Isn’t Anything (My Bloody Valentine, 1988)


Isn’t Anything é um clássico e como tal, apesar das décadas, permanece intocado pelo tempo

Minha obsessão por músicas com guitarras barulhentas se iniciou no início dos anos 90 com um punhado de discos que aos poucos foram se assentando na minha pequena mas adorada coleção de vinis: ‘Psychocandy’ (Jesus and Mary Chain), ‘Sister’ (Sonic youth), ‘Bizarro’ (Wedding Present) e também este ‘Isn’t Anything’, para desespero do meu pai que não entendia como eu conseguia ficar em frente à vitrola ouvindo aquela barulheira numa tarde de sábado.

Difícil explicar para alguém sua paixão por algo, principalmente em se tratando de música…principalmente em se tratando de seu pai, umas quatro gerações anteriores à sua, principalmente quando aquela música não era o padrão, principalmente em se tratando de bandas cujo barulho intencionava “transgredir” os padrões vigentes não só na Inglaterra ou Estados Unidos, mas no mundo.

Em algum dos meus textos anteriores devo ter falado da dificuldade de se conseguir ouvir discos nessa época. A revista Bizz só nos fazia ficar sedentos por novidades, com suas resenhas generosas sobre certos álbuns que pareciam tão distante quanto a própria terra da rainha. Por sorte, por essa época o selo Stiletto resolveu fazer a felicidade de jovens interioranos não satisfeitos em escutar rádio FM repleta de axé. O selo despejou no mercado nacional um punhado de álbuns cobiçadíssimos, dentre eles o ‘Isn’t Anything’.

Capa bonita, tons não usuais. Uma foto difusa da banda combinando perfeitamente com o conteúdo.

“Soft as Snow (But Warm Inside)” abre o disco com uma presença do contrabaixo que não se verá em outras faixas, uma progressão grave cheia de groove e uma letra cheia de conotações sexuais. Daí em diante o foco é nas guitarras ásperas criando paredes sonoras barulhentas, cujo intuito é detonar os tímpanos de ouvintes incautos.

Não se deve enganar pela singeleza de “Lose My Breath” ou “No More Sorry”, os momentos mais sossegados do disco, a ênfase é em guitarras criando avalanches sonoras e soterrando os vocais preguiçosos – marca registrada da banda que viria a ser muito imitada – de Shields e Bilinda, como nas clássicas “(When You Wake) You’re Still in a Dream”, “Feed Me With Your Kiss” e “Sueisfine”, uma das melhores do disco.

Aluno da escola das guitarras estridentes, Kevin Shields, mentor do grupo, parecia ter estudado bastante e encontrado uma forma brilhante de alargar os horizontes do universo pop barulhento alçado às alturas poucos anos antes pelos escoceses do Jesus and Mary Chain. Levaria essa obsessão ao extremo no seu álbum posterior, o seminal “Loveless”.

Minha percepção de época era que essa galera do My Bloody Valentine, à sua maneira, tentava criar sua versão de ‘Never Mind the Bollocks’ (Sex Pistols), com canções que esbofeteavam a face da música pop. Simples, direto, cru e ancorando-se na criatividade. Mais uma vez reencontrando com os já citados JAMC.

Como todo álbum clássico, passados mais de 25 anos, ‘Isn’t Anything’ não envelheceu. Não soa uma produção datada como muitos discos dessa época. O que mostra o quão a banda irlandesa estava à frente de seu tempo.

PS: Como todos os meus vinis, este também se foi há muitos anos. Pode soar saudosista, mas escutá-lo em MP3 não tem o mesmo sabor de vinte e cinco anos atrás, quando a agulha mais parecia arranhar do que deslizar sobre a superfície negra no vinil. Ainda assim evoca a magia de outrora ao transportar para uma época que, embora tenha ficado para trás, constantemente me vejo transportado para lá, os discos seguem funcionando como minha máquina do tempo.

:: FAIXAS:
01.Soft as Snow (But Warm Inside)
02.Lose My Breath
03.Cupid Come
04.(When You Wake) You’re Still in a Dream
05.No More Sorry
06.All I Need
07.Feed Me With Your Kiss
08.Sueisfine
09.Several Girls Galore
10.You Never Should
11.Nothing Much to Lose
12.I Can See It (But I Can’t Feel It)

:: Assista abaixo ao vídeo de ‘Feed Me With Your Kiss’:

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