Yard Act solta o verbo em estreia com ‘Overload’


Foto da banda Yard Act, para resenha de Overload
Foto | Phoebe Fox

Escolhido pelo Yard Act para seu álbum de estreia, sobrecarregado é um termo bem apropriado para os nossos dias atuais. O mundo em que vivemos ou a vida que levamos parece nos sobrecarregar das mais diversas formas, são as várias e velhas obrigações, informações e preocupações cotidianas (somadas as relacionadas à Covid-19), e as novas leva de desgaste com informações falsas, negacionistas, terraplanistas, fascistas, antivacinas, etc, etc, etc. Difícil não sentir-se sobrecarregado, prestes a um curto-circuito.

Esse sentimento de sobrecarga cotidiana está exposto nas letras de Overload, que musicalmente pode até soar como um convite à diversão por causa das batidas pra cima ou dos riffs de guitarra eufóricos, e não há mal nenhum em cair na dança, já que o groove come solto em faixas como “The Overload” e “Payday” (Pegue o dinheiro, pegue o dinheiro, pegue o dinheiro e corra), dois momentos grandes do disco.

James Smith e sua banda constroem um álbum com temáticas contemporâneas, fazendo uso de uma narrativa urbana e incisiva, com observações mordazes sobre a sociedade atual. Nesse sentido, carrega em seu cerne o zeitgeist, ou seja, o espírito de seu tempo, com observações sobre o pós Brexit, fake news, ganância, gentrificação, a pressão pelo sucesso e status. Para isso, as letras seguem o estilo de curtas histórias com personagens diversos ou uma jornada de personagem único com reviravoltas de picos e vales ao longo das faixas, que começa num pub (na faixa de abertura) e termina com os primeiros raios de sol, no álbum, em “100% Endurance”.

James Smith vem munido de um discurso afiado que faz uso do estilo muito “em voga” atualmente, o chamado spoken word, do qual o saudoso Mark Smith (The Fall) era um dos grandes representantes, mas que também já foi utilizado por artistas vários como John Cooper Clarke e até Laurie Anderson. O spoken word tem no estilo quase blasé de Florence Shaw (dos ótimos Dry Cleaning) um dos exemplos mais interessantes na atualidade, junto ao Black Country, New Road. Por outro lado, o instrumental do grupo privilegia a interação pulsante de baixo e bateria, que soma-se ao discurso vociferado do vocalista, afeito a refrões espertos para serem cantados em uníssono em casa ou durante um show.

Egresso do interessantíssimo grupo Post War Glamour Girls, Smith já havia mostrado ali sua capacidade vocal, explorada até num nível de exigência mais alto, já que usava bastante do falsete. Com o Yard Act, seu desafio é o de concretizar apostas que ficaram pelo caminho com seu antigo grupo. Isso explica essa abordagem musical “diferente”, que se alinha aqui e ali ao Pós-Punk mais agitado do Gang of Four (sem a potência interpretativa de John King, diga-se), mas está mais próxima mesmo do chamado Dance-Punk de um LCD Soundsystem, menos eletrônico e mais guitarristico. O grupo está ali naquela prateleira em que é possível encontrar alguns nomes da nova cena musical inglesa como Sleaford Mods, Folly Group, Courting, The Lounge Society e até o Shame.

Originários de Leeds, lar também do Kaiser Chiefs, o Yard Act foi formado em 2018 e já havia chamado a atenção com o EP Dark Days, trabalho de estreia onde davam as cartas sobre o que esperar de sua música, principalmente na contagiante faixa de mesmo nome. Overload é a confirmação de que o grupo tinhas mais munição de mesmo calibre, ao ponto de se darem ao luxo de não incluir nenhuma das quatro faixas que compunham o single, nem mesmo “Fixer Upper”, seu grande hit.

Se a primeira parte do álbum traz um encadeamento de cinco canções quase perfeito, na segunda parte o fogo inicial é jogado para baixo como uma foqueira repleta de cinzas na superfície. Apesar disso, destacam-se o lado mais dançante de “Quarantine the Sticks” e “Pour Another”, assim como a longa “Tall Popies”, faixa mais longa do álbum, e também que foge ao paradigma apresentado ao longo do disco.

+++ Leia a crítica do álbum ‘A Hero’s Death’, do Fontaines DC

Descompromissado e afiado, Overload é aquele tipo de álbum em que é possível perceber uma banda lançando um primeiro disco com algumas apostas elevadas, mas sem se deixar levar pelas expectativas. James Smith não é mais um adolescente, tem 31 anos e sabe como funciona a máquina funciona, de forma que se tudo der certo, eles em breve estarão lançando um outro álbum, se não, também. E ele não vem pra ajudar a tirar a nossa sobrecarga, mas pode ajudar a encará-la de uma outra forma.


Capa de Overload, do Yard Act

INFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 21/01/2022
GRAVADORA: Island Records, Zen F.C.
FAIXAS: 11
TEMPO: 37:10 minutos
PRODUTOR: Ali Chant
CURIOSIDADES: James Smith fez parte da banda Post War Glamour Girls, com quem lançou três álbuns de estúdio | A banda assinou com a Island Records em 2021, após o lançamento do EP ‘Dark Days’.
DESTAQUES: “The Overload”, “Payday”, “The Incident” e “Tall Poppies”.

 



 

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