espelho



Nesse mesmo dia do ano de 1987, os britânicos conhecidos por Siouxsie and the Banshees lançaram seu álbum de covers Through the Looking Glass (Através de Espelho), título que “homenageia” o livro de mesmo nome do escritor Lewis Carrol, que tinha a personagem Alice como protagonista.

A banda já havia dado mostras de sua admiração pela obra de Carrol, quando em 1983 fizeram o especial Play at Home para o Channel 4, em que recriavam Alice no País da Maravilhas, que incluía canções de suas bandas paralelas: The Glove (Robert Smith e Severin) e The Creatures (Siouxsie e Budge). Esse especial posteriormente foi adicionado na versão em DVD do show Nocturne.

Ao mesmo tempo, o grupo havia conseguido um terceiro lugar nas paradas britânicas com o lançamento, nessa mesma época, da versão para “Dear Prudence”, dos Beatles. Melhor posição conseguida por um single do grupo ao longo de sua carreira. David Bowie e o seu Pin Ups, álbum de covers de 1973, foi o elemento inspirador para que o grupo se aventurasse em fazer seu próprio álbum de versões de artistas que de alguma forma ou várias formas foram referência para os integrantes. A opção foi por canções anteriores a meados dos anos 70.

O álbum foi gravado no Abbey Road Studios durante os meses de setembro e outubro de 1986, com Mike Hedges, produtor de Hyaena (1984), como co-produtor. Entraram em estúdio logo depois da turnê de lançamento de Tinderbox (1986), sétimo álbum de estúdio da banda. Through the Looking Glass, em seu formato original, traz versões bastante personais para canções de artistas como The Doors e Kraftwerk, Billie Holliday e Television, dentre outros, num total de dez (a versão CD traz quatro bônus, uma cover, uma faixa inédita e duas remix).

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A banda consegue imprimir em cada uma das versões o seu toque pessoal, fugindo da simples e fiel cópia. A versão de “Hall of Mirrors” do Kraftwerk é uma das mais radicais, o que a versão dos alemães tem de climas atmosféricos arrastados puxada por sintetizadores, a do grupo de londrino tem de dinâmica impulsionada pela marcação quase eletrônica da bateria de Budgie e do baixo marcante de Severin. A letra canção casa perfeitamente até com o título do álbum: “O artista está vivendo no espelho com os ecos de si próprio”, diz um trecho da letra.

Iggy Pop elogiou a versão de “The Passenger”, uma das melhores faixas do álbum e talvez a melhor já feita para a música do “Mr. Iguana”. A música tem batida e clima pra cima da original, ancorada com o acréscimo de uma seção de metais, e cantada com a voz sóbria de Siouxsie. A banda resgata a canção “This Town Ain’t Big Enough for the Both of Us”, do subestimado álbum Kimono My House (1974), da obscura banda sessentista americana Sparks, numa versão com menos guitarras e mais elementos psicodélicos.

As escolhas vão então do razoavelmente esperado ao extremamente inusitado, com a versão para “Trust in Me (The Python’s Song)”, canção do filme Mogli, O Menino Lobo (The Jungle Book, 1967), da Disney – baseado no livro de Rudyard Kipling -, composta pelos Sherman Brothers. O arranjo torna-se suntuoso, com direito a harpa e um vocal aveludado da vocalista.

“This Wheel’s On Fire”, de Bob Dylan, é outra que ganha uma versão que se afasta bastante da original, quase como uma outra música; “Strange Fruit”, mais conhecida na voz de Billie Holyday, que tem piano e trompete, perde esses elementos e ganha uma versão melancólica, com cordas e metais tristonhos, num clima de marcha fúnebre; “You’re Lost Little Girl”, dos Doors, é a que mais se aproxima da versão original, apenas mais elementos psicodélicos aqui.

A versão dos Banshees para “Sea Breezes”, do Roxy Music, é transformada, com elementos suntuosos, viradas de bateria de rock progressivo e a voz poderosa de Susan. “Gun”, de John Cale, torna-se uma canção de tons divertidos, recebendo elementos circenses.

O álbum finaliza com “Little Johnny Jewel”, ótima mas pouco conhecida faixa dos nova-iorquinos do Televison que não foi lançada em nenhum dos álbuns do grupo (somente em single), que ganha tons dramáticos numa versão matadora, porém aquém dos experimentalismos guitarrísticos de Verlaine e banda.

Pode parecer uma colcha de retalhos a disparidade de estilos que a banda homenageia, sim é, há certa falta de unidade entre as canções, principalmente pela distribuição, que poderia ter sido mais acertada. A escolha dos elementos musicais usados para enriquecer os arranjos (metais, cordas, harpa, teclados) servem como elementos que, de alguma forma liga todas as versões, além da voz de Siouxsie, que revela seus dotes vocais percorrendo espectros musicais diversos impondo sua personalidade em todas as versões. Entre acertos e deslizes, um bom álbum, o último com a presença do guitarrista John Valentine Carruthers.


Capa do álbum Through the Looking Glass, de SIouxsie and the Banshees

:: TRACKLIST COM LINK PARA AS VERSÕES ORIGINAIS:

01. This Town Ain’t Big Enough For The Both Of Us
02. Hall Of Mirrors
03. Trust In Me
04. This Wheel’s On Fire
05. Strange Fruit
06. You’re Lost Little Girl
07. The Passenger
08. Gun
09. Sea Breezes
10. Little Johnny Jewel

 


:: Ouça o álbum:


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