AGNES OBEL – Myopia (2020)


Foto da musicista Agnes Obel para resenha de Myopia

“Myopia é o amadurecimento de uma cantora que se apaixonou por música desde a infância e que mostra o quanto o mundo também precisa se apaixonar.”

Agnes Caroline Thearup Obel. Ou apenas Agnes Obel. Uma cantora dinamarquesa de 39 anos e que, desde criança, já era familiarizada com a música. Veio de uma família de músicos. O pai era músico de Jazz, a mãe mesmo em casa tocava Bartök e Chopin ao piano e, dessa forma, Agnes também encontrou no instrumento uma forma de passar sua infância junto às brincadeiras de colegas e das aulas na escola. Mas o apego com a arte não ficava somente no interior de sua casa, a menina tratou de entrar numa banda de seu bairro para tocar baixo, isso com 7 anos de idade.

Chega a vida adulta. A cantora decide mostrar ao mundo o que aprendeu sobre música. E em suas reflexões, deve ter pensado que sua música precisaria ter um toque de Indie-Pop/Chamber-Pop, mas não somente isso, a cantora também não deixaria atrás o legado deixado por sua mãe, de perpetuar e valorizar a música clássica, tomá-la como exemplo. Ela pensou: “posso juntar tudo isso!”. Sim, ela juntou. Nos tempos atuais, chamam de Neoclássico. Fugindo desse gênero, Agnes quer provar que música ultrapassa fronteiras, junta ideias diferentes, faz variadas gerações sentiram a mesma paixão por ela, absorve várias e distintas influências, é uma arte que precisa ser apreciada desde criança e seguir pela vida adulta (tanto para quem a pratica como para quem a escuta).

Tudo começou lá em 2010, com Philarmonics. Disco que figurou em muitas listas de fim de ano, interessante, padronizado com as propostas da norueguesa e um ótimo cartão de visitas, sobretudo se avaliarmos que era o début (sempre difícil e decisivo para o artista). Passando por uma década conturbada no mundo em geral onde talentos surgem e somem num piscar de olhos, onde música não ocupa mais tanto lugar no coração de algumas pessoas, a cantora chega com Myopia, seu quarto trabalho. Antes mesmo do lançamento, a norueguesa já dizia sem mistérios: ‘Eu precisava criar minha própria miopia para fazer música.’

Agnes tem sua reflexão, seu modo de pensar e até de definir a palavra ‘miopia’ (bem distante daquela que conhecemos no dicionário) tendo em vista sua técnica insular de compor e de produzir (sim, ela mesma produz seus discos).

Usando recursos da tecnologia atual em prol da música ou mesmo utilizando sem preconceitos instrumentos vintage (luthéal, uma espécie de piano tocado por Ravel), a cantora valoriza esse encontro do Indie-Pop com o orquestrado. A voz é outro mérito que merece destaque. A elasticidade vocal chegando em camadas, texturas e muitas vezes imersa em efeitos etéreos recorrentemente nos lembra Kate Bush ou até mesmo Thom Yorke (pense no líder do Radiohead e sua maestria em fazer jogos vocais em suas canções, sobretudo em carreira solo).

“Camera’s Rolling” e “Broken Sleep”, as duas faixas que genialmente abrem o disco, dão um exemplo da força vocal da norueguesa. A segunda faixa, então, deixa tudo mais intenso com a voz de Obel se multiplicando e se afundando na vastidão instrumental, cellos e violinos entrando na mesma intensidade das vozes. Um caos sonoro que causa bem-estar ao ouvinte.

“Myopia” é uma das canções mais complexas do álbum. Pegando uma base que poderia se encaixar numa canção do Cocteau Twins, a faixa não parte tanto para o etéreo, porém ganha um clima mais sombrio destacando cordas soturnas e, novamente, vocais incansáveis em múltiplas camadas.

Quando os vocais não surgem, as peças brilham da mesma forma, minúsculas pérolas orquestradas irrompem, é o que acontece em “Roscian”, “Drosera” e “Parliament Of Owls”. A timidez do piano minimalista de “Promise Keeper” só é quebrada quando, instantaneamente, irrompe a voz de Agnes parecendo nos levar para uma paisagem onírica.

Seguindo a tradição de muitas bandas nórdicas em fundir o clássico/orquestrado com o Pop/Rock (Sigur Rós, Amiina, Efterklang), Agnes Obel não faz diferente e acrescenta mais pontos à sua maturidade através de um álbum onde tudo de sua carreira musical está equilibrado.

NOTA: 8.5

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NOTA DOS REDATORES:

Eduardo Juliano:
Isaac Lima:
Luciano Ferreira:
Marcello Almeida:

MÉDIA: 8,5


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:: FAIXAS:

01. Camera’s Rolling
02. Broken Sleep
03. Island Of Doom
04. Roscian
05. Myopia
06. Drosera
07. Can’t Be
08. Parliament Of Owls
09. Promise Keep
10. Won’t You Call Me

 


:: MAIS INFORMAÇÕES: Bandcamp|Site oficial


:: Ouça o álbum:


:: Assista ao videoclipe de “Broken Sleep”:

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