Liderado pelo vocalista Mike Patton, o Mr. Bungle apostou em covers e em canções de The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo
Fotos: Fernando Yokota
A passagem do Mr. Bungle pelo Cine Joia foi um lembrete barulhento — e deliciosamente caótico — de que poucas bandas soam tão afiadas quanto imprevisíveis. A noite começou com a abertura do essencial duo Test. João Kombi (guitarra) e Barata (bateria) entregaram, como de costume, uma apresentação experimental e ensurdecedora, preparando o terreno para o turbilhão que viria a seguir.
Na formação atual, o grupo liderado por Mike Patton exibe uma de suas encarnações mais sólidas. Scott Ian (Anthrax) e o baterista Dave Lombardo injetam peso e precisão, enquanto Trey Spruance (guitarra) e Trevor Dunn (baixo), presentes desde a gênese da banda, mantêm viva a identidade torta e sofisticada do Mr. Bungle.

Como esperado, o show priorizou o repertório de The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo, trabalho que resgata as origens do grupo com mergulhos intensos no Thrash e no Death Metal. As músicas soam ríspidas e velozes, com Lombardo conduzindo mudanças de ritmo brutais e Ian despejando riffs cortantes. Patton, camaleônico, alterna guturais, gritos e trechos caricatos, comandando o caos com absoluto domínio.
Do “Bungle do Velho Testamento” vieram momentos não menos hilários, como “My Ass Is on Fire” que ganhou um medley com “Funkytown (Lipps Inc).” e o tema de Pepto Bismol (medicamento para diarreia!) mais “Retrovertigo”, que não aparecia ao vivo havia cerca de 25 anos e ressurgiu como mimo para fãs antigos.
Mas o Bungle nunca é só peso. A ala das covers inusitadas brilhou com releituras de “Tuyo” (Rodrigo Amarante), “I’m Not in Love” (10cc) e até “Hopelessly Devoted to You”, do musical Grease. O bloco ainda incluiu versões poderosas de “(Fuck the) USA”, do The Exploited, e “Refuse/Resist”, do Sepultura, para um público que esgotou os ingressos.
Comunicativo, Patton se arriscou no português e falou brevemente sobre sua relação com a Umbanda e respeito às mulheres, criando conexão direta com a plateia.

No fim, a banda ainda emendou uma versão debochada de “All By Myself”, transformando o refrão em um coro coletivo de “go fuck yourself”. Entre violência sonora, humor ácido e virtuosismo, o Mr. Bungle mostrou que segue mutante e perigosamente criativo.
Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/
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