MARY AND MAX (Mary & Max – Uma Amizade Diferente, 2009)


“Animação provoca tanto o riso quanto as lágrimas”

Pode uma animação trazer mil pensamentos e ideias para você? Pode exigir até que, para resenhá-la, você tente se esforçar para usar seu talento máximo na escrita? E quando falta ao autor do texto compreensão semântica e desenvoltura para descrever algo tão multifacetado? Dilemas à parte, ‘Mary e Max’ cai naquela tese de que certas produções cinematográficas não precisam ser descritas ou recomendadas, precisam sim ser descobertas. O autor do texto (neste caso, eu) o faz por desencargo de consciência e para alertar alguém que ainda, na pior das hipóteses, deixou passar batido.

A animação é feita utilizando-se da técnica das massinhas de modelar. O que me fez lembrar do antigo desenho ‘Mio Mao’, criado pelo italiano Francesco Misseri e que me encantava muito. Enquanto lá a dupla de gatinhos trazia um ar bem humorado, ‘Max And Mary’ traz melancolia em todo seu cerne. Tanto que comparo essa animação tão triste com ‘As Bicicletas de Belleville’ (2003). Ambos retratam de forma fiel o poder da comunicação e da amizade. Por ser baseada em fatos reais, traz muita verossimilhança com nossas vidas. Eu mesmo, fiz muita amizade neste mundo virtual e sequer conheço esses amigos em carne e osso, porém tenho muito apreço por eles. Como o filme se passa na década de 70, o meio de comunicação então era a máquina de escrever ou cartas escritas à mão.

Tanto Mary (uma menina de 8 anos da Austrália) como Max (um quarentão obeso de NY e que tem Síndrome de Asperger) tem muito em comum, apesar de só trocarem assuntos por cartas. Mary, entretanto, pretende fazer uma economia para poder visitar o amigo americano. Solitários e caseiros, melancólicos, com falta de sintonia em relação mundo que os cerca, com fobias e esperando apenas um momento único para conheceram uma verdadeira amizade. Ela chega, numa simples jogada de destino. A bem da verdade, Mary tem sua família, alheia a tudo. Mãe alcoólatra e cleptomaníaca e o pai pensa apenas em trabalhar com a arte da taxidermia nos fundos do quintal.

Creio que um dos pontos fortes do filmes são as falas do narrador. Por exemplo, logo no início, ao traçar as características de ambos os personagens. Por isso, a cada quadro de animação você precisa ficar atento.

Carregado de um humor finíssimo (como há muito tempo não se via), você sente ternura com ambos, e ainda consegue se tornar cúmplice, meio que disfarçadamente e com um pingo de remorso, das vicissitudes de ambos. Atente para o momento em que Max vai relatando seus empregos.

Mesmo os personagens secundários não perdem o charme na narrativa. O vizinho de Mary é um cadeirante que tem agorafobia (mas a menina acha que ele tem ‘homofobia’) e vive tentando conseguir sair de casa. Enquanto a vizinha de Max é uma idosa cega que ajuda em algumas tarefas dele, ou mesmo atrapalha – não nas piores das intenções.

Muito mais além, as cartas trocadas entre os dois tratam de filosofia, das dificuldades do amor, dúvidas, religião, temas sociais e de muito chocolate (até). Em contrapartida, a amizade entre os dois personagens, ao longo da história, não será tão fácil. Como tudo que a vida apronta, há empecilhos, mal entendidos e pedidos de desculpas. Muitas reviravoltas cercarão o espectador, até que ele caia desabando de lágrimas com as cenas finais.

Numa época da valorização do colorido demasiado, da técnica 3D ou da (super) computadorização, de algumas apelações na mídia, é imprescindível animações do nível de ‘Mary And Max’. Uma produção que talvez te faça dar aquele abraço no seu amigo mais próximo ou mesmo guardar as cartas (ou e-mails) dos amigos mais distantes. Sinta-se à vontade.

:: NOTA: 9,2

:: FICHA TÉCNICA:

Gênero: Animação, Drama, Humor
Duração: 1h 32min
Direção: Adam Elliot
Vozes: Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Barry Humphries, Eric Bana, Bethany Whitmore e outros
Roteiro: Adam Elliot
Origem: Australia
Lançamento: 16 de abril de 2010 (Brasil)
IMDB: Mary e Max: Uma Amizade Diferente

 

 

 

:: Assista abaixo ao Trailer:

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